Renato Moreira

Renato Moreira enaltece e fala sobre legado científico das curandeiras africanas no Brasil

Luca Moreira
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Renato Moreira

Capturadas em Angola e trazidas ao Brasil como escravas, a curandeira Natula e sua filha Kalinda protagonizam uma jornada de resistência e reconexão com suas raízes através da medicina tradicional na obra “A Curandeira Bantu”, do escritor e bioquímico Renato Moreira. O livro, que entrelaça conhecimento científico e pesquisa histórica, destaca a importância dos saberes curativos africanos na construção social do Brasil, ao mesmo tempo que narra a luta pela liberdade e a preservação da cultura africana em meio à escravidão.

“A curandeira Bantu” apresenta uma história de resistência e conexão com as raízes africanas. Como a ancestralidade e a cultura africana influenciaram a narrativa do livro?

Para escrever a trama do livro Curandeira Bantu, tive que mergulhar em livros e textos da internet que descreviam a cultura e história africana, principalmente de Angola e da etnia bantu. Foram pesquisados textos que lidavam com a ancestralidade da etnia em dezenas de obras consultadas, abordando, principalmente as tradições relacionadas com o curandeirismo e o uso de plantas nos processos de cura.

O livro começa com as protagonistas sendo capturadas em Angola e trazidas para o Brasil como escravas. De que maneira elas encontram força para resistir e superar as dificuldades da escravidão?

O povo bantu é um povo resiliente e de garra. O fato de serem curandeiras e terem salvado vidas e curado guerreiros feridos em combate, lhes incutiu o prazer de fazer o bem e ajudar seus semelhantes no cativeiro, apesar das agressões como escravas. As curandeiras responderam as agressões fazendo o bem a seus semelhantes sejam negros, sejam brancos, sem distinção.

Natula e Kalinda se reconectam com suas origens por meio da cura e da parteira. Como a medicina tradicional africana é retratada no livro e qual é a sua importância para a trama?

Kalinda e Natula, por serem herdeiras de mães curandeiras, aprenderam no convívio com suas mães e avós o poder curativo das plantas medicinais e como utilizá-las no tratamento de doenças infectocontagiosas e feridas sejam oriundas de acidentes, sejam de agressões. A medicina praticada pelas curandeiras provinha do uso de plantas na forma de chás ou na forma de cataplasmas de uso tópico. Podemos dizer que a medicina tradicional africana era baseada no curandeirismo passado de geração a geração.

Você menciona uma extensa pesquisa que sustentou a escrita do livro. Como foi o processo de pesquisa para recriar com precisão o contexto histórico do Brasil escravocrata e as contribuições africanas para a sociedade?

Para a construção da trama do livro, me baseei em extensa pesquisa bibliográfica, em inúmeros livros e sites da internet, abordando a vida e a cultura de povos africanos, assim como da vida no Brasil colônia, com o contato com os povos nativos locais. Também foi objeto de minas pesquisas o dia a dia dos africanos escravizados nas grandes plantações de cana de açúcar e café, nas minas de ouro e pedras preciosas e nas cidades, como escravos domésticos e escravos de mando.

A Casa da Mãe Neusa, criada pelas protagonistas, torna-se um lugar de cura e esperança. Qual é o significado deste espaço na narrativa e como ele representa a resistência dos escravizados?

A Casa da Mãe Neusa nasceu quase por acaso. Não foi planejada e, sim, foi consequência das curas das duas curandeiras. Natula (Luena) e Kalinda (Neusa) desenvolviam atividades de cura, inicialmente junto aos escravos da fazenda onde eram escravas. Mas isso se expandiu para negros e brancos, escravos e senhores da redondeza. Com o crescimento da “clientela”, foi necessário montar uma estrutura, primeiramente na casa onde moravam, com a permissão do seu senhor, que lhes alforriou, e, depois, em uma casa mais apropriada com um jardim de plantas medicinais, para uso próprio e de quem procurasse, como de outras curandeiras ensinadas por elas.

Renato Moreira
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Os anexos no final do livro incluem glossário, linhas do tempo, locais reais e informações sobre doenças e plantas medicinais. Como esses elementos complementam a narrativa principal e enriquecem a experiência do leitor?

Os anexos trazidos no livro Curandeiras Bantu foram criados de modo a evitar inúmeras notas de rodapé que se faziam necessárias e que poderiam interromper o fluxo da leitura do livro, colocando-se informações que o autor considerava importantes, em um local fácil de encontrar.

A obra aborda a cultura Bantu e sua presença no Brasil. Como a conexão com a cultura Bantu molda as vidas das protagonistas e como você trouxe essa cultura para a narrativa?

A cultura bantu foi objeto de uma pesquisa bibliográfica dirigida principalmente para a vida das curandeiras e seus métodos de cura. O resultado de tal pesquisa bibliográfica foi dirigido para a criação da trama do livro de modo a trazer para o público leitor uma visão da vida das curandeiras, tanto em seu ambiente natal (Angola) quanto no ambiente da fazenda onde elas eram escravas e onde desenvolveram suas atividades de cura.

A cura através de chás e unguentos é parte fundamental da história. Como você equilibra a ciência e a espiritualidade no livro, especialmente considerando seu histórico como cientista e acadêmico?

A minha formação científica, como pesquisador na área da Bioquímica e da Imunologia, sem dúvidas, me deixa à vontade para tratar dos aspectos de doenças e curas, dando ao romance um aspecto verossímil dos assuntos tratados.

Escrever sobre escravidão e seus impactos pode ser desafiador. Quais foram alguns dos desafios que você enfrentou ao criar esta narrativa e como você os superou?

O desafio de escrever sobre a escravidão no Brasil, desde o rapto das curandeiras até o dia a dia no cativeiro foi, sem dúvidas o maior problema que encontrei ao escrever esse livro. Penetrar no âmago de um ser humano escravizado foi difícil. Mais difícil ainda foi descrever a bondade de um ser humano que, apesar de ser escravo, se dedicava a curar outros, inclusiva seus algozes.

Esta é a sua segunda obra literária, após “João Caetano, Memórias de um Abolicionista”. Como sua formação e experiência acadêmica influenciaram sua transição para a escrita de romances históricos e o que o inspira a contar essas histórias?

Eu sempre gostei muito de ler, principalmente livros de história, de uma maneira geral e particularmente do Brasil. Sempre pensei em me envolver com a literatura, sobre temas históricos, mas ao mesmo tempo sociais. O tema da escravidão e sua influência na formação da sociedade brasileira, seja participando da sua cultura, seja da sociedade, sempre foi um atrativo na minha vida de escritor. Finalmente, com a aposentadoria, consegui tempo para realizar a minha aspiração de ser escritor.

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