Doroti Cercato transforma convivência com gato em reflexão sobre afeto e comportamento

Luca Moreira
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Doroti Cercato
Doroti Cercato

Em Quando o gato vira gente, a escritora Doroti Cercato constrói uma narrativa sensível a partir da convivência com um gato resgatado, transformando o cotidiano em um espaço de reflexão sobre vínculos, cuidado e autoconhecimento. Ao acompanhar o crescimento de Fritz, a autora observa comportamentos que espelham emoções humanas e revisita suas próprias percepções sobre responsabilidade e afeto. Em entrevista, ela fala sobre como essa relação inesperada se tornou um aprendizado profundo sobre si mesma e sobre a natureza das conexões.

Quando o gato vira gente nasce de um encontro aparentemente simples, mas que se transforma em algo muito profundo. Em que momento você percebeu que a história do Fritz também estava contando algo sobre você?

Percebi isso aos poucos, na convivência diária. No início, eu enxergava apenas a história de um gatinho resgatado que precisava de cuidados, mas com o tempo compreendi que aquela experiência também revelava muito sobre mim. Notei o quanto eu desconhecia os gatos e o quanto carregava ideias equivocadas, construídas por comentários negativos que ouvimos ao longo da vida. Fritz me ensinou a rever preconceitos, a observar com mais atenção e a me abrir para o novo. Ao contar a trajetória dele, percebi que também estava narrando um processo pessoal de transformação.

Ao acompanhar o crescimento de Fritz desde tão pequeno, quais foram as primeiras descobertas que mais mexeram com a sua forma de enxergar os animais?

O que mais me impressionou desde cedo foi a inteligência e a sensibilidade dele. Fritz demonstrava preferências, rotina, memória e até certo senso de pertencimento. Como por exemplo, gostar de se esconder, dormir com um brinquedo, escolher sua cadeira, zangar quando alguém se senta na sua cadeira. Essas atitudes me fizeram perceber que os animais têm personalidade, desejos e maneiras próprias de se comunicar.

O livro mostra que, na convivência diária, você passou a reconhecer no Fritz traços muito humanos. O que mais te surpreendeu nessa semelhança entre os comportamentos dele e os nossos?

A esperteza. Por exemplo, esperar que eu me distraísse para abrir a porta do meu quarto, encostar a porta, deitar-se na minha cama, abrir os braços e ficar como se dissesse “aqui é o meu lugar”, a postura de espera, com as quatro patas juntas, estático, como se dissesse “estou esperando”.

Muitas vezes, cuidar de alguém também nos obriga a rever hábitos, rotinas e até a nossa sensibilidade. De que maneira a chegada de Fritz transformou a sua vida no dia a dia?

A chegada de Fritz modificou minha rotina de maneira profunda e positiva. Primeiro, precisei aprender sobre um universo que eu desconhecia, abandonando ideias erradas que tinha sobre gatos. Imaginei, por exemplo, que precisaria dar banho com frequência e que seus pelos agravariam minhas alergias, e descobri que estava enganada. Além disso, a casa ganhou movimento, surpresa e alegria. Passei a observar mais os detalhes do cotidiano, a organizar horários e a desenvolver ainda mais paciência e cuidado. Fritz trouxe leveza para os dias comuns e despertou em mim uma curiosidade constante para aprender.

Doroti Cercato
Doroti Cercato

Há algo de muito bonito no modo como a obra transforma cenas cotidianas em reflexão. Como foi encontrar, em travessuras, gestos e silêncios de um gato, matéria para um testemunho tão sensível?

Foi algo natural, porque a convivência com Fritz me ensinou a enxergar significado nas pequenas coisas. Muitas vezes, um gesto silencioso dele dizia mais do que palavras: um olhar atento, a forma de esperar, o modo de buscar companhia ou de demonstrar desagrado. Suas travessuras também revelavam inteligência e personalidade. Em determinado momento, senti vontade de defendê-lo de tantos julgamentos injustos feitos aos gatos.

O livro fala não só de afeto, mas também de observação e autoconhecimento. Você sente que Fritz, de alguma forma, funcionou como um espelho emocional para você?

Sem dúvida. Fritz funcionou como um espelho emocional porque, ao observá-lo, também passei a observar melhor a mim mesma. Percebi que animais e seres humanos compartilham sentimentos como medo, alegria, apego e necessidade de segurança. Também reconheci em nós impulsos instintivos e comportamentos muito semelhantes.

Em um tempo em que tantas relações parecem apressadas ou superficiais, o vínculo entre você e Fritz revela outra forma de conexão. O que essa convivência te ensinou sobre presença e cuidado?

Foi uma experiência maravilhosa, ele se tornou insubstituível, necessário, ele entende muitas coisas e trocamos atenção e carinho.

Depois de transformar essa experiência em livro, o que você espera despertar nos leitores: um olhar mais sensível para os animais, para si mesmos, ou para ambos?

Espero que os seres humanos compreendam o quanto somos parecidos e o quanto podemos aprender com os animais, e que essa compreensão nos torne mais sensíveis, mais bondosos com os pets e com os seres humanos. Há muita crueldade hoje, muito egoísmo. Precisamos refletir mais sobre nossas atitudes, ensinar nossas crianças a cuidar dos outros e da natureza. O que queremos é um mundo em harmonia.

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