O cantor e compositor Mochita dá início a um novo capítulo em sua carreira com o lançamento de “Tanto Faz”, single que combina bossa nova, estética circense e densidade emocional em uma sonoridade ousada e expansiva. Disponível desde 17 de novembro pela Marã Música, a faixa explora o equilíbrio entre o lúdico, o sarcástico e o obscuro, refletindo um momento de libertação pessoal do artista e revelando uma versão mais profunda e experimental de sua identidade musical.
Quando você olha hoje para esse processo, sente que o ‘tanto faz’ foi fim, começo ou uma mistura dos dois?
Acho que foi mais a consumação de um processo — um fim que trouxe aprendizado. E, no fim das contas, todo final acaba gerando um recomeço. A música mostra exatamente isso: que essa distinção entre começo e fim é ilusória. Todo processo que leva ao encerramento de algo acaba virando uma ponte para uma nova fase.
Quando você percebeu que o contraste entre bossa nova e estética circense era o caminho certo para traduzir sua história?
O que me vinha muito à cabeça era o clima de A Clockwork Orange (“Laranja Mecânica”): aquela sensação de que a alegria intensa pode carregar, ao mesmo tempo, ansiedade, estranheza, até uma certa tristeza. Emoções opostas caminhando de mãos dadas.
O circo traz muito disso — ele é alegre, mas também estranho, quase assustador. E essa estética casou perfeitamente com a proposta de criar uma letra com camadas ambíguas, como no trecho “se você quer saber se ainda sinto algo, eu sinto muito por você”, que pode significar tanto sentir muito quanto não sentir mais nada além de um pedido de desculpa irônico. Essa ambiguidade era exatamente o que eu queria explorar.

Que situações da sua vida você sente que também são meio circo — tragicômicas, inesperadas e transformadoras?
Sempre que passamos por algum drama, seja em relacionamentos ou qualquer área da vida, existe aquele momento de identificação total com o problema, em que tudo parece muito sério e trágico. Mas quando a gente se distancia e olha de forma mais ampla, percebe quantas situações que pareciam enormes foram superadas — e quantas, mesmo sem serem “resolvidas”, deixaram de pesar quando foram aceitas.
Quando revisitamos esses momentos, muitas vezes existe até um lado cômico. Eram apenas capítulos da vida, não catástrofes.
Você deixa a interpretação do verso “Eu sinto muito por você” aberta porque a vida também raramente entrega respostas claras?
Sim. A ambiguidade faz parte das relações humanas. Nunca sabemos exatamente o que o outro pensa, sente ou quais são suas motivações. As ações das pessoas carregam nuances, dúvidas e zonas cinzentas.
A música brinca com essa falta de certeza — e, de certa forma, abraça essa condição. A ambiguidade faz parte da vida.

Que aprendizado recente te ensinou a lidar melhor com o que termina, muda ou não volta?
Um exemplo simples: tatuagens. Acabei de fazer duas novas e elas me lembram que certas escolhas são permanentes — e, mesmo que você tente “apagar”, sempre fica alguma cicatriz. Ao mesmo tempo, tudo passa: o corpo passa, as fases passam.
Isso tem muito a ver com ensinamentos budistas que tento injetar nas músicas: aceitar a impermanência, inclusive das marcas que ficam.
O que está se revelando em você, como artista e pessoa, que não cabia nas versões anteriores?
Principalmente na escrita das letras, sinto que estou explorando um lado mais lúdico e ambíguo. Também estou me aproximando de influências da música brasileira, que antes eu não explorava muito.
Vim do rock e do indie rock, então essas novas camadas realmente não cabiam nos meus trabalhos anteriores — não porque eram proibidas, mas porque eu ainda não tinha aberto esse espaço dentro de mim.
Você sente que sua vida também tem sido feita de peças aparentemente desconexas que depois revelam um desenho maior?
Sim. Acho que isso se traduz em fé. A vida é composta de variáveis infinitas e inacessíveis para a nossa compreensão. E, para se mover nesse mundo, só confiando: confiando que existem sincronicidades, que experiências aparentemente negativas podem se revelar necessárias, e que aquilo que parecia puro caos pode, com o tempo, fazer sentido.
A fé é esse elemento que costura o acaso.
O que você espera que alguém encontre em “Tanto Faz” ao ouvir vivendo um fim, uma bagunça emocional ou uma libertação?
Não tenho uma agenda para a música. Ela nasceu de um momento muito autêntico que eu queria expressar: a convivência de opostos, a ambiguidade, a impermanência, a aceitação de que o mundo é confuso mesmo e nem tudo precisa ser entendido — só vivido.
Se a pessoa encontrar riso, consolo, coragem ou apenas um lugar seguro para sentir e seguir, já é o suficiente.
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