Marcos Vinicius de Paula expõe as fissuras sociais do Brasil em “Corpo Estranho”

Luca Moreira
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Marcos Vinicius de Paula
Marcos Vinicius de Paula

Na coletânea Corpo Estranho, Marcos Vinicius de Paula reúne doze contos que atravessam diferentes tempos e territórios do Brasil para investigar o que se revela quando indivíduos são confrontados por limites morais, afetivos e sociais. Entre crítica social e elementos fantásticos, o autor constrói narrativas que exploram obsessões religiosas, tensões familiares, mobilidade social, violência estrutural e ressentimentos íntimos, compondo um mosaico inquietante da experiência brasileira. Professor de Sociologia e atento observador da realidade contemporânea, Marcos transforma desconforto e contradição em matéria literária, convidando o leitor a encarar as zonas sombrias que insistem em retornar — mesmo quando tentamos ignorá-las.

Seus contos mergulham em personagens moralmente ambíguos e situações desconfortáveis. O que te atrai mais na hora de escrever: o conflito interno ou o caos social ao redor deles?

As duas coisas. Na verdade, tenho pra mim que ambas estão intimamente conectadas. A dimensão social da vida reflete a dimensão psicológica. A dimensão psicológica reflete a dimensão social. É claro que os conflitos internos e externos funcionam cada um à sua maneira. Por isso o interesse específico. Mas acho importante ressaltar que os dois conflitos têm ligação, formam uma totalidade. Então, a minha atração na hora de escrever se volta para as duas dimensões: a social e a psicológica. Meu interesse é a síntese dos dois fenômenos.

Como professor de Sociologia, você observa diariamente a realidade brasileira de perto. Em que momentos a sala de aula acaba virando matéria-prima para a sua ficção?

Em dois momentos, creio eu. No momento em que me deparo com aquele mundo, com a porção de personagens, histórias e conflitos que ele carrega, e no momento em que me vejo nele, absorvido, sendo também um personagem. É o cenário e o meu sentimento em relação a ele. Como professor, eu participo daquele ambiente, sou um dos seus tipos. Aquele ambiente me consome, me abala, me alegra, me ensina. Isso é também um material. E um material bastante rico, aliás. Então é isso: num ambiente fervilhante como é uma escola, aprendemos com o cenário e aprendemos com nossa reação ao cenário.

Muitas histórias do livro misturam crítica social com elementos quase fantásticos ou simbólicos. Para você, a fantasia ajuda a explicar melhor a realidade do que o realismo puro?

O realismo puro e a fantasia são recursos narrativos que muitas vezes pretendem chegar ao mesmo lugar. Gosto dos dois enquanto forma estética. Há contos em que uso do realismo puro, há contos em que uso do fantástico. São desafios não só discursivos, mas também formais. Não se pode perder de vista que a literatura é de uma ordem diferente do tratado filosófico ou da dissertação científica. A literatura ensina e transforma pela ficção, pela fantasia incutida numa história inventada. Não tem compromisso com uma exposição exata da realidade. Nesse sentido, é possível explorar, através dela, muitas possibilidades. Falar do mundo por metáforas, por símbolos, por exageros, por absurdos. Porque essa é uma dimensão importante do entendimento: a analogia. O texto fantástico nos dá a possibilidade de ver a realidade por analogia. E essa analogia deve ser encontrada em arranjos que estão fora desse mundo. Acho que é um recurso maravilhoso. Me toca ver a fantasia bem trabalhada na escrita, assim como me toca ver o realismo puro.

Em contos como “Extrema-unção” e “Canário-da-terra”, vemos personagens dominados por obsessões, culpas e paranoias. Você acredita que esses “excessos” são individuais ou reflexos de pressões culturais do Brasil contemporâneo?

Como eu disse antes, toda vida interior ecoa a vida exterior. Não existem paranóicos fora de sociedades reprimidas e repressoras. Não existem machistas fora de sociedades misóginas. Não existem racistas fora de sociedades de ascendência escravagista. Minha proposta é apresentar personagens que têm características psicoĺógicas correspondentes ao meio em que se inserem. É claro que tento não fazer isso de forma mecânica. A beleza da literatura é construir histórias únicas e pouco banais. Meus personagens, portanto, correspondem ao meio, são fruto dele, mas cada um tem sua vida interior própria, suas manias, seus desejos, suas paranóias, etc. O desafio e a graça da escrita vêm daí.

Marcos Vinicius de Paula
Marcos Vinicius de Paula

O título Corpo Estranho sugere algo que não se encaixa, que incomoda. Em que sentido você sente que seus personagens — ou até você mesmo como autor — ocupam esse lugar de “estranhamento” dentro da sociedade?

Corpo estranho é qualquer objeto alheio a um corpo que venha a se incutir nele. Esse título perpassa a obra, porque todos os contos são, de alguma maneira, marcados por algum elemento que não se encaixa numa determinada lógica. É a luta entre a lógica e o dado. Por exemplo, no conto cujo nome origina o título do livro, o personagem luta a vida toda para pertencer à alta sociedade, mas seu próprio corpo não permite que isso aconteça quando ele atinge os requisitos para tal. Num país como o nosso, racista, quase dividido em castas, o corpo físico, o fenótipo, também costuma contar como elemento de inclusão e riqueza. Segundo o pensamento liberal, segundo o discurso capitalista, todo aquele que atingir a riqueza deve poder usufruir de suas benesses. Essa é a lógica. Mas a realidade se choca com essa lógica e o corpo passa a ser estranho, porque é alheio. Quanto a mim, me sinto muitas vezes também um corpo estranho. Mas isso não vem ao caso. Vem ao caso o desajuste, a falta de encaixe, o desatino que gera todas aquelas histórias.

Seus textos não parecem buscar conforto no leitor, mas sim provocar incômodo. Você enxerga a literatura como um espaço de confronto mais do que de acolhimento?

Certamente. A literatura é muito mais que entretenimento. É uma dimensão da vida humana, na medida em que uma das fontes do entendimento e da transformação, desde as mitologias, são as histórias, as narrações, as ficções. O advento da filosofia e das ciências cria um discurso direto em que perdemos isso de vista. A fábula, digamos assim, perde sua importância como fonte de conhecimento e transformação. O capital intensifica esse processo quando torna a literatura e outras artes fonte de distração e entretenimento. O papel daqueles que amam contar historias e fazer arte é demonstrar que a fábula, a narração, a ficção é fonte simbólica de nutrientes, de vida, de verdade e de humanidade. É nosso papel lutar por isso. E essa luta irá produzir coisas lindas e coisas indigestas. Gosto das coisas indigestas, porque elas nos ensinam pelo estranhamento, pelo choque, pela incerteza. É preciso, às vezes, machucar a mente do leitor com imagens horrorosas, para que o entendimento seja de fato edificante.

Ao escrever sobre violência estrutural, desigualdade e abandono institucional, houve alguma história que te afetou emocionalmente mais do que as outras? Alguma que tenha sido difícil de terminar?

A Carne da Maré me toca bastante. É um conto baseado numa história real. Quando fui ao complexo da Maré, alguns anos atrás, conversando com um amigo que é morador de lá, fiquei sabendo daquele fato, o fato que arremata o conto. Resolvi então dar àquela historia um enxerto, criar para ela personagens e cenário. Acho que foi uma forma de criar memória, de fazer com que as pessoas nunca se esqueçam das reais dimensões da desigualdade e da miséria.

Depois de reunir esse mosaico de personagens e paisagens do Brasil, que imagem do país ficou mais forte para você: a do grotesco, a do poético ou a da resistência humana que sobrevive apesar de tudo?

O país para mim é uma síntese de tudo isso. O Brasil que vivo, o Brasil que experimento, que testemunho e que sou, é uma poesia grotesca, é um grotesco poético, é um herói corrompido, é um corrupto heroicizado, é um flor e uma náusea. O Brasil que enxergo é colorido e cinza, feito de grandes contrastes, estranhos contrastes. Eu amo e odeio esse país. Odeio e amo. É preciso contá-lo dessa maneira, Apolo e Dionísio, Hercules e Quasímodo, para compreender o que ele realmente é: uma ferida fechada com a lâmina dentro.

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