Margareth Tassinari

Margareth Tassinari idealiza mundo igualitário e sem preconceitos em novo livro

Luca Moreira
11 Min Read
Margareth Tassinari

Margareth Tassinari convida-nos a uma jornada visionária através de “Por um vaso de hortênsias”, uma narrativa cativante que desdobra um tecido social onde o amor e as conexões humanas emergem triunfantes numa utopia livre de preconceitos e desigualdades. Situado em uma rua sem saída, este conto explora a essência das relações humanas por meio de personagens cujas vidas refletem as nuances e complexidades encontradas além dos limites desta sociedade idealizada.

Como surgiu a inspiração para criar a utopia retratada em “Por um vaso de hortênsias”? Houve alguma influência específica que a levou a imaginar essa sociedade idealizada?

Os sonhos são de longa data. Quanto aos espaços públicos e os serviços oferecidos, para tornar a vida das famílias e, principalmente, das mulheres, mais cômoda e mais confortável, aos dez anos eu idealizei essa cidade. Não sei com qual inspiração, mas, certamente pelo desejo de viver com menos trabalho e mais lazer. A cada noite, já na cama, criava uma parte dessa cidade/vila. Pensava nas construções das casas para acomodar as famílias de diversos tamanhos, deixando sempre no andar térreo um quarto para os avós ou para os adoentados. Na noite seguinte, criava a lavanderia coletiva, com muitas máquinas e pranchas especiais para passar roupa de modo rápido e profissional. As famílias recebiam as roupas prontas para uso. Em outra noite, era a vez de pensar nas cozinhas e nos refeitórios. Só cozinhava em casa quem quisesse e ainda poderia receber livros de receita e instruções para melhor aproveitamento dos alimentos. Imaginei, também, um local para confecção e reparo de roupas, com reaproveitamento de peças e distribuição gratuita ou comercialização delas. Havia bibliotecas, salas de brinquedo, parques com brinquedos infantis, espaços de lazer, clubes para a prática de esportes e salões para dança. Era um encantamento pensar nisso todas as noites, até pegar no sono. A essas ideias, emprestadas da Margareth menina, acrescentei outras, que a vida, o trabalho e a maturidade foram me mostrando como imprescindíveis para uma vida mais feliz. Assim, incrementei a escola, fortaleci os laços de amizade, tornei românticas e sutilmente eróticas as relações entre as pessoas que formavam os casais da história.

Os personagens de sua obra representam uma variedade de complexidades sociais, apesar de viverem em uma cidade sem preconceitos e desigualdades. Como você equilibrou essa dualidade entre a utopia e a realidade na construção desses personagens?

Independentemente da estrutura social, as relações humanas, em qualquer local e em qualquer tempo (por isso não os especifiquei), podem ser bastante harmoniosas, mas também podem ser conflituosas, em função das características de personalidade de cada um, ou devido a alguma situação desfavorável, um contratempo, um infortúnio ou uma tragédia. Assim, aparecem o amor, o carinho, o desejo, o afeto, a solidariedade, a amizade e a empatia como os aspectos mais positivos dessas relações, misturados ao desamor, a inimizade, ao ódio, à crueldade, à negligência, à vilania, às mentiras, à intriga e ao ciúme, sentimentos indesejáveis para um bom convívio social, mas tipicamente humanos. Uma boa estrutura social que garanta que todas as necessidades básicas sejam supridas, um excelente sistema educacional, uma cidade segura, com muitas opções de lazer e entretenimento, certamente garantem melhor qualidade de vida para a população e podem ser usados como indicadores do grau de felicidade de um povo. Mas isso não consegue interferir diretamente nas relações humanas, seja no ambiente familiar, escolar ou social, reduzindo ou eliminando os atritos e as animosidades.

O amor é um tema central em “Por um vaso de hortênsias”. Como você aborda essa temática na narrativa e qual é o papel do amor na construção dos laços entre os personagens?

As diferentes formas de amor aparecem na narrativa como essenciais para os relacionamentos. O amor pelo trabalho aparece muito claramente em vários personagens que se dedicam às suas tarefas com esmero, beneficiando os outros com sua dedicação, na escola, no restaurante, no laboratório, na universidade, no jardim, na costura, no bordado e na cozinha. O amor amigo aparece na escola, na vizinhança e nas relações de trabalho.

Evidenciam-se também o amor entre os diversos membros de uma família, na relação entre irmãos e o amor, sob forma de zelo, entre avós e netos. O amor romântico é tratado com um cuidado especial, desde quando surge sob forma de paixão, encantadora, avassaladora e arrebatadora, mas efêmera, que pode simplesmente se apagar e desaparecer, afastando o casal, ou se transformar em amor, um sentimento mais forte, que tanto pode ser duradouro, se cultivado e alimentado para aproximar quem se dispõe a continuar junto, apesar das agruras e tropeços, ou que pode, apesar de forte, se esgarçar e não sustentar um relacionamento mais longo.

Em sua obra, há espaço para personagens cruéis e egoístas, que contrastam com a harmonia geral da sociedade utópica. Qual foi a sua intenção ao incluir esses personagens e como você os utilizou para explorar as contradições humanas?

A intenção foi mostrar que as pessoas não são perfeitas, que muitas vezes apresentam comportamentos inadequados, que podem agredir, ferir ou prejudicar os outros. Uns agem assim deliberadamente, outros fazem vista grossa e acabam aceitando os malfeitos alheios. Aparece uma irmã que engana os fregueses e as outras, apesar dos protestos, acabam aceitando que ela continue a proceder dessa forma. A mesma irmã, por ciúme, torce para o rompimento da amizade de sua irmã com uma vizinha. Há um contador que esconde os rendimentos da mãe por discordar da natureza de seu trabalho. É enfatizada a importância da escola e da educação na abordagem de comportamentos desfavoráveis e orientação aos alunos para melhorar seu convívio escolar e contribuir para seu desenvolvimento.

O ápice da crueldade aparece em um casal, que nem recebe um nome e que trata sua única filha com uma negligência e distanciamento inexplicáveis. Apesar disso, a menina cresce, afeiçoando-se a pessoas que lhe oferecem algum carinho, cercando-se de amigos e conseguindo se apaixonar, ser amada, amar e oferecer a sua família os cuidados e a atenção que nunca recebeu. Nem sei por que carreguei tanto na maldade desse casal. Talvez para mostrar que, mesmo sofrendo tanto na infância, com a família original, as pessoas são capazes de, com companheirismo, amizade e muito amor, seguir a vida e constituir uma família com um modelo totalmente diferente da que conheceu.

Como fonoaudióloga clínica e ex-professora universitária, como você acredita que sua formação e experiência influenciaram sua escrita e sua abordagem à construção dos personagens e enredos?

Em relação à escrita, tanto a atividade acadêmica, quanto o trabalho clínico foram essenciais para o desenvolvimento dos diversos tipos de texto, respeitando a norma culta da língua na produção e correção deles. Escrever com coerência e coesão, ter um vocabulário razoável, conhecer um pouco de gramática, as regras ortográficas e saber usar acentuação e os sinais de pontuação facilitaram a produção, mesmo sendo a primeira experiência com texto literário. Apesar de não me inspirar diretamente em qualquer aluno ou paciente para a construção dos personagens e enredos, certamente o fato de trabalhar com tantas pessoas com personalidades, culturas, crenças, valores e hábitos tão diversos contribuiu para que eu criasse uma quantidade absurda de personagens, com traços de personalidade tão distintos e tão marcantes, sem julgá-los ou classificá-los.

Margareth Tassinari
Margareth Tassinari

Além de entreter os leitores, “Por um vaso de hortênsias” também parece ter uma mensagem reflexiva sobre a construção de uma sociedade mais respeitosa e feliz. Como você espera que os leitores recebam essa mensagem e que impacto você espera que sua obra tenha na vida deles?

Tenho recebido relatos de alguns leitores que, além de se imaginarem andando pelas bancas da feira, passeando pela cidade, ouvindo música e comendo um provolone à milanesa na casa noturna, também acreditam ser possível uma escola de qualidade, uma vizinhança mais amistosa e casamentos mais felizes. Eu espero que eles percebam que não estou tratando de um período que eu já vivi, mas de um tempo que ainda poderá existir. Um tempo em que as pessoas possam namorar quem bem entenderem, sem serem motivo de chacota, escárnio ou fofoca. Um tempo em que as pessoas não precisem, ao fim da feira, retirar restos de comida na calçada para sobreviver. Um tempo em que as crianças possam comer à vontade na escola e possam passear com os colegas, sem se preocupar com a falta de recursos para pagar cantina ou transporte. Espero, também, que elas percebam que pequenos gestos, como manter um portãozinho aberto para um vizinho entrar e oferecer conforto a alguém em uma situação difícil, podem transformar a vida das pessoas e mudar a sociedade, enquanto se luta para que o direito de comer, morar bem e viver com dignidade deixe de ser uma utopia.

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