Psicóloga Senia Reñones desvenda complexidade das relações humanas em novo livro

Luca Moreira
12 Min Read
Senia Reñones

Um romance para ser degustado e apreciado como um bom doce de confeitaria. Por meio de uma jornada gastronômica de aguçar o paladar, e personagens femininas fortes de aquecer o coração, a psicóloga Senia Reñones dialoga com os leitores sobre as particularidades, desafios e surpresas da vida. “Chocolate Meio Amargo” faz uma alusão ao intenso sabor das perdas e culpas carregadas ao longo do tempo, e enaltece a oportunidade de enxergar o que há de doce nos aprendizados, recomeços e no amor.

Esta história de dar água na boca se inicia nos primórdios da família Smith – fim do século 19 –, quando o inglês Richard chega ao Brasil e se torna um grande produtor de café. A fazenda e terras da família mais tarde são herdadas pela neta do patriarca, Mary, única sobrevivente. Viúva precocemente, ela assume o papel crucial de criar a neta Anna, enquanto a filha Lara enfrenta dificuldades em se reconhecer como mãe.

A relação entre Mary e Anna se desenvolve na cozinha da fazenda, mas também entre viagens pela França e Espanha, e as delícias culinárias desses países. Esta relação com a gastronomia faz de Anna uma brilhante chef Pâtissier, apaixonada por sabores, fragrâncias e cores. Porém, o destino sempre reserva surpresas e Anna se vê na responsabilidade de criar o irmão mais novo Ricardo, como fez a avó, o que impôs limitações em sua vida amorosa.

A conexão com a gastronomia parece desempenhar um papel significativo no enredo do seu livro. Como essa relação entre personagens e culinária influencia o desenvolvimento da trama?

Ao começar a ter as primeiras ideias, os primeiros pensamentos sobre o livro, a protagonista já foi concebida, criada, como uma chef de confeitaria. Dois filmes me ajudaram a materializar Anna, o primeiro foi Chocolate, filme com Juliette Binoche e Johnny Depp, e o segundo foi Mais Estranho que a Ficção. Nos dois filmes, existe uma figura feminina que adoça, e encanta vidas pela gastronomia, e foi assim que eu criei a protagonista do meu livro, fazendo com que Anna aprendesse e aprimorasse a culinária com tanto prazer, quanto ela aprimorava as relações pessoais, mesclando, compondo sua vida, como se compusesse uma música, onde as pessoas, suas relações, e seus amores, fossem a harmonia, o açúcar, a farinha, e a criação das receitas, fossem a melodia, e a junção dos dois, o ritmo que embalava e dava sentido em sua vida.

O título “Chocolate Meio Amargo” sugere uma metáfora para as nuances da vida. Poderia compartilhar mais sobre como essa analogia é explorada ao longo da história?

Para que eu possa explicar o título do livro, preciso relatar uma coisa pessoal, eu não gosto de chocolate meio amargo, gosto de chocolate ao leite, e acredito que ao comer chocolate meio amargo eu tento pensar que esse chocolate não é tão ruim, porém, essa convicção dura apenas alguns segundos, sendo, que, logo depois, eu reafirmo minha predileção pelo chocolate ao leite. Ao pensar no título do livro, eu queria um nome que elucidasse, ilustrasse o conteúdo, e ao pensar no quanto me é difícil gostar de chocolate meio amargo, me dei conta, que era um título perfeito, que a nossa vida muitas vezes é exatamente assim, a vida “empurra” pedaços de chocolate meio amargo na nossa boca, na verdade na nossa vida, e tentamos nos convencer que não é tão ruim assim, para depois, finalmente, admitirmos, que preferimos o chocolate ao leite, mas, com frequência, temos que contentar-nos com o meio amargo, e assim eu escolhi o título Chocolate Meio Amargo, pensando nessa analogia, o que a vida nos dá, ou sendo que na maioria das vezes, não é o que esperamos, muito pelo contrário, é bem mais amargo, mas, que temos que aprender a gostar, ou aprender a lidar com o gosto amargo na boca, literal e metaforicamente  falando.

O livro parece abordar temas complexos, como superação, imigração, morte e autoaceitação. Como você equilibrou esses temas delicados com a jornada emocional dos personagens?

Quando eu tive a ideia de escrever o livro, a primeira coisa que pensei foi na protagonista, como já relatei, depois fui estruturando a história na minha cabeça, como se fosse um esqueleto, o começo, meio e fim, porém, quando comecei a escrever, outras ideias foram surgindo, e assim, me dei conta, que, escrever se assemelha ao mágico que vai tirando lenços coloridos da boca, a gente não sabe que cor virá, e tampouco, quanto tempo ele permanecerá naquela mágica,  da mesma forma se dá o entrelaçamento entre personagens, história e os temas abordados, tudo está junto, ao mesmo tempo que a cadência da trama se desenrola, cada personagem vai sendo criado com suas peculiaridades e particularidades, e a jornada de cada um, vai permeando, e se entrelaçando com a história, e vice-versa.

Sua experiência como psicóloga clínica por três décadas certamente influenciou a construção dos personagens. Como você aplicou esse conhecimento na criação de personagens realistas e imperfeitos?

Eu adoro minha profissão, e depois de três décadas como psicóloga, aprendi que além de todo meu trabalho como terapeuta, uma coisa que me fascina, são as histórias, e como cada paciente viveu e vive, com todo aquele enredo, sentimentos, e acontecimentos de uma vida, e é claro que toda essa riqueza está presente na construção dos personagens, e na história, afinal, a arte imita a vida, ou será o contrário?

O protagonismo feminino é um dos focos do seu romance. Poderia compartilhar como você explorou esse tema e destacar o papel das personagens femininas na história?

Eu acredito que não serei capaz de escrever histórias, onde o protagonista seja um homem, por que parto do pressuposto das minhas próprias experiências, e meus sentimentos, para montar o perfil, a personalidade dos personagens, sendo assim, acredito que as protagonistas dos meus livros, sempre serão mulheres, outro detalhe importante, a mulher mais importante, marcante e inesquecível da minha vida é minha mãe, acredito que todas as protagonistas têm e terão um pouco dela.

Senia Reñones

A influência de autores como Gabriel Garcia Márquez, José Saramago e Isabel Allende é mencionada. Como esses autores inspiraram a sua narrativa e a criação dos personagens?

Eu admiro profundamente estes três autores, acredito que cada um à sua maneira, é único, incomparável e deslumbrante. Eu me assombro principalmente com Saramago, e Gabriel Garcia pela genialidade, pela originalidade com que escrevem, acredito que ao ler um livro, esse aspecto da genialidade é muito raro de encontrar, quando lemos um livro e nos assombramos com a forma com que está contada aquela história, isso é um privilégio, e se torna inesquecível. Estes três autores apenas me dão coragem, e inspiração com suas genialidades, e criações inesquecíveis.

A representatividade LGBTQIAP+ parece ser um elemento importante em seu romance. Poderia falar mais sobre a jornada de autoaceitação de Ricardo e como isso se relaciona com a história principal?

O personagem Ricardo já existia na trama desde o início, quando eu relato em uma das perguntas acima, que antes de começar a escrever, o esqueleto da história está na minha cabeça, esse personagem estava inserido desde o princípio, a característica dele ser homossexual me ocorreu depois, achei interessante ele ser tão bonito, tão sedutor, e romper com o perfil heteronormativo. Eu acredito ser pertinente usarmos os meios de comunicação, inclusive livros, para falarmos das questões que precisam ser discutidas, e debatidas.

Além dos elementos emocionais, o livro também parece tocar em temas de imigração. Qual é a mensagem que você espera transmitir por meio dessas histórias entrelaçadas?

Meus pais são imigrantes, meu pai era argentino, minha mãe é espanhola, os dois vieram para o Brasil já adultos, eu falei espanhol em casa na minha primeira infância inteira, eu falava português na escola, e a partir dessa experiência eu comecei a falar português em casa. Eu conheço várias cidades da Argentina e Espanha, porque a paixão do meu pai era viajar. Uma boa parte da minha história está marcada no meu DNA, como herança genética, e uma outra boa parte vêm das viagens, então a imigração, a noção de que as divisões dos países, muitas vezes, são apenas nos mapas, são geográficas, outras vezes, a herança de pertencer a um país, é insubstituível, vivi isso muitas vezes, vendo minha mãe sofrer por ter que passar o Natal com 30 graus positivos, sendo que para ela o Natal tinha sido a vida inteira com 20 graus negativos. No livro a imigração faz parte da história, como fez parte da minha vida, e viajar, e conhecer os costumes, hábitos e a culinária só nos engrandece como seres humanos, como também engrandeceu os personagens do meu livro.

Como foi a transição da sua prática como psicóloga clínica para a escrita de um romance? Quais foram os desafios e as recompensas nessa mudança de campo?

Eu sempre li bastante, sempre foi uma prática que me deu muito prazer, é um hábito comum na minha família. E eu li muito para meu filho quando pequeno, e as vezes ele me pedia para inventar histórias da minha cabeça, e em algumas ocasiões, ele gostava tanto dessas histórias, que eu contava muitas vezes, colocando novos personagens, etc, e uma dessas histórias realmente ficou muito bonita, e eu comecei a pensar na possibilidade de escrevê-la, e assim o fiz, e conforme eu avançava, outras ideias foram surgindo, como se eu tivesse aberto um campo de uma nova criatividade, e os pensamentos foram se ordenando, até que eu comecei a escrever e dei vazão as minhas ideias, e foi como eu falei anteriormente, foi igual ao mágico que vai puxando lenços coloridos da boca, um amarrado no outro, uma ideia vai puxando outra, e eu escrevi Chocolate Meio Amargo.

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