Em Manobras de Retorno, o escritor e professor de literatura brasileiro Dau Bastos constrói uma coleção de contos que abrangem quase cinco décadas da história recente do Brasil, colocando seus personagens diante de dilemas morais, riscos pessoais e disputas ideológicas. Da repressão da ditadura militar aos ecos contemporâneos de discursos autoritários, a obra traça trajetórias marcadas por contradições humanas e contextos políticos turbulentos. Na entrevista, Bastos reflete sobre memória histórica, democracia e o papel da literatura no questionamento das forças que moldam a sociedade brasileira.
Em “ Manobras de retorno ” , seus personagens vivenciam momentos de extrema intensidade no Brasil. Quando você percebeu que essas histórias precisavam ser contadas e que a literatura seria um espaço adequado para essa reflexão?
Cresci sob uma ditadura, mas, desde que nos libertamos do jugo militar, pensei que a democracia jamais seria ameaçada novamente. Daí meu espanto ao ver a extrema-direita chegar ao poder pelas urnas. Pior ainda: tiveram um governo desastroso, tentaram um golpe de Estado e, mesmo assim, continuam sendo a primeira ou segunda maior força política do país. Decidi reagir na área em que trabalho há décadas: a literatura, que consegue abordar a história sem perder seu caráter artístico.
A primeira história apresenta uma guerrilheira que enfrenta não apenas a repressão, mas também suas próprias contradições. O que mais lhe interessou explorar: o contexto político ou a dimensão íntima e humana de alguém nessa situação extrema?
A motivação inicial era abrir a coletânea com uma trama emocionante, ambientada no auge da repressão. Agora, os próprios perigos levaram a uma exploração mais profunda da subjetividade do protagonista, cujos paradoxos enfatizei por serem fundamentais para cada personagem. Durante o processo de escrita, lembrei-me dos antigos guerrilheiros com quem convivi, que, apesar de possuírem uma coragem impressionante, eram tão suscetíveis a contradições quanto qualquer um de nós.
O livro abrange diferentes décadas e ideologias, incluindo personagens tanto da esquerda quanto da direita. Como foi escrever com empatia sobre visões de mundo que frequentemente se chocam?
A literatura é particularmente hábil em desmantelar estereótipos. Ela utiliza a ficção para assumir diferentes pontos de vista e, sem se comprometer com nenhum, lançar luz sobre atitudes, pensamentos e emoções. Isso é ideal, claro, já que a visão de mundo do escritor sempre influencia o enredo. No meu caso, o desafio era desidealizar os personagens de esquerda e humanizar os de direita.
Você menciona que a obra surgiu, em parte, do choque de encontrar defensores da ditadura entre seus próprios alunos. Como essa experiência pessoal impactou emocionalmente o processo de escrita?
Leciono narrativa brasileira, que é repleta de textos cujos personagens lutam contra todos os tipos de abusos de poder. Nesse contexto, a ansiedade de encontrar alunos excelentes que fossem favoráveis ao retorno do regime militar foi outro estímulo para a criação de narrativas que oferecem perspectivas sobre eventos significativos do último meio século. Por se tratar de literatura, enfatizei seu impacto, nem sempre racionalizado, tanto sobre defensores da democracia quanto sobre proponentes do autoritarismo.

Seus personagens não aparecem como heróis, mas como pessoas cheias de dúvidas, vulnerabilidades e contradições. Você acha que a literatura ajuda a humanizar a história, especialmente em tempos de discurso mais polarizado e simplista?
Sim, a literatura pode contribuir para a humanização da história porque não se contenta com um realismo caricatural e superficial, mas sim cultiva um senso de realidade que permite criar personagens à nossa própria imagem. E o que cada um de nós vê em si mesmo? Uma confusão de sentimentos e valores, bem como a incapacidade de manter a coerência por muito tempo. Reconhecer isso pode nos tornar mais tolerantes com aqueles que pensam diferente.
Ao ficcionalizar personagens e períodos reais, como no caso de Caio Fernando Abreu, onde se encontra o equilíbrio entre a precisão histórica e a liberdade criativa?
Trabalho como cineasta documentarista e me reinvento como escritor de ficção. Quanto a Caio, conheci-o no início dos anos 80. Até sua morte, em 1996, mantivemos uma amizade que não era apenas casual, mas incluía conversas, drinques e até mesmo a publicação de resenhas dos livros um do outro. Conhecendo sua maneira de pensar sobre a vida e a literatura, imaginei-o facilmente como protagonista de uma história que, no entanto, não corresponde a nenhuma das minhas próprias experiências.
O título ” Manobras de Retorno ” sugere movimento, tentativa, talvez até revisão. Para você, o retorno representa uma possibilidade de correção, de compreensão, ou um alerta sobre riscos que nunca deixaram de existir?
O título surgiu como uma referência aos ataques mais recentes à democracia e, portanto, tinha uma conotação negativa. No entanto, quando usado para nomear a coleção como um todo, também abrange os movimentos em favor da redemocratização do país. Se os duplos sentidos frequentemente enriquecem a literatura, aqui eles também ressaltam o que todos sabemos: a vida é cíclica, para o bem ou para o mal. Portanto, devemos estar muito vigilantes.
Após percorrer emocionalmente essas décadas e personagens durante o processo de escrita, o que mudou na sua maneira de ver o Brasil e o lugar da literatura no país?
Olhando para trás, lembrei-me de que, em 1985, a celebração do fim da ditadura foi prejudicada pela falta de perspectiva decorrente do estado devastador do governo militar. Mesmo assim, a nação se reconstruiu e seguiu em frente rapidamente. No âmbito literário, os sucessos e fracassos da ficção política daquela época ajudam os autores contemporâneos a produzir contos e romances capazes de harmonizar a sensibilidade crítica e literária.
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