O cantor e compositor Che Romaro lança no dia 27 de fevereiro o single “Vagabundo”, pela Marã Música, marcando uma nova fase em sua trajetória artística. Pela primeira vez, o artista grava uma canção que não é de sua autoria — originalmente composta por Ariel Rot — e apresenta também seu primeiro registro totalmente acústico. Em entrevista, Che fala sobre a identificação profunda com a narrativa da música, que aborda erros, buscas e recomeços, e revela como a tradução para o português nasceu de forma espontânea durante a pandemia. Com voz e violão em evidência, “Vagabundo” reforça uma estética mais íntima e direta, destacando a força da letra e a conexão emocional que atravessa sua caminhada artística.
“Vagabundo” é sua primeira música lançada oficialmente que não é autoral. Como foi, emocionalmente, dar voz a uma história que nasceu de outro artista, mas que você sente como se fosse sua?
Conheci as músicas do Ariel Rot em 2012 e de cara já gostei muito. Tanto da carreira solo quanto das músicas da banda Los Rodríguez. Foi uma surpresa boa. E desde então ele não sai da minha playlist. Algum tempo depois encontrei a canção Vagabundo, virou minha favorita. Comecei a toca-lá no violão, ainda na versão em espanhol. Mas eu tenho mania de tentar traduzir pra o português as músicas que mais gosto. Essa é uma delas, uma daquelas canções que eu queria ter escrito. Quando eu a tocava nas rodas dos amigos sempre me perguntavam se era minha. E eu sempre faço questão de dizer que não, que apenas traduzi e recomendo que escutem o Ariel Rot, acho que é uma maneira de mostrar músicas de outros artistas pro pessoal que gosta mais de ouvir músicas em português. Tem funcionado.
Você comentou que essa canção parecia contar a sua própria vida quando a ouviu pela primeira vez. Em que momentos da sua trajetória você mais se enxerga nesse personagem que vaga em busca de sentido?
Vagabundo fala de alguém que caminhou muito por aí, que acertou, errou, se encontrou, se perdeu, fala sobre viver e encontrar na vida obstáculos, amores, histórias que vão nos transformando em quem somos. Como diz a letra, “melhor ter uma má história do que nada pra contar”. Eu caminhei bastante por aí, nasci em São Paulo, vivi criança em Salvador, depois a adolescência no Rio, voltei pra São Paulo aos 15, montei o envydust, desmontei o envydust, me apaixonei, tive o coração partido, depois vivi um tempo em Madrid (quando conheci a música do Ariel) e em Lisboa. Sempre fazendo música e contando histórias. Sempre buscando fazer boas escolhas, nem sempre conseguindo. Mas seguindo em frente.

A decisão de traduzir a música surgiu de forma despretensiosa, quase íntima. Em que momento você percebeu que ela tinha potencial para ganhar o mundo e deixar de ser apenas algo das rodas entre amigos?
Fui me apropriando da música, ela entrou pro meu repertório e eu fiquei com vontade de mostrá-la pra mais gente, de, quem sabe, o Ariel Rot gostar… Gravar essa versão acústica, bem do jeito que costumo tocar entre amigos é uma forma de homenagear esse artista que eu acompanho e que me acompanha sem saber. Espero que ele goste quando ouvir.
Gravar uma faixa apenas com violão e voz exige coragem, porque tudo fica mais exposto. O que esse formato acústico revelou sobre você como intérprete e como artista?
Gostei do resultado, realmente no violão e voz estamos mais desnudados. Mas gosto muito do arranjo que fiz, simples e direto. É uma música que me encantou pela melodia de voz e pela letra, acho que ela assim, crua, enfatiza essas duas coisas.

O termo “vagabundo”, no sentido original da canção, fala mais de busca do que de perda. Você se sente, de alguma forma, um andarilho artístico, alguém ainda em construção e descobrindo caminhos?
Em espanhol o termo vagabundo não tem a conotação pejorativa que acabou adquirindo em português. O Vagabundo é aquele que vaga, o errante, o Dom Quixote, que vai atrás do que acredita mesmo correndo risco de ser considerado louco. Eu ando por aí, e vou contando, nas músicas, as histórias que encontrei pelo caminho, são sobre encontros, pessoas, dores, injustiças, alegrias. Sobre viver.
Mesmo não sendo uma composição sua, você parece ter criado uma conexão profunda com a narrativa. O que mais te tocou na história contada na música: os erros, os acertos ou essa ideia de seguir em frente sem saber exatamente para onde?
Acho que tudo isso junto. Não se pode acertar sem errar. A ideia do cavaleiro errante é muito simbólica. É preciso seguir, apesar dos erros, apesar dos acertos. O caminho é em frente, mas sempre se apoiando naquilo que fomos aprendendo no caminho.

A gravação da sessão ao vivo embaixo da jabuticabeira, num espaço tão pessoal, sugere um artista que valoriza suas raízes e seu cotidiano. O quanto esse ambiente íntimo influencia sua forma de criar e de se expressar?
Acho que uma das coisas mais especiais de caminhar por aí é encontrar lugares onde nos sentimos em casa. O Casarão onde estou vivendo é um desses lugares. A jabuticabeira, uma personagem centenária, testemunha de tantas histórias que se passaram por ali, nesses e em outros tempos. O casarão está para ser demolido, não sei se a árvore seguirá ali, mas, quero eternizar essa paisagem. Vai ser bonito.
Sentirei saudades dali, e poder revisitar o vídeo, já sei, vai ser um momento feliz.
Esse lançamento marca duas estreias ao mesmo tempo: sua primeira interpretação de uma música de outro compositor e sua primeira faixa totalmente acústica. Você sente que “Vagabundo” abre uma nova fase na sua identidade artística?
Estou compondo mais canções que juntas com “Lamento” e “Vagabundo” mostrarão minha próxima fase. Estou fazendo canções em português, em espanhol, procurando explorar mais ritmos latino-americanos e começar a falar mais das coisas que observo e o que sinto a partir delas, diferentemente do meu primeiro e segundo álbum, que falam muito sobre questões minhas internas, dores de amor, quem sou, essa próxima etapa, creio, trará imagens dos lugares que estive, dos amigos que fiz. Um disco mais pra fora, mas claro, sempre baseado nas minhas caminhadas e ponto de vista. Gravar uma canção de outro compositor, traduzida pra minha língua mãe, acho que já é algo sim dessa nova fase, ela tá só começando.
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