Justine (Marceli Marques)

Justine revela sonhos em português em novo álbum homônimo

Luca Moreira
11 Min Read
Justine (Marceli Marques)

Comemorando dez anos de trajetória musical, a banda Justine, antes conhecida como Justine Never Knew the Rules, lança seu novo álbum homônimo. O disco, marcado por um processo de reinvenção e distanciamento de influências eurocêntricas, apresenta nove faixas inéditas e conta com a colaboração da banda Wry. Lançado em parceria com o selo midsummer madness, o álbum é um reflexo da realidade brasileira contemporânea, abordando temas como pandemia, insegurança, solidão e a ascensão do fascismo, entregando uma mistura de sonho e urgência.

Como foi o processo de criação do álbum “Justine” e quais foram as principais inspirações por trás das onze faixas inéditas?

Marcel Marques: Foi bem diferente do que fazíamos. Antigamente a gente criava praticamente tudo no ensaio, tocava bastante para depois gravar. Dessa vez a maioria dos arranjos foram criados no estúdio a partir de demos feitas em casa no período da pandemia. Só depois de tudo gravado e finalizado que fomos aprender a tocar as músicas, pensar em como executaríamos elas ao vivo. Foi bem legal poder testar timbres e formas de gravar sem pressa. Algumas músicas tiveram diversas versões até chegar na final, houve algumas que gravamos até em fita k7.

Mauricio Barros: Em relação às inspirações, a maioria das músicas refletem sentimentos coletivos e individuais sobre o período da pandemia.

O que vocês esperam alcançar com esse novo trabalho e como vocês descreveriam a sonoridade e as temáticas abordadas no álbum?

Mauricio Barros: A vida me mostrou que, enquanto músico independente, qualquer expectativa fora fazer um trabalho em que todos os músicos estejam felizes com o resultado e se divirtam tocando juntos pode ser meio frustrante. A gente já esperou muita coisa, mas agora só queremos nos divertir e ser autênticos: conseguir traduzir em música as impressões do que vivemos ou sobre o que queremos falar da melhor forma possível naquele momento. O que vier fora isso é lucro. A sonoridade é baseada na solidão e na plasticidade. Apesar de ser cheio de sentimentos, esse clima que permeia o álbum todo é propositalmente carregado entre as faixas para reproduzir o estado de espírito da época em que ele foi composto.

Vocês mencionaram que o álbum é uma parceria com o selo midsummer madness. Como foi essa colaboração e qual foi o papel do selo no desenvolvimento do projeto?

Mauricio Barros: A parceria com a midsummer vem desde o Overseas, nosso primeiro álbum. Em 2015, o Rodrigo Lariú (responsável pela midsummer madness) estava presente em um show que fizemos em São Paulo, nós conversamos, as ideias bateram e ele fez o convite para o selo. Basicamente, o Lariú é um facilitador para a distribuição de nossa obra digitalmente e parceiro na prensagem do álbum físico. Na prática também é um grande motivador nos momentos difíceis e uma espécie de psicólogo para aguentar as ideias malucas que surgem até chegarmos a algo concreto.

Justine
Justine

Como vocês percebem a evolução sonora e artística da banda ao longo desses 10 anos de carreira e estrada?

Marcel Marques: Acredito que é perceptível para a gente pela paciência que temos com o processo todos agora. Essa variedade de arranjos, instrumentos e na confiança no que estamos fazendo. Não vejo mais a gente inseguro sobre alguma música ou para onde devemos seguir com ela. Não temos medo de tirar algo ou refazer até ficar da forma que precisa ser. É bem curioso porque nesse disco aconteceu muito isso de sabermos o que queríamos e, até aquilo sair, definitivamente não paramos de tentar ou refazer. Vejo também a gente compondo, produzindo e tocando melhor.

Mauricio Barros: Acredito que não temos mais medo de arriscar abordagens novas, não ficamos mais fazendo coisas na zona de conforto ou totalmente preso em apenas um estilo musical. Deixar a música ter vida própria e encontrar seu caminho sem rótulos ou amarras, sabe? Sinto que isso cada vez tem mais espaço em nossa rotina.

O que motivou a mudança do nome de Justine Never Knew the Rules para Justine e como essa mudança reflete a evolução da identidade da banda?

Mauricio Barros: A gente queria ter um nome que fizesse mais sentido para uma banda que canta em português e, ao mesmo tempo, ter um nome mais simples. Há 10 anos atrás era cool ter nomes gigantes, mas a real é que pouca gente consegue falar o nome no Brasil. Acaba soando meio elitista até se pensar bem.

Vocês mencionaram que buscam se afastar de influências eurocêntricas para se conectar mais com a produção nacional. Como essa mudança se reflete no som e nas letras do novo álbum?

Mauricio Barros: Acredito que é algo que veio, acima de tudo, da necessidade de criarmos nossa identidade enquanto indivíduos, enquanto banda. E esse tipo de coisa só vem após uma profunda compreensão de quem somos, de onde a gente veio. Me abri para outros estilos musicais com o intuito de compreender novas linguagens e encontrar novos caminhos para entender isso. Hoje compreendo que é um estado transitório, mas descobrir artistas como Itamar Assumpção, Paulinho da Viola, Tom Zé me fizeram ter novas perspectivas sobre a arte, sobre a vida. Acredito que isso acaba refletindo em composições mais amplas. Então, respondendo à pergunta, essa mudança reflete em um álbum com o espectro sonoro mais amplo e, comparado ao que fazíamos antes, mais ousado.

O release menciona que o álbum aborda temas como pandemia, insegurança, emergência do fascismo e morte. Como esses temas se entrelaçam ao longo das faixas e qual foi o objetivo por trás dessa abordagem?

Mauricio Barros: A sequência das músicas no álbum tem um entrelaçamento interessante na perspectiva de olhares e pensamentos. A gente não tinha nenhum objetivo fora a coesão da arte como um todo. Como a capa já sugere, são recortes de uma época. Mas no fim, o álbum, que começa com um lamento, naturalmente busca caminhos para uma espécie de compreensão – não necessariamente solução, e novos olhares sobre como a vida no mundo pós-pandemia funciona.

Como a pandemia e os desafios dos últimos anos influenciaram a criação das músicas e como vocês esperam que o público se conecte com essas mensagens?

Mauricio Barros: Como estávamos isolados e morávamos em cidades diferentes, a maioria das músicas foram compostas utilizando os instrumentos que tínhamos em casa. Sozinho, violão, muita bateria eletrônica e sintetizador. Não tivemos a intenção de soar de forma X ou Y em nenhum momento. Mas, no álbum, tentamos manter a estética da introspecção, do isolamento, ter certa fidelidade com a forma que as músicas foram concebidas em uma tentativa de registrar os sentimentos e status quo daquele período.

O retorno da banda após um hiato de quase 5 anos foi marcado pelo single “Avalanche”. O que motivou esse retorno e como tem sido a recepção dos fãs e da crítica até agora?

Marcel Marques: Acredito que saudades de estar juntos e essa troca artística que cada um consegue colocar quando nos encontramos. Logo após o início da pandemia nós voltamos a compartilhar ideias e organizar o projeto das músicas com cada um fazendo o que era possível de casa mesmo. Assim que foi possível já começamos o processo no estúdio e, diferente da forma que fazíamos anteriormente, fizemos tudo no tempo que foi necessário sem pressa ou aquela euforia de lançar o material o quanto antes. Tem sido muito legal a recepção nos shows e com as pessoas que nos mandam mensagens. Todo mundo gostando bastante das composições em português, falando sobre os arranjos e que é perceptível a evolução da banda.

Como vocês veem a trajetória da banda desde o início até este momento, e quais são seus planos para o futuro após o lançamento do álbum “Justine”?

Marcel Marques: Acho que fizemos tudo que devíamos ter feito no seu devido momento. É bem legal para quem acompanha desde o início analisar toda a carreira. Como a gente sempre fez todos os processos sozinhos, você consegue ver esse caminho, d e como nós viemos evoluindo desde a composição, gravação, mixagem etc. Na minha opinião estamos na melhor fase, aproveitando muito mais esse processo da produção. Apesar de sempre nós mesmos nos gravarmos, antigamente acho que a gente focava muito mais em tocar o máximo possível do que ficar trancado no estúdio. Esse ano ainda temos alguns lançamentos planejados e alguns shows também.

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