Ricardo Mello transforma São Paulo em capital do “noir” em novo romance policial

Luca Moreira
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Ricardo Mello

A capital São Paulo vira palco de uma investigação criminal aos moldes “noir” na obra “Preto Suave”, de Ricardo Mello. Para os amantes do estilo cinematográfico, o lançamento literário convida os leitores a imaginarem o típico cenário preto e branco dos filmes dos anos 1940, mas adaptado a uma história que ocorre nos tempos atuais.

Com uma linguagem fluida e agradável, a obra contextualiza o público sobre os mistérios relacionados à busca do assassino de um policial. Inclusive, os conhecimentos judiciais e políticos do autor, que trabalhou por décadas como advogado e procurador federal, aproximam ainda mais a ficção da realidade.

A narrativa acompanha o personagem Silas Steffano, um investigador particular de processos civis que se vê envolvido em um caso criminal para ajudar Malu a descobrir quem matou seu marido. Após um novo homicídio, dessa vez do prefeito de uma cidade periférica de São Paulo, ele descobre uma conexão entre os crimes e um esquema de corrupção relacionado a contratos de coleta de lixo urbano. Aos poucos, o personagem descobre uma verdade que está além das manchetes de jornais.

A obra é a escolha perfeita para quem busca lazer nas leituras de ficção e adora captar as pistas junto ao investigador para descobrir o culpado antes que ele seja revelado. Tudo isso está em Preto Suave, acompanhado por uma pitada de romance e uma imersão no cenário paulistano, que conduz os leitores pela movimentada rua da Consolação até o histórico bairro da Sé.

O cenário noir é uma característica marcante em “Preto Suave”. Como você adaptou esse estilo cinematográfico dos anos 1940 para uma trama que se passa nos tempos atuais em São Paulo?

A adaptação do estilo cinematográfico para a literatura é possível quando se tem este elemento, o estilo. O cinema “noir” apareceu em Hollywood na década dos anos quarenta do século vinte, quando então a fotografia só existia nas cores preto e branco. A própria fotografia ganha estilo próprio. O uso do preto e branco é uma forma do industrial moderno, a tecnologia se torna elemento do cotidiano. A ausência da cor, interrompida pela emoção da Idade Média, não utilizada pela arte ocidental desde o período grego das estátuas de mármore, reaparece resgatadas agora, no modernismo. A cor preta ganha expressão com o movimento de imagens, o brilho dos automóveis iluminados pela noite, os becos escuros ocupados por gangsters, as ações tensas que desaparecem na escuridão, trazendo o título “noir”, dado por críticos franceses, que logo reconheceram a influência do expressionismo alemão, trazidos pelos mestres fugidos do nazismo, como Fritz Lang por exemplo.

A literatura enfrenta os primeiros problemas por não ter imagens já impressas e cor negra estampada conforme o expressionismo, mas a literatura consegue captar o estilo, tornando possível a transposição. Fazendo-se uma tradução, exatamente, é possível traduzir do cinema para o livro. As regras são da literatura, não se permite uma linguagem descritiva, rebuscada, poética. O homem do período industrial pós-guerra é pragmático, tomou o elitismo da nobreza europeia em seu pragmatismo, em sua capacidade de iniciativa econômica. O cinema reflete seu meio de vida, way of life, em sua moralidade cristã, mantendo o patriarcalismo hebrAico para que seja facilmente absorvida como ideologia dominante.

A moral ideológica, entretanto, é desafiada pela prática da maldade, ovelhas desgarradas do grande rebanho nacional, do cometimento do crime. as razões e as fraquezas do criminoso são escancaradas como condição humana, como um desvio do caminho do americano médio. A natureza maldosa do criminoso é confrontada com a pregação religiosa da bíblia protestante, vencendo a hierarquia masculina.

Silas Steffano, o investigador particular, é o protagonista da história. Pode nos contar mais sobre como desenvolveu esse personagem e o que o diferencia de outros detetives clássicos?

A ideia foi tornar Silas Steffano um detetive clássico, com a pretensão de estar ao lado de um Sam Spade, de Dashiel Hemmety, mas como brasileiro, vivendo cotidianamente entre as ruas e avenidas de São Paulo, na solidão de suas atividades, entre a realidade do descaso e do sofrimento entre os menos favorecidos. Isso faz dele um homem sensível, doce, enxergando conteúdo humano por trás das pessoas com quem convive, diferentemente dos clássicos que somente mostram inteligência e frieza para a clara dedução da cena do crime. Silas envolve-se com a cliente que o contrata, tornando o preto da noite suave, como fazem os brasileiros medianos. Como profissional de investigações, entretanto, consegue lidar com coragem nos momentos de perigo, percebendo que gritar e apontar armas não são sinais de masculinidade, porque também estão presentes entre mulheres e gays. Assim ele consegue abordagens significativas no trabalho e na vida, contribuindo para a compreensão do novo tipo de brasilidade.

Sua experiência como advogado e procurador federal certamente trouxe uma perspectiva única para a trama. Como essas experiências influenciaram a construção do enredo, especialmente no contexto judicial e político?

O fato de eu ter sido advogado e depois procurador enriqueceu sobremaneira o texto. Senti-me muito à vontade ao recriar os ambientes onde se usa a lei penal, por ter vivenciado com experiência própria, a rotina e o comportamento das delegacias policiais, do Instituto Médico Legal, com o legista, este sim científico, dedutivo e frio, que acaba por desvendar o crime sem sair de seu gabinete. Aliás, o Código Penal é conhecido por aqueles que descumprem a lei, com a popularidade de seus artigos, citados frequentemente, como o 155, 157, 129, 121, 171, etc, como um conhecimento civilizatório do banheiro social, onde se procura limpar os descuidos do comportamento. Na verdade, para você conhecer o povo de um país, o caminho mais curto é conhecer sua lei penal.

A advocacia também me proporcionou o conhecimento de tramas empresariais, onde o acometimento de crime parece ser mais grave, devido ao fato de terem tido oportunidade econômica privilegiada, que os desvalidos, que cometem crime como que por justiçamento, deixando as noções invertidas quando em histórias policiais brasileiras. No livro é mostrada mais a qualidade dos emergentes, mais interessante, devido ao futuro promissor do desenvolvimento da economia.

O enredo envolve mistérios relacionados ao assassinato de um policial e a um esquema de corrupção. Como você equilibrou esses elementos para criar uma narrativa envolvente?

O assassinato de um policial é o mote inicial para desenvolver a trama. O investigador Silas Steffano precisa desvendar o crime. São suspeitos: os frequentadores de uma boate gay e os demais policiais, seus ex-colegas. A investigação, entretanto, através de uma cena mágica, mas que ao final vê-se a razão desta magia, leva o detetive a conhecer um envolvimento de corrupção entre empresas que fornecem serviços a Prefeituras e os políticos dirigentes. Esse envolvimento ganhou mais notoriedade e notícias no primeiro período do governo do presidente Lula, culminando com o sequestro e assassinato do Prefeito Celso Daniel, cujas referências são fictícias no livro, sem julgamento ou acusações de fatos da História.

O equilíbrio desses elementos, (onde aproveito para agradecer a gentiliza de suas palavras), talvez seja o conteúdo mais marcante de uma trama policial brasileira. É o que está por trás das notícias que ouvimos todos os dias, desde as prefeituras aos palácios de Brasília. Talvez o que o povo brasileiro mais deseja e mereça são bons políticos e o que mais odeia são os crimes dessas pessoas, que devem ser mostrados, escancarados pela literatura e pela arte em geral, para tornem assuntos extirpados, do passado.

A ambientação em São Paulo, desde a movimentada Consolação até o histórico bairro da Sé, é uma parte crucial da história. Como a cidade se tornou quase um personagem na trama?

A cidade como personagem da trama vem da tradição do estilo noir, originalmente com o quase monopólio da cidade de Nova Iorque. São Paulo, como metrópole, eu quis mostrar que ganhou universalidade, saindo do regionalismo, com características mundiais das imigrações. Originariamente como cidade operária, sem praia e sem floresta, em sua angústia abstrata do concreto armado, é agraciada pela industrialização vinda da agricultura do café e depois pelo capital europeu. Posteriormente São Paulo recebe as massas das migrações internas, tornando-se o resumo do Brasil. Nesses nossos dias contemporâneos, percebemos que a cidade se esforça para maior humanismo, considerando a importância do homem comum brasileiro, aquele que pode resolver a corrupção política, por estar mais avançado culturalmente em sua docilidade e simpatia que encantam o mundo.

Ricardo Mello

“Preto Suave” também possui uma pitada de romance. Como esse elemento se integra à trama e influencia as relações entre os personagens?

Eu entendo que o romance continua sendo elemento essencial na literatura brasileira. Com o advento do modernismo, nossa literatura ganhou autonomia. Deixamos o passado colonialista definitivamente para trás. O homem do povo brasileiro passou a ser conhecido. É desejoso, sonhador, empreendedor, amante da liberdade, da família. Suas origens mais profundas trazem a importância coletiva tribal, quilombola, das origens indígenas e africanas, tornando-o preocupado com seu próximo de uma forma pouco individualista. Especificamente neste livro, Preto Suave, é tratado mais diretamente sobre a sociedade branca, com seus crimes políticos mais abrangentes e poderosos. O romance torna as personagens femininas também poderosas, desde a ingênua classe média Malu, à matadora Dendê. Percebe-se que o romance das personagens brancas é concebido de maneira líquida, horizontal, pós-moderno, entre os homossexuais homens e mulheres e os héteros, que distinguem sexo do amor.

Silas Steffano se depara com um novo homicídio envolvendo o prefeito de uma cidade periférica de São Paulo. Como esse evento impacta a investigação e as revelações subsequentes na história?

Creio que o homicídio do prefeito seja o momento clímax do romance, mas não o esclarecedor. Não vou dar spoiler, porém é central para o relacionamento entre as personagens, Tomazino, Silas e Malu, que passam a se relacionar de maneira mais próxima, revelando e satisfazendo suas pretensões, preparando as condições para o desfecho final, o esclarecimento que os deixa ainda mais perturbados.

Quais foram suas inspirações literárias ao escrever “Preto Suave”? Existem autores ou obras que influenciaram diretamente o estilo ou a temática do livro?

Sim, tive bastante influência para escrever o livro. Tudo começou, na verdade, com um encontro de um colega cinéfilo que se interessara pelo cinema noir, através de um livro teórico que acabara de ler. Neste livro, havia classificação de “o verdadeiro noir”, os filmes feitos em um único período, e todo o restante que se seguiu, formatando o estilo. Assistimos muitos filmes, diretores, atrizes, o expressionismo alemão, a femme fatale, numa atividade de colecionadores de cultura, até que, por já ter me iniciado como escritor, apareceu a vontade de escrever um noir, dando-lhe a originalidade de ser brasileiro, procurando desvendar as reações do povo neste tipo de situação política criminosa, fugindo do raso entretenimento.

Os leitores gostam de desvendar mistérios junto com os personagens. Como você abordou a construção das pistas na história, mantendo o interesse do leitor ao longo do livro?

É a preocupação de todo escritor, não somente de suspense e mistério, mas da literatura como um todo. É a maneira do escritor fisgar o leitor, seduzi-lo, mantê-lo afinado com a leitura recriando a própria arte em sua imaginação ativa. Há uma frase do genial Beethoven em que afirma não ter o ouvinte qualquer chance frente à música, se ela for triste, ele chora; se for alegre, ele dança; se angustiante, aprende a se conhecer; esse é o poder da arte. Com toda a humildade e como qualquer escritor, tenho esta pretensão, é o que nos motiva a continuar, trazer alguma coisa interessante para facilitar a vida e nos conhecermos e a quem nos rodeia. Conhecer nosso país sem hipocrisia e principalmente criar a arte literária.

Qual mensagem ou sensação você espera que os leitores levem consigo após terminar a leitura de “Preto Suave”?

A abordagem da sensação da leitura é muito interessante. Veja que existem várias sensações perceptíveis, por exemplo, a sensação de sentir a atmosfera após uma chuva forte, estar só em um corredor a noite e sentir a sensação de que você se olha, sensação da admiração da pintura, de estar em um museu e sentir o passado e principalmente sentir a dinâmica de enxergar sua existência após ler um livro. Isto é o que espera todo artista ao criar uma obra de arte, ou pretender criá-la com sua verdade, sem fórmulas pré-concebidas, ou o único interesse de exibir seu ego ou unicamente a venda financeira.

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