“Bas Fond – Um Conto Urbano e Suburbano”: O intrigante romance de Felipe Benício revela os múltiplos matizes do Rio de Janeiro dos Anos 90

Luca Moreira
9 Min Read
Felipe Benício (Alexandre Brum)

Em “Bas Fond – Um conto urbano e suburbano”, o passado do Rio de Janeiro, distante da alcunha de “cidade maravilhosa”, ganha vida. Escrito por Felipe Benício, o livro transporta os leitores para a década de 1990, entrelaçando elementos de narrativas policiais e de mistério em uma trama que desvenda um crime capaz de abalar a sociedade brasileira enraizada em aparências.

O enredo segue Mário Mariano, um jornalista recém-formado que se lança em um trabalho em um jornal à beira da falência. Sua primeira reportagem, uma matéria exclusiva sobre uma prostituta vítima de abuso sexual, toma proporções inesperadas com o desenrolar do caso. Em meio a descobertas sobre figuras influentes na polícia local, Mário expõe desigualdades sociais e de poder na capital.

Inspirado por suas próprias experiências, o autor, que começou sua carreira como repórter policial, tece um panorama histórico do jornalismo brasileiro. A trama desenha detalhes vívidos do Rio de Janeiro, permitindo que até os não familiarizados com a cidade caminhem pelas ruas do Catete, bairro que já abrigou o palácio presidencial.

Felipe Benício entrelaça recursos narrativos como flashbacks, transportando o público do subúrbio carioca à alta sociedade de Belém nos anos 1960. Capítulos breves alternam perspectivas narrativas e diálogos diretos, refletindo a crueza da realidade. A jornada de Mário Mariano, contudo, não se encerra em “Bas Fond”, preparando-se para prosseguir em novos livros que conectam o jornalista a outros momentos-chave da história brasileira.

O livro “Bas Fond – Um conto urbano e suburbano” se passa na década de 1990 no Rio de Janeiro, retratando uma perspectiva diferente da cidade. O que o motivou a escolher esse período específico para ambientar a história?

Pelo fato de ter iniciado minha carreira como jornalista nesta época, como repórter de polícia no extinto jornal Última Hora.

O protagonista, Mário Mariano, é um jornalista recém-formado que se envolve em uma trama complexa. Como você desenvolveu esse personagem e o que o diferencia de outros protagonistas de narrativas policiais?

O Mário Mariano é, de fato, um “alter ego” meu. Conforme falei na pergunta anterior, comecei minha carreira no Última Hora, que está representado na trama como o jornal fictício Primeira Impressão. O personagem é um típico jornalista iniciante do começo da década de 90, uma época em que o país estava em recessão, com inflação alta e com oportunidades limitadas no mercado de trabalho. É muito fruto do que vivi pessoalmente. Acho que a diferença de outros protagonistas é que a oportunidade de se destacar na profissão cai meio que por acaso no colo dele, em consequência de estar de plantão no primeiro dia do ano e ter a oportunidade de entrevistar a garota de programa seviciada na noite anterior que procura o jornal para denunciar o ocorrido.

A obra mescla elementos das narrativas policiais e de mistério. Como você conseguiu equilibrar esses elementos para criar uma trama envolvente e cativante?

Tive como influências literárias para escrever o livro, principalmente, Mário Vargas Llosa – os diálogos intercalados – e Garcia Roza, com o delegado Espinoza. Procurei trazer um pouco de ambos para a história. O primeiro, de forma um pouco distinta, trazendo flashbacks que mostram a origem de alguns personagens, mas que, na minha opinião, remontam de certa forma à técnica do premiado escritor peruano. E o segundo, na ambientação da trama no Rio de Janeiro, mostrando algumas características da cidade, especificamente na região do Largo do Machado, Catete e Glória. Garcia Roza trabalhou o delegado Espinoza especificamente em Copacabana, colocando o personagem como delegado da delegacia do bairro.

Mário Mariano é um repórter que enfrenta desafios em sua carreira e se depara com um crime que expõe desigualdades sociais e de poder. Como esses temas se entrelaçam na história?

Procurei traçar um enredo em que as vidas de personagens humildes e de classe média baixa acabam por se entrelaçar com outros poderosos. Além disso, temos imigrantes de outros estados e mesmo da Europa. Isso acaba trazendo um grande caldo cultural que contribuiu para mostrar um pouco do que é o Brasil, especificamente o Rio de Janeiro.

Você mencionou que a narrativa é inspirada em suas próprias vivências como repórter policial. Como essa experiência influenciou a criação da trama e dos personagens?

Tive a oportunidade de ver pessoalmente e também de ouvir algumas histórias quando trabalhei como repórter policial, no início de minha carreira como jornalista. Algumas delas, estão, claro, de forma romanceada, no livro.

Felipe Benício

“Bas Fond” explora detalhes descritivos do Rio de Janeiro, especialmente do bairro Catete. Como você utilizou a ambientação para enriquecer a história e fazer com que os leitores se sintam imersos no cenário?

Por ter trabalhado na extinta Bloch Editores, frequentei muito o bairro na minha juventude. Procurei trazer algumas referências do local para o universo do livro, tentando mostrar alguns pontos icônicos da região, como o Outeiro da Glória, para a trama.

O protagonista Mário Mariano terá continuidade em outros livros, conectando-se a momentos-chave da história brasileira. Pode nos contar um pouco sobre os planos para essa série de livros?

Neste primeiro livro, Mário Mariano é um repórter iniciante, e trabalha em um jornal decadente. No final da história, ele é sondado por uma jornalista experiente para ir trabalhar em um veículo de prestígio. As continuações – que imagino terem intervalos de uma década cada uma – mostrarão a evolução da carreira dele. O próximo livro já tem título – High Society – e trabalhará temas análogos, como prostituição de luxo e corrupção policial, mas já entrará numa seara política, apenas pincelada no final de Bas Fond. A partir daí, conforme a carreira de Mario Mariano avança, a ideia é falar de milícias, eleições, privatizações e, finalmente, no livro que encerra a série, ambientado no final dos anos 2020, imagino uma distopia. Uma história em que Mário Mariano já está aposentado, mas colabora para um veículo nativo digital. O Brasil – com a vitória de um projeto conservador e reacionário nas eleições de 2022 – o personagem já é mencionado em Bas Fond – se torna um país de castas, com alguns segmentos privilegiados, como militares, mercado financeiro, pastores e milícias. Mário Mariano vai atrás de uma história e acaba publicando uma reportagem que derruba o governo e permite recolocar o país na rota democrática.

Além de escritor, você também é jornalista e possui uma especialização em Comunicação Corporativa. Como sua formação e experiência profissional influenciaram sua escrita e a abordagem do livro?

Acredito que consegui levar para o livro o estilo jornalístico de escrever, direto e objetivo, sem prejuízo de garantir uma qualidade literária mínima.

Você mencionou que trabalhou em veículos de comunicação como Última Hora, Rádio Manchete e Bloch Editores. Como essas experiências em redação se manifestam na obra?

No romance, existem alguns personagens com os quais convivi durante minha vida profissional. São jornalistas com os quais tive a oportunidade de trabalhar e, também, outros, que se tornaram meus amigos pessoais e que mantenho contato até hoje.

Acompanhe Felipe Benício no Instagram

TAGGED:
Share this Article

Você não pode copiar conteúdo desta página