No seio da aparentemente perfeita família Marah, segredos obscuros e traições entrelaçam-se em um turbilhão de dramas e mentiras. Em “O Convidado”, o escritor Henri Lui desnuda as hipocrisias ocultas por trás das elegantes fachadas, revelando que sob a superfície polida residem obscuridades que desafiam a moralidade. Com influências da literatura russa do século XIX, a obra mergulha nas profundezas psicológicas de cada personagem, tecendo uma trama intricada de mistério e intriga que prende o leitor até a última página.
Como surgiu a ideia de escrever “O Convidado” e o que o inspirou a explorar os temas de traição, assassinato e hipocrisia familiar?
Eu tenho uma amiga que trabalhou como assessora de um desembargador do Tribunal de Justiça, e ela me contou que ele cobrava propina em torno de R$20.000 para votar a favor de determinados processos. Eu fiquei com a ideia de escrever um romance sobre isso: um desembargador corrupto. Na mesma noite em que terminei meu primeiro livro, comecei a escrever “O Convidado”. Acontece que eu só tinha uma ideia, que era o primeiro capítulo da primeira parte da obra, o desembargador corrupto e sua família. Então escrevi o primeiro capítulo com a família. Sequer o segundo capítulo tinha pré-concepção – Ofélia e Sérgio.
A partir daí, as ideias surgiam a cada novo capítulo, e foi assim até o final do livro. Todo final de um capítulo, eu tinha a certeza de que não haveria mais história, porque eu não tinha ideia do que escrever no próximo. Isso se deu do segundo capítulo da primeira parte, até o último capítulo da décima parte, porque, na penúltima página do livro, eu não sabia como ele ia terminar. A decisão do Ludovico de contar sua história somente ocorreu, tanto para mim como para ele, quando da visita do padre em seu quarto. Então, todos os acontecimentos, as tragédias, os crimes, os vícios e as virtudes humanas não foram preconcebidos. Eles foram surgindo na medida em que os personagens surgiam e se desenvolviam durante a narrativa.
Em “O Convidado”, os Marah são retratados como uma família aparentemente perfeita, mas cheia de segredos. Qual mensagem você espera transmitir aos leitores ao explorar essa dualidade?
Que nós, seres humanos, somos como a lua: temos sempre uma face oculta, ao menos em dado momento, às vezes, por uma vida. Temos um lado escuro, guardado, difícil de se ver ou intransponível, que às vezes somente a consciência conhece, mas que, às vezes, por circunstâncias da vida, acaba sendo revelado sem que essa seja a intenção. A face que mostramos é aquela aparente, mas temos aquela guardada no fundo do peito ou no fundo da consciência, aquela face, aquele lado escuro que ninguém conhece.
Você se inspirou nos clássicos da literatura russa para escrever este romance. Como essas influências refletem na narrativa e nos personagens de “O Convidado”?
Acho que me inspirei no século XIX primeiro, porque quase a totalidade dos romances que li são deste século, do romantismo. Dentro dessa perspectiva, a Rússia assume de fato um papel predominante tanto em minha leitura quanto em influência para o desenvolvimento da narrativa, seu estilo, sua forma… Tudo deve vir por mera influência de leitura, não por mérito, certamente do romantismo do século XIX e dos escritos russos, mas há também influência de outros escritores: Vitor Hugo certamente, Thomas Mann, Balzac, Camus, Charles Dickens, Oscar Wilde, até Proust… também merece especial referência Robert Musil, Sommerset Maugham (servidão humana) e Henri Field, com Tom Jones.
O livro não fala da Rússia, mas fala dela… os personagens têm nomes russos, eu falo dos montes Urais, das viagens de trem, Pétia é de Petesburgo.. Sankt é de São (Petersburgo). Tem o frio, as paisagens e, claro, a narrativa romântica, que, certamente, tem essa característica vinda da leitura dos romances do século XIX e de meu apreço por esse movimento social, cultural, artístico e até político, que se iniciou no século XVIII, na Alemanha, e se espalhou pela Europa, pelo mundo, e fincou raízes permanentes. É uma narrativa caracterizada por emoções extremas, sentimentalismo, melancolia, paixões, amores e pelas lindas histórias.
O livro é dividido em duas partes principais. Como você equilibrou a trama entre a dinâmica familiar dos Marah e a entrada de Fiódor (ou Xavier) na história?
Como disse, eu simplesmente não fazia ideia e não tinha nada preconcebido a não ser a figura de um desembargador corrupto. A entrada de Xavier na segunda parte surgiu apenas quando terminou a primeira parte do livro. E quando ele entra no trem, sem destino e sem saber o que seria de sua vida, eu, enquanto autor, também não fazia a mínima ideia.
Eu queria um livro com dez partes, por conta de Anna Karenina, que tem esse formato. Mas não imaginava essa decisão em cinco partes e cinco partes como foi feita. A amarração de um viés da história pausar em uma parte e ser retomada partes depois parece proposital e extremamente preconcebida, desenhada, formada detalhadamente. Mas eu só tive noção quando comecei a revisar o livro, depois de todas as partes prontas.
Talvez se eu tivesse essa consciência, a vontade ou a ideia de fazer dessa forma, provavelmente restaria engessado nesse formato e talvez a narrativa sequer se desenvolvesse. Foi tudo ao acaso. Tinha apenas a ideia de ter dez partes, mas era uma ideia meramente relativa, um tanto quanto pretensiosa, ilusória e quiçá inalcançável, já que nunca me imaginei capaz de escrever um romance desse tamanho e dessa complexidade.
Esse equilíbrio foi dado pelos próprios personagens que ditaram o ritmo da história e dos acontecimentos, deixando-me como um mero instrumento que externou e concretizou um enredo ditado, decidido, criado e vivido por eles.
Os personagens de “O Convidado” são complexos e multifacetados. Como você desenvolveu suas personalidades e motivações ao longo do enredo?
Tomo isso como elogio, porque essa, de fato, era uma preocupação constante, porque acredito que é requisito indispensável ou imprescindível a um romance. A riqueza psicológica, as reservas mentais, os ardis, os fluxos de consciência, os vícios e as virtudes escondidos dentro de um remoto inconsciente ou saltando às escancaras em qualquer respirar ou atitude. Isso torna rica uma obra, claro, dentro da concepção de um bom enredo e uma boa escrita. Eu diria que é o colorido da narrativa, aquilo que aguça, cativa, desperta o leitor, ou mais que isso, marca nele impressões ou memórias, traz aquele prazer inefável que é ler um romance e viver esse romance. Então, claro que existia essa preocupação em mim, e muitas vezes eu acreditava, depois de revisar a obra, que não havia complexidade nos personagens, em suas personalidades, e muito menos essa adjetivação de “multifacetados”. Então, mais uma vez, obrigado. Agora, para complementar essa resposta, eu vou emendá-la com a resposta à sexta pergunta.

O tema do luto é explorado na história com a morte precoce de Nikolau. Como essa experiência afeta os membros da família Marah e molda o curso dos eventos?
O que vou dizer aqui seria leviano se eu não dissesse, muito embora possa parecer algo difícil de se acreditar, mas que, para mim, dentro da minha vivência com a criação da obra, com as minhas sensações e impressões, foi a mais pura realidade. Não se trata de falsa modéstia ou algo do género.
Eu tinha pré-concebido, como dito, apenas a figura de um desembargador corrupto. depois que desenhei a família dele, fiquei com a impressão, que crescia cada vez mais, de que Nikolau seria o personagem principal da história, embora não existisse nele, ainda, nenhuma característica que pudesse fazer dele o papel principal da narrativa. Mas poderia ser algo como o Princípe Míthcin, em “O Idiota”, de Dostoievski – apenas como ilustração, longe de qualquer comparação, pelo amor de Deus!
Eu pretendia realmente mandá-lo ao hospital porque ele não se alimentava. Ocorre que, a partir do momento que ele entrou no hospita, eu disse para mim mesmo: ele vai morrer! E enquanto, desesperado, eu dizia em voz alta “ele não pode morrer!”, eu, com os dedos, descrevia a morte dele. Foi aí que eu percebi que eu não detinha qualquer decisão ou autonomia sobre os personagens e que eles é que ditariam o rumo dos acontecimentos e de suas vidas. Eu seria um mero instrumento que iria narrar isso, como se pusesse num papel a história de um filme que tivesse visto.
E aí os personagens chegaram, surgiram, se foram, agiram na forma como bem lhe entendiam. E a complexidade de suas condutas, seus pensamentos, suas vilezas, não vieram senão deles, cuja grande maioria eu sequer conhecia até surgirem. Muitas vezes eu ficava sabendo de suas atitudes na medida em que eles as praticavam. Há diversas passagens em que eles agem com relação a algo que vão fazer no futuro e que eu não tinha a mínima ideia.
Agora, a morte de Nikolau afetou duas pessoas: sua mãe Natália, e a mim, que fiquei em luto por dias, perdido e triste, sem um pilar da narrativa, como Natália ficou sem um pilar de sua família. Certamente a falta desse pilar, somado a outros acontecimentos, contribuiu para seu desvio de caráter quando se envolveu com seu suposto sobrinho, por quem sua filha era apaixonada. Mas para por aí… Em relação a Ivan e às irmãs, a morte de Nikolau não os afetou, os atingiu quando do acontecimento, mas não os afetou posteriormente em absoluto…
Como foi o processo de escrita para criar a trama misteriosa e cheia de reviravoltas de “O Convidado”? Você já tinha o enredo completamente planejado desde o início ou algumas reviravoltas surgiram durante a escrita?
Pois é, essa resposta foi dada acima e nas anteriores. Eu só tinha a ideia do desembargador corrupto. O restante da trama foi criada pelos personagens, sem que eu tivesse, e muitas vezes eu me sentia assim, como foi na morte de Nikolau, qualquer poder de decisão ou mesmo influência sobre esses acontecimentos me deixando. Foi assim que me senti, como antes um instrumento que um autor, que segue até hoje sem entender sobre a própria obra que crio.
Qual a importância de explorar questões psicológicas e problemas íntimos dos personagens em “O Convidado”? Como isso contribui para a profundidade da história?
Acho que disse um pouco sobre isso acima. Me parece mais um requisito necessário a colorir a trama, a trazer a profundidade à história. A contribuição é total, dependente e fundamental. Depois de um bom entendo e uma boa escrita, deve vir os personagens e, claro, suas personalidades, suas complexidades… Isso é que define uma história como Romance, como literatura,. no meu modo de ver. Basta imaginar Raskolnikov sem profundidade psicológica em “Crime e Castigo”. Mas, como também disse, achei que tivesse fracassado ou não atingido minha pretensão quanto a isso depois de revisar o livro.
Como é sua jornada como escritor, desde a estreia com “J.” até o lançamento de “O Convidado”? Quais são seus planos futuros na escrita?
É quase, ou talvez seja, de fato, um Karma… adiantando que o conceito dessa palavra não remete a algo negativo. Mas não é, não foi um ato de vontade. Se dependesse dela, eu não teria escrito nenhum dos dois livros, nem o restante dos escritos que tenho. Acho que é algo que minha alma sempre pede, algo que acontece quando, diante de um papel em branco, sinto uma necessidade quase que fisiológica de criar algo que não existe por meio de palavras – e que, se não fizer, minha consciência não fica em paz.
Eu aprendi a ler sozinho com três anos. E, embora soubesse falar, somente comecei a dizer frases quando tinha 4, 5 anos. Mas, desde os três já lia e fugia de qualquer lugar fechado que estivesse: casa, escola, berço, que eu caía toda noite porque escalava ele para dele sair, até minha mãe decidir por me colocar numa cama. Tenho essa fobia até hoje, e me machuco muito quando em sonhos, ou acordado sem saber onde estou, ou a direção de onde ir, mesmo que dentro de meu quarto, meio que num sonambulismo. essa fobia me faz correr, me debater, e, como está escuro,. dá pra imaginar a tragédia dos acontecimentos até eu acordar.
Depois descobri que tenho espectro autista em certo grau, e isso fez com que muitas coisas se explicassem e fizessem sentido dentro de mim, chegando a trazer até, além de resiliência, certo acolhimento meu a mim mesmo, diante de minhas esquisitices e idiossincrasias.
Sobre planos… Eu escrevia letras de música quando novo, mesmo sem ter uma banda. Descobri, durante a pandemia, num computador, quase que uma centena de “poemas” que escrevi entre 2012 e 2013, mesmo não gostando, nem lendo poesias.
E isso fez com que, de lá para cá, eu me atrevesse a certos escritos, que não são poemas, são descritos, na ideia de desconstruir a escrita de um poema, como se fossem rai kais em alguns, ou como forma e rima mesmo de poesias estruturadas. Mas sempre com a ideia de desconstruir qualquer pré-concepção que se tenha para que se crie algo literário, desde uma crônica a um romance antológico. E agora são mais de 300 desses descritos, que serão lançados na Bienal do Livro em SP, junto com a segunda edição de “O Convidado”, que também está sendo traduzido para o inglês e está em todas as plataformas digitais.
Mas “O Convidado” me tomou oito anos de trabalho diário: dois anos para escrever a história e seis anos revisando, sendo que eu não namorava, não saía, nem sequer transava. Eu trabalhava e escrevia. E é um processo solitário, dolorido, silencioso, extremamente trabalhoso e que você muitas vezes se pergunta se tem sentido você se dedicar aquilo por tanto tempo, dando certo medo de estar desperdiçando a vida, os dias com algo que não terá valor algum simplesmente pelo fato de você não ter aquele dom literário, mas que infelizmente, você não se deu conta ainda disso. Para mim, é também um processo terapêutico, e foi um meio de sobrevivência, literalmente, em fases mais críticas da minha vida.
Mas agora estou nessas escritas curtas que são mais fáceis e menos doloridas, talvez como forma de fugir dessa rotina de um novo romance, muito embora ele já tenha começado, mais uma vez não por vontade minha. Eu estava em maresias assistindo vídeos do David Bowie no sofá da sala bêbado, e aí algo acontece sabe, um estalo, e aí tudo é um transe. Eu me levantei, peguei meu notebook, sentei-me na área da frente da casa e comecei a escrever, sem saber o que, para quê, nem se era o começo de algo, ou algo em si mesmo, ou o final de algo, ou se não era nada. Simplesmente você escreve e, quando tento lembrar ou racionalizar a sensação que tenho, é que não havia muito racional ali, naquele momento, não esse nosso, esse de nosso conhecimento. Tudo é muito repentino, é de inopino, é inefável, e, por que não, de certo ponto de vista, absolutamente instintivo, beirando mesmo, quase que o irracional, mas não de incapacidade de pensar, mas de estar em outra áurea, outra esfera, outro plano, como se em transe mesmo. Talvez até o olhar seja diferente, o comportamento, como uma crise de autismo, caso meu espectro fosse um pouco maior.
E descobri depois de anos essas páginas, porque sequer lembrava delas. E aí consegui chegar nesse dia, mas não lembrava de nada, e a qualidade literária me impressionou, e me preocupou, porque não dá para mantê-la. E não dá para entender que fui eu, nesse estado de agora por exemplo, nesse plano de consciência, que tenha escrito aquilo. Mas esse é o começo de uma história, que certamente não me deixará em paz até ela ser finalizada.
Só espero que eu consiga transformá-la em uma novela de 90, 100 páginas, e não em um romance de 700, 1000 páginas, como já me passou várias vezes pela cabeça… Embora seja uma das experiências mais incríveis que se pode ter na vida, ela é solitária, e eu estou cansado de ficar sozinho. Tenho tido até certa fobia da solidão, e talvez por isso tenho tido dificuldades em voltar a ler romances na proporção que eu lia.