Em Entre Montanhas e Predições, o médico e escritor mineiro Felipe de Caux constrói uma narrativa sensível e impactante sobre destino, memória e injustiça social, acompanhando a trajetória de Madalena, uma mulher marcada por presságios e por sucessivas perdas ao longo da vida. Ambientado no interior de Minas Gerais e atravessado por elementos de realismo fantástico, o romance expõe as feridas deixadas pela ditadura militar, o peso das desigualdades de classe e o silenciamento histórico das populações mais vulneráveis, transformando a ficção em um poderoso retrato humano sobre dor, resistência e esperança.
Madalena é uma personagem atravessada por perdas sucessivas e injustiças históricas. Em que momento você percebeu que a história dela precisava virar um romance — e não apenas uma ideia guardada na memória?
A história de Madalena surgiu como um desvio inesperado. Eu escrevia uma trama diferente, explorando a infância do protagonista no interior de Minas, mas a presença dela naquela introdução ganhou força. Madalena tomou as rédeas da narrativa, provando que contar a história de sua família era mais urgente e importante do que a ideia original. Decidi deixar os personagens livres, permitindo que amadurecessem, ditando seu futuro. Chegou o momento em que a saga deles foi impossível de ignorar.
O livro mistura presságios, profecias e elementos quase mágicos com uma realidade social muito dura. Como você equilibrou o realismo da dor com o simbolismo do destino sem cair no fatalismo?
Esse é, em grande parte, o tema do livro: a dúvida sobre quem decide o nosso futuro — o destino, as nossas decisões ou o meio social em que vivemos. Mantive essa incerteza na própria narração, pois Madalena oscila entre a fé e a negação, o conformismo e a luta. O uso do realismo fantástico, contudo, cumpre funções mais profundas. Primeiro, ele traduz características da cultura latino-americana que, ao meu ver, as palavras sozinhas não explicam. Além disso, ao tratar o fantástico como algo cotidiano, busco denunciar como a sociedade normaliza eventos brutais e absurdos pela sua mera frequência. Por fim, o extraordinário confere um tom poético e metafórico às cenas, fortalecendo a narrativa e tornando a dor, de certa forma, mais palatável através da arte.
Muitas tragédias da trama — alcoolismo, machismo, homofobia, pobreza, violência do Estado — parecem menos “profecias” e mais consequências de estruturas sociais. Você enxerga o destino de Madalena como sobrenatural ou social?
Sem dúvida, enxergo-o como social. Ao transformar os eventos em profecias, faço uma crítica ao modo como muitas dessas tragédias são vendidas como problemas sem solução ou fatalismos geográficos. São justificativas, como muitas das outras que existem, que muitas vezes servem para culpar as vítimas por seus próprios destinos, retirando o peso de décadas de descaso e desigualdade estrutural. A profecia, no livro, funciona como uma máscara que oculta a responsabilidade do Estado e da sociedade.
A relação entre Madalena idosa e o médico, no asilo, funciona como um espaço de escuta e reconstrução da memória. Qual a importância de “contar a própria história” como forma de cura ou resistência?
A meu ver, o ato de narrar serviu, inicialmente, para que Madalena dividisse o peso de sua carga e afastasse a solidão. A cura pelo relato é algo individual: contamos nossa história porque, às vezes, ela é grande demais para carregarmos sozinhos. No entanto, a função da resistência é muito mais ampla e coletiva. Ao conhecermos essas trajetórias, temos a chance de aprender com elas, evitando a repetição de erros históricos e encontrando formas de consertar problemas que insistimos em ignorar. Contar a própria história é, portanto, um ato de resistência contra o esquecimento e uma ferramenta de transformação social.

O desaparecimento do filho durante a ditadura é uma ferida central no livro. O que te motivou a revisitar esse período tão doloroso da história brasileira através da ficção?
Ao começar a escrever, a trama cresceu e seguiu caminhos próprios até que a ficção acabou se chocando com a história real do Brasil. Tentei usar os acontecimentos da época como pano de fundo, mas, em certo ponto, eles se tornaram forças que moldaram o destino dos personagens. Ao chegar no período da ditadura, decidi narrar a vida daqueles que viviam à margem, que em parte ignoravam o que se passava à sua volta, mas não eram imunes a ela. Com o desenvolvimento da obra, explorei diferentes perspectivas dentro do sistema — uma fração diante da imensidão de pontos de vista possíveis, mas que achei serem pouco explorados: Madalena representa aqueles que ignoravam a violência até terem suas vidas devastadas por ela; Francisco simboliza quem convivia com o medo constante no ambiente acadêmico e que também sofreu com a repressão do Estado; e João encarna a alienação de quem, manipulado, chega a duvidar de seus próprios pares. Não há como contar histórias sobre brasileiros que viveram nessa época sem mergulhar nas dores dessa violência.
Você é médico pediatra e nefrologista e vive hoje na Alemanha. De que forma sua experiência com a medicina — lidando com fragilidade, perdas e famílias — influenciou sua escrita e a construção emocional do romance?
Não há como separar o Felipe médico do Felipe escritor. Acredito que minha escrita carrega um aspecto “clínico”; meu modo de contar uma história é quase como elaborar um diagnóstico da alma e da sociedade. Ao longo da carreira, convivi com realidades muito distintas que me permitiram enxergar dores que nunca vivi, mas que se tornaram presentes em mim. Trabalhei no interior como médico de família e me especializei na Santa Casa de Belo Horizonte, mas também transitei por UPAs e hospitais particulares. Agora, na Alemanha, essa visão se expandiu ainda mais com o choque cultural. A medicina me tornou mais “calejado” e realista diante da finitude, mas, contraditoriamente, também me fez muito mais sensível e empático às sutilezas da fragilidade humana
Apesar de tanta dor, a narrativa também fala de resistência e esperança. Onde você acredita que Madalena encontra forças para continuar vivendo quando tudo parece ruir?
Madalena fez o que a maioria de nós faz diante das asperezas do caminho: apegou-se às pequenas felicidades. Reencontros, nascimentos e celebrações são fragmentos que existem mesmo nas trajetórias mais áridas. Além disso, ela se valeu de mecanismos que nos mantêm em pé mesmo quando queremos desistir: a resiliência, a rotina, o senso de obrigação e, como ocorre com tantos, a fé. Madalena encontra força na própria insistência da vida em continuar acontecendo, provando que a esperança não é um evento extraordinário, mas uma tática de sobrevivência cotidiana
Se o leitor pudesse levar apenas uma sensação ou reflexão depois de fechar Entre Montanhas e Predições, qual você gostaria que fosse: indignação, empatia, memória… ou outra coisa?
Embora a recepção seja sempre do leitor, eu adoraria que o livro os fizesse olhar para as próprias vidas e para aqueles que os rodeiam. Que os fizesse enxergar que muito do que vivemos hoje é mais complexo do que nos é imposto. São problemas históricos e geracionais, muitas vezes ignorados, mas que herdamos e que acabam decidindo — quase como em uma predição — as facilidades ou dificuldades com que nosso caminho é construído. Espero que reflitam que as mazelas atuais só serão amenizadas quando deixarem de ser invisibilizadas e também entendam que não existe o imediatismo: levará tempo para notarmos melhorias, pois essas “amarrações” sociais são estruturais e foram construídas e aprofundadas ao longo de séculos.
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