Isabela Faleiro estreia no cinema ao lado de grandes nomes em Minha Melhor Amiga

Luca Moreira
10 Min Read
Isabela Faleiro (Rodrigo Lopes)
Isabela Faleiro (Rodrigo Lopes)

A atriz Isabela Faleiro dá um novo passo em sua carreira ao estrear no cinema com o filme Minha Melhor Amiga, protagonizado por Mônica Martelli e Ingrid Guimarães, com estreia marcada para 28 de maio. No longa, ela interpreta uma produtora de TV portuguesa, papel que conecta sua atuação a memórias pessoais e referências familiares. Em entrevista, Isabela reflete sobre a experiência no set, os contrastes entre teatro e audiovisual e o momento de expansão em uma trajetória marcada pela versatilidade artística.

Sua estreia no cinema acontece em Minha Melhor Amiga, cercada por nomes muito conhecidos do público. Como foi viver esse primeiro passo no audiovisual em uma produção tão grande e simbólica?

Confesso que no início fiquei um pouco intimidada. No meio daquele set enorme, me senti como uma pequena engrenagem. Foi tão maneiro ver uma equipe tão grande, todos trabalhando com o mesmo propósito. Me deu esperança, ver tantos profissionais do audiovisual… Tanta gente qualificada, mas muitas vezes sem ter onde mostrar a expertise. Foi transformador ver a máquina do cinema funcionando a todo vapor de primeira mão. Conversei um pouco com a Mônica, a Susana, equipe, e todo mundo compartilhou suas vivências e dificuldades dentro da profissão. Foi meio reconfortante saber que é difícil até pra gigantes como elas.

Há algo de muito afetivo no fato de você ter usado o sotaque da sua avó portuguesa como referência para construir a personagem. O que esse encontro entre memória familiar e trabalho artístico despertou em você?

Acho que reforçou ainda mais a relação entre o meu fazer artístico e meus laços, minhas memórias e história. Especialmente se tratando de dinâmicas afetivas, familiares e entre mulheres. Tem uma complexidade aí que me interessa muito explorar. Eu sempre tive uma proximidade muito grande com a minha família, e isso me fez enxergar o mundo com uma lente pro passado. Olhando pra trás, através das gerações, eu consigo enxergar a minha história, e isso me dá o poder de resgatar o que eu enxergo valor, e abandonar o que não serve mais à mim ou ao mundo à minha volta.

Isabela Faleiro (Rodrigo Lopes)
Isabela Faleiro (Rodrigo Lopes)

Você comentou sobre o impacto de chegar a um set de filmagem e perceber a velocidade e a dimensão de tudo. O que mais te surpreendeu nessa diferença entre a “artesania” do teatro e a engrenagem do cinema?

No teatro eu acabei me habituando a meter a mão na massa e fazer parte de cada parte do processo. Trabalhando com o Coletivo Rasga, minha companhia teatral, ao longo dos anos, eu aprendi o passo-a-passo da produção, do figurino, do cenário, enfim, tudo pra além do palco enquanto atriz. Quando eu pisei no set e vi que cada pessoa tem sua função, eu me senti meio alheia, parada demais… Eu me perguntava: “Eu só tenho que fazer a minha cena? E acabou?”. Eu tinha vontade de levantar e ajudar alguém a montar a luz, ou passar os figurinos (risos)… Mas ao mesmo tempo foi satisfatório poder focar em uma coisa só… Foi um bom exercício de presença, estar no set. Quando tudo acontece rápido à minha volta, eu percebi que o melhor a fazer é voltar a minha atenção pro presente o máximo que conseguir. Assim eu não perco nada -e aproveito mais!

Sua trajetória mostra uma artista que transita entre atuação, direção, dramaturgia, figurino, escrita, pintura e produção. Em meio a tantas linguagens, como você entende hoje a sua identidade artística?

Por muito tempo eu me perguntei se eu não deveria escolher e focar em duas ou três linguagens para realmente me aprofundar nelas. Hoje, eu vejo que a vida me pede pra ter todas essas cartas na manga. Às vezes pinta um teste, um trabalho ou oportunidade, e conseguir transitar entre essas áreas é muito útil. Percebi também que o impulso de criar nem sempre chega pra mim da mesma maneira: por vezes é uma imagem que me vem, ou uma melodia, ou uma frase… É bom ter um arsenal de ferramentas pra executar a ideia, e trazer ela à vida da melhor forma possível. Traduzir ela do mundo das ideias pro mundo real.

Isabela Faleiro (Rodrigo Lopes)
Isabela Faleiro (Rodrigo Lopes)

Em paralelo ao filme, você também está nos bastidores de Querida Mamãe como assistente de direção. O que muda no seu olhar quando você sai da cena e passa a acompanhar tão de perto o trabalho de outras atrizes?

Na direção, o trabalho é muito mais cerebral do que quando se está no palco. Claro, existe uma lógica, não é só chegar no palco e sentir. Mas quando se está dirigindo, você avalia o que as suas atrizes estão te propondo em cena com um olhar mais crítico. Só assim dá pra entender o que precisa ser ajustado dentro dessa proposta, e encontrar formas de ajudá-las a chegarem no cerne da cena. Foi bem interessante acompanhar o processo da Nívea e da Regiane… tem coisas que a gente só aprende assistindo outra pessoa fazer.

Seu novo curta, Mágica Misteriosa Maternidade, também mergulha em conflitos entre filha, mãe e avó. De que forma os temas de memória, geração e afeto, tão presentes na sua fala, continuam atravessando aquilo que você cria?

Quando eu comecei a escrever o curta, eu queria explorar o lado oculto da vida afetiva de mãe e filha em dois momentos de vida diferentes: na infância e na vida adulta. Ouvindo os relatos dentro da minha família, eu percebi que há um grande silêncio sobre os lados “feios” da maternidade. Em filmes, fala-se muito sobre amor, mas raramente sobre culpa, medo, raiva, depressão. Eu peguei emprestados alguns relatos, e desenvolvi o curta pra abordar essas dores renegadas dessas duas mães e sobre a disparidade geracional, emocional e psicológica entre elas, pra explorar essa relação até o limite.

Isabela Faleiro (Rodrigo Lopes)
Isabela Faleiro (Rodrigo Lopes)

Você diz que sente saudade das coisas antes mesmo que elas acabem. Essa frase é muito bonita e muito forte. Como essa relação com a nostalgia influencia sua forma de atuar, escrever e olhar para o mundo?

Eu busco beleza em tudo, e acho que eu enxergo a minha passagem pelo mundo como uma memória bonita. Por exemplo, quando estou em temporada com a companhia, ou numa tarde na praia com amigos, ou termino um ótimo livro, eu sempre penso como a Isabela do futuro vai se sentir ao lembrar desse dia. Às vezes eu me pergunto se isso é saudável! (risos) Eu tenho vontade de registrar as coisas que eu sinto, vejo e imagino, porque penso que elas não voltarão mais. As coisas estão sempre mudando, e eu sempre sinto mudança muito profundamente. Quero registrar a beleza e a tragédia das coisas como elas são agora, porque amanhã tudo pode ser diferente.

Em um momento em que também compartilha reflexões sobre tempo, presença e criação no YouTube, o que você sente que mais tem buscado preservar em si mesma como artista e como pessoa?

Eu tenho tentado desesperadamente preservar meu tempo fora das telas. Tem sido a minha batalha diária: ao mesmo tempo que parte da minha vida é online, eu penso que as redes já me roubaram tempo o suficiente. Há um abismo entre a pessoa que eu quero ser e a pessoa que eu sou, e eu sinto que sou menos eu quando passo o dia inteiro consumindo conteúdo. Achar o limite entre consumir e criar é difícil para mim, mas acredito que focar em criar me dará mais frutos e felicidade.

Acompanhe Isabela Faleiro no Instagram

TAGGED:
Share this Article

Você não pode copiar conteúdo desta página