Walmir Luiz Becker transforma memórias e vivências em poesia no livro Entrelinhas

Luca Moreira
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Walmir Luiz Becker
Walmir Luiz Becker

Em Entrelinhas, o escritor Walmir Luiz Becker reúne versos que atravessam mais de oito décadas de experiências, transformando lembranças, afetos e reflexões em poesia. Com uma escrita direta e sensível, a obra revisita temas como finitude, amor, solidão e pertencimento, conectando o íntimo do autor a sentimentos universais. Em entrevista, Becker fala sobre o processo de revisitar a própria trajetória e de como a arte se torna um caminho para preservar emoções que o tempo insiste em não apagar.

Em Entrelinhas, o senhor transforma lembranças de oito décadas em poesia. Em que momento percebeu que essas sensações insistentes da memória precisavam ganhar forma em versos?

Foi no primeiro semestre de 1998, entre os meses de fevereiro e maio daquele ano, quando vivenciei o que se pode denominar de um limbo profissional. Explico-me: Desavenças com sócios de um escritório de advocacia, no qual eu trabalhava já há mais de 15 anos, obrigaram-me a buscar novos rumos na minha profissão. Nesse período de transição de quatro meses, destinado, em princípio, a acertos financeiros, não tive assuntos jurídicos aos quais me dedicar. Sobrou-me tempo, então, para tarefas mais prazerosas, como, por exemplo, a leitura de alguns livros literários de há muito adiada. Aqui, uma curiosidade: em matéria de literatura, sempre pendi muito mais para o romance do que para a poesia. Assim, deve ter sido por brincadeira, seguramente, que engendrei meu primeiro poema (Embolado) em 9.2.98, que terminava com os seguintes versos: E quem não tem nada a fazer/Pensa que faz/Poesias/Cometendo a seu bel prazer/Heresias/Como estas.

Seus poemas nascem tanto da alegria quanto da dor, do amor e do desamor. O que a poesia permite dizer sobre a vida que, muitas vezes, a fala comum não alcança?

Para as mais variadas situações vividas pelo ser humano no seu quotidiano, a fala comum é direta, objetiva, coloquial, informal e espontânea.  Frequentemente permeada de expressões idiomáticas e carente de maior rigidez gramatical.  Esse modo de comunicação interpessoal até pode estar impregnado, e muitas vezes o está, de sentimentos de alegria, dor, amor e desamor. As formas de expressá-los numa conversa do dia a dia ou nos versos de uma poesia ou poema é que diferem entre si. Ambas, fala e escrita, utilizam sinais verbais. Estes, entretanto, quando transformados em versos, são verbalizados e organizados de um modo rítmico e sonoro para expressar a subjetividade do eu lírico. Ou seja, a alegria, a dor, o amor e o desamor podem ser os mesmos, quer na fala comum, quer na poesia.  Só que, numa poesia, ou num poema, o poeta é ele próprio seu interlocutor, fala consigo mesmo, com sua voz interior.

Há algo muito bonito na ideia de que, mesmo com os apagamentos naturais do tempo, certas emoções continuam vívidas. O que o senhor acredita que faz alguns sentimentos permanecerem tão intensos dentro de nós?

Verdade. É natural que o tempo apague de nossa memória a imensa maioria das recordações acumuladas no decorrer da nossa existência. Seria humanamente impossível alguém reter para sempre todos os acontecimentos de sua vida e deles lembrar-se indefinidamente. Por isso se diz que a memória é seletiva, conserva apenas o que é relevante e essencial. Recordamos eventos e situações que de alguma forma marcaram nossas vidas. Um primeiro namoro, uma formatura, aprender a dirigir são exemplos concretos. Há, também, os abstratos: sentir na pele a primeira a aragem de um outono, e constatar que o verão passou; ouvir as canções dos Bee Gees, e ser tomado por aquelas boas e antigas sensações experimentadas por quem viveu a década de 70, observar um por de sol refletido nas águas calmas de um lago. Tudo isso, se vivido e sentido com sensibilidade, nos proporciona sentimentos que permanecem dentro de nós, eternizando-se.

Sua escrita é simples e direta, mas carrega temas profundos como finitude, solidão, pertencimento e memória. Essa escolha por uma linguagem mais essencial foi também uma forma de se aproximar mais do leitor?

A linguagem simples e direta dos meus poemas deriva, penso eu, de um estilo próprio de escrita, presente, na forma de prosa, em todos os meus textos jurídicos já publicados. Creio que a boa aceitação que obtive com tais publicações deveu-se muito a essa forma de escrever, sem prejuízo das questões essenciais nelas abordadas. Assim, a transposição desse estilo para os meus versos não resultou de ato pensado, ocorreu naturalmente. Já nos meus poemas, a escolha de temas essenciais, profundos, como finitude, solidão pertencimento e memória até pode me aproximar mais do leitor. Porém, se isso se der, será mais por consequência do que causa. Não sei se nisto fui original, mas a verdade é esses temas não foram escolhidos por mim. Eles foram me surgindo ao acaso, ao longo de todos esses anos, em meio a um turbilhão de emoções. À medida que surgiam, versifiquei-os na forma direta, clara e concisa com que vieram a público.

Walmir Luiz Becker
Walmir Luiz Becker

O livro mostra um olhar muito atento para cenas cotidianas, a chegada do outono, o som do último trem, a expectativa da sexta-feira. Como o senhor construiu, ao longo da vida, essa sensibilidade para perceber poesia nas pequenas coisas?

O Cotidiano com sua aparente mesmice, monotonia e repetição de cada dia não precisa ser tedioso o tempo inteiro. Basta vivê-lo com mais atenção e receptividade. Quem viver assim pode vir a ser surpreendido com momentos inesperados, fugazes às vezes, mas que quebram a rotina e aquecem a alma do ser humano. Diz-se que “a beleza está nas pequenas coisas”. Também com muita frequência se atribui a Fernando Pessoa a valorização da beleza na simplicidade e nos detalhes do cotidiano. A chegada do outono, por exemplo, costuma ser para mim um desses momentos que sempre me encantam. Nunca deixei de me sensibilizar com essa estação do ano, quando o sol ganha aquela luz mais dourada e suave em relação à intensidade que possuía no verão, e quando, com uma queda brusca da temperatura, vêm aqueles primeiros friozinhos. Isto sem falar nas paineiras floridas.

Em sua fala, há um ponto muito forte: nada foi inventado, tudo foi vivido e sentido. Escrever a partir da própria experiência torna o processo mais libertador ou mais delicado?

Todos os meus poemas foram inspirados em vivências e sentimentos pessoais, a partir de cenas e acontecimentos do cotidiano, de memórias do passado, tantos as alegres como as tristes, e, na mais das vezes, nostálgicas e saudosas, e de toda uma amálgama de emoções e sensações conservadas pelo tempo. Em questão de estilo, meus poemas estão muito longe de se enquadrar na categoria à qual pertence a poesia hermética. Nesta categoria, na qual se insere a maior parte dos poetas atuais, a linguagem é obscura, muito refinada e de difícil se não impossível compreensão. É uma poesia centrada nas percepções interiores do poeta e no uso intenso de metáforas. Com razão a pesquisadora Mariela Augusta Masagão escreveu na Folha de 14.4.19:  A Poesia Brasileira Ficou Sisuda e Hermética. E respondendo agora, objetivamente, à pergunta: afirmo que expressar em versos experiências próprias é um processo ao mesmo tempo delicado e libertador.

Suas referências a Cartola, Fernando Pessoa e a diferentes paisagens do Brasil ampliam a dimensão emocional da obra. Como a arte e os lugares que o senhor conheceu ajudaram a moldar sua forma de sentir e escrever?

Houve um verão na minha vida, bem no finalzinho dele, em que eu me sentia muito triste. Era uma tristeza daquelas que doem lá fundo da alma, que dá vontade de chorar, e que nos chega de repente sem que atinemos com o motivo. Tratava-se, portanto, de uma tristeza existencial. Eu estava em casa, escutando música, e observava da janela aquela parte do dia que conhecemos como crepúsculo, quando comecei a ouvir Beth Carvalho cantando As Rosas Não Falam, do Cartola. Quem conhece essa canção entenderá o conforto emocional que me sobreveio naquele momento de tristeza. Já a referência a Fernando Pessoa é mais do que justificável, na medida em que, depois dele, ficou mais difícil fazer poesia, ideia que, aliás, é amplamente aceita pela crítica literária de língua portuguesa. Mas não vejo influência dele nos meus poemas. Estes estão mais próximos de Carlos Drummond de Andrade, que também fala do trivial, do simples e do cotidiano em alguns de seus poemas.

Ao olhar para Entrelinhas como um retrato poético da sua trajetória, o que o senhor mais gostaria que o leitor encontrasse ali: identificação, acolhimento, reflexão ou companhia?

Não espero que o leitor se identifique com minha trajetória poética ao ler Entrelinhas. Cada ser humano, como indivíduo, experimenta em sua vida sensações, sentimentos e emoções muito próprios, provenientes de vários fatores como educação, crença (ou descrença) religiosa, preferências políticas, situação econômica e status social, entre outros. De acordo com seu maior ou menor grau de sensibilidade, poderá perceber identidade com seu eu nas sensações que recolher da leitura de um ou outro poema, não de todos. Quanto ao acolhimento e reflexão sobre o que escrevi, destes, sim, gostaria muito. Ficaria feliz se meus leitores, no suposto de que venha a tê-los, aceitassem de bom grado a forma simples e direta com que escrevi meus poemas. Sem pendor para a poesia hermética, procurei expressar em versos, de forma compreensível, e algumas vezes melancólica, sentimentos e sensações que a memória reteve em 80 anos de vida.

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