Diretamente de Austin, no Texas, o músico Jonny Lurie constrói um universo sonoro que transita entre o rock psicodélico chill, grooves instrumentais profundos e composições carregadas de atmosfera. Atuando tanto com banda quanto em performances solo com live looping, o artista aposta na experimentação, na liberdade criativa e na conexão emocional com o público. Nesta entrevista, Jonny fala sobre a evolução do seu som, o equilíbrio entre instrumentais e vocais, os desafios técnicos do live looping e os próximos passos de sua trajetória musical.
Sua música transita por um espaço de “rock psicodélico chill”, com muitas influências. Como você definiria o seu som hoje — e como ele evoluiu até chegar aqui?
Quando as pessoas me perguntam que tipo de música eu faço, é sempre uma pergunta difícil de responder. Grande parte da minha música é muito guiada pela guitarra, e acredito que, independentemente do gênero, uma parte do meu estilo aparece na forma como eu toco guitarra. Eu também toco baixo nas minhas músicas, e existe um estilo específico também na minha maneira de tocar baixo. Da mesma forma, independentemente do gênero, sinto que minhas letras costumam ter uma identidade própria.
Acho que ser um artista solo e ter meu próprio estúdio caseiro de gravação realmente me deu a oportunidade de explorar diferentes gêneros. Eu ainda estou descobrindo para onde estou indo, e isso faz parte da empolgação para mim.
Você é conhecido por grooves instrumentais profundos. O que te inspira na criação dessas bases — e como você constrói dinâmica para manter o ouvinte engajado sem depender de vocais?
Sou inspirado por todos os tipos de música que tive a sorte de descobrir ao longo da minha vida. Acho que a música instrumental está passando por um grande retorno. É muito legal ver artistas como Khruangbin ou Hermanos Gutiérrez, por exemplo, alcançando tanta popularidade sendo totalmente — ou quase totalmente — instrumentais.
As letras e a voz humana são extremamente envolventes e expressivas, mas acredito que as pessoas também valorizam muito músicas que não contam com esses elementos. A música instrumental cria algo sem um significado inerente, o que é bem interessante. Também li que playlists de música instrumental costumam gerar mais “maratonas” de escuta do que músicas com letras.
No fim das contas, eu faço música que gosto de fazer e espero que isso também ressoe com outras pessoas. Pensando nos meus instrumentais, alguns constroem camadas ou intensidade conforme a música avança. Outros trazem uma parte central inesperada ou um final surpreendente. Acho que surpresas costumam funcionar bem para manter o ouvinte envolvido.

Como artista solo, você utiliza live looping. Qual foi o maior desafio técnico e criativo desse formato — e o que ele te permite fazer que uma banda completa nem sempre permite?
Minha jornada com o live looping começou com um looper bem simples, usando apenas a guitarra. À medida que comecei a me apresentar mais sozinho, fui desenvolvendo cada vez mais meu setup. Atualmente, uso guitarra elétrica, guitarra acústica e uma drum machine, onde toco os beats ao vivo em um estilo de finger drumming. Também tenho um pedal da Electro-Harmonix que emula muito bem o som de um baixo.
Hoje, uso um looper que permite criar até seis loops diferentes, podendo iniciar e parar cada um individualmente. Já mudei meu setup várias vezes nos últimos anos, e sempre estou experimentando coisas novas, embora atualmente esteja bem satisfeito com o que uso. Esse método acabou se tornando uma espécie de abordagem de “one man band”, por falta de uma expressão melhor.
O live looping me permite executar algumas músicas autorais que têm muitas camadas de guitarra, algo que simplesmente não funcionaria em um formato de banda, a menos que houvesse muitos músicos tocando comigo. Por outro lado, quando me apresento com minha banda, existem músicas que funcionam muito melhor nesse contexto do que no formato solo com looping.
E por mais divertido que o looping seja, uma vez que cada loop é criado, ele não muda. Já com uma banda, há interações constantes entre os músicos, tocando uns com os outros, e isso simplesmente não pode ser replicado em uma apresentação solo com live looping.
Como sua mentalidade e sua performance mudam quando você está no palco com a banda, em comparação a quando está sozinho controlando tudo em tempo real?
Quando me apresento sozinho, existe uma margem de erro muito maior com o looping do que quando estou tocando com a banda. Parte da performance envolve criar um beat de bateria, adicionar guitarras, cantar, retirar o baixo e a bateria, trazê-los de volta, e assim por diante. Há muita coisa para se concentrar além de apenas tocar e cantar.
Quando estou com a banda, é basicamente tocar, cantar e trabalhar com o pedalboard, mas de uma forma muito menos complexa. Ambos os formatos são muito divertidos, porém extremamente diferentes um do outro.
Além dos instrumentais, você também lança músicas com vocais e letras marcantes. O que determina quando uma ideia “precisa” de letra — e sobre o que você gosta de escrever?
Às vezes, já começo com ideias de letra e escrevo com um violão para criar a música. Outras vezes, tenho uma ideia de riff de guitarra e começo a escrever e compor conforme vou gravando no estúdio. Nesses casos, às vezes já sei de imediato que a vibe vai ser puramente instrumental. Em outras situações, testo vocais — e eles podem funcionar ou não.
Alguns dos meus letristas favoritos vêm de todos os gêneros possíveis, mas tenho uma queda especial por compositores do folk e do hip hop, que costumam ser estilos muito centrados em letra. Eu escrevo sobre o que surge naturalmente. Se algo me empolga enquanto estou escrevendo, eu simplesmente sigo em frente. Às vezes preciso ligar para um amigo e perguntar: “seja sincero, isso é legal ou é cafona?” (risos). Mas, na maioria das vezes, se soa bem para mim, eu sigo em frente.
O que você espera que o público sinta ao assistir a um show seu — e o que vem a seguir: novos singles, EP/álbum, turnê ou novas experiências no palco?
Acho que quero que o público se sinta inspirado quando assiste a um show meu. Normalmente, quando vejo uma grande apresentação ao vivo, a melhor parte é a inspiração que ela me traz, então espero conseguir proporcionar isso para quem vai aos meus shows.
Tenho alguns singles novos em andamento e, com sorte, um álbum com músicas antigas que nunca foram lançadas. Sempre quero focar no álbum, mas acabo me distraindo com músicas novas e singles. Então vamos ver como isso se desenrola — mas com certeza vem muita música nova este ano, de uma forma ou de outra.
Tenho alguns shows marcados em Austin e nas regiões ao redor, tanto solo quanto com a banda. E adoraria organizar uma turnê para o final de 2026 ou início de 2027!
Acompanhe Jonny Lurie no Instagram