Jotadablio fala de novo álbum que explora o universo das despedidas musicais

Luca Moreira
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Jotadablio (Ernesto Carriço)

“Toda Forma de Adeus” representa um álbum marcado por dualidades: celebra despedidas enquanto inaugura um novo talento no cenário musical brasileiro. Jotadablio, o projeto musical do jornalista, compositor e músico Jorge Wagner, finalmente lança o aguardado primeiro disco após uma série de singles lançados ao longo dos últimos dois anos.

Este álbum marca o início de uma jornada musical já vasta para Jorge Wagner. Originário de Paracambi (RJ), ele organizou com sucesso tributos online na última década, como os dedicados à Raça Negra (“Jeito Felindie”, 2012) e Belchior (“Ainda Somos os Mesmos”, 2014), que reuniram talentos como Letrux e Lucas Vasconcellos (na época integrantes do duo Letuce), The Baggios, entre outros.

Explorando agora sua faceta de compositor e intérprete, Jotadablio apresenta-se com experiência. O álbum “Toda Forma de Adeus” traz um repertório amadurecido ao longo de anos de composições despretensiosas. Musicalmente, ele busca inspiração na música alternativa americana, citando influências de artistas como David Bazan e Bon Iver, ao mesmo tempo que incorpora elementos da MPB dos anos 70 e de bandas independentes, como Transmissor e Harmada.

Neste seu disco de estreia, Jotadablio convida a uma jornada através de composições que exploram temas como o término de ciclos, amadurecimento e mortalidade. A faixa inicial, “Mesmo de Longe”, remete a 2005, quando o artista a compôs como um exercício de escrita, inspirado pelas letras de Beto Cupertino, da banda Violins. Esta balada de melodia envolvente esconde, habilmente, declarações questionáveis do personagem em sua letra, fazendo referências sutis a versos de Wilco. Outra canção, “Livro na Estante”, transporta-nos para um ambiente “country indie suburbano” repleto de memórias e reflexões.

“Estrelas Encobertas” explora a dualidade entre otimismo e pessimismo, remontando a maio de 2005, quando Jotadablio tinha apenas 21 anos. A faixa reflete sobre esperança e descrença, culminando num arranjo que brinca com espaços vazios antes de atingir o refrão.

Segue-se a faixa “Cicatriz”, com a participação especial de Vivian Benford (um dos destaques da coletânea cultuada “Jeito Felindie”). Esta música promete que nenhum sofrimento surpreenderá após as experiências vividas.

Outras faixas, como “Sobre Pertencer”, “Cartão de Embarque” e “Colecionando Rins”, dão continuidade à narrativa do álbum, cada uma com suas próprias nuances e referências. Enquanto “O que espero” é uma reflexão profunda sobre amadurecimento, frustrações e mortalidade, moldada pela experiência pessoal de um infarto do pai de Jotadablio e sua estranha sensação ao receber a notícia enquanto acompanhava as atualizações do parceiro de composição, André Lemos, sobre seu filho recém-nascido. Por fim, “De volta, outra vez” encerra o ciclo narrativo, explorando a ideia de um retorno a um antigo relacionamento, comparando-o ao retorno de um soldado à casa após a guerra.

Com um repertório enriquecido por canções compostas ao longo dos anos, “Toda Forma de Adeus” representa a afirmação da maturidade artística do artista. O álbum já está disponível em todas as principais plataformas de música.

O álbum “Toda Forma de Adeus” celebra as despedidas ao mesmo tempo que representa o início de sua carreira musical. Como você vê essa dualidade refletida nas composições deste disco inaugural?

Essa questão de escrever sobre despedidas, dores de cotovelo e rancores em geral sempre foi razoavelmente fácil para mim, mesmo nos melhores momentos da minha vida pessoal, risos. A essa ideia de colocar minhas canções na rua há bastante tempo, e já havia pensado no conceito e no nome Toda Forma de Adeus lá na época do lançamento do Jeito Felindie, em 2012. A dualidade, apesar de não intencional, acabou sendo bastante natural.

Você tem uma história rica na música, incluindo tributos bem-sucedidos a artistas como Raça Negra e Belchior. Como essas experiências influenciaram o seu processo de criação para este álbum?

Os tributos me colocaram em contato, ou estreitaram laços, com pessoas que me inspiram e influenciam muito. A masterização dos dois trabalhos citados, por exemplo, foi feita pelo Manoel Magalhães, que assumiu a produção do meu disco. A Vivian Benford, com quem divido os vocais de Cicatriz, fez a regravação de Cheia de Manias etc. Teve também o Lucas Vasconcellos, que considero um pequeno gênio, e chegou a gravar um solo lindo para uma faixa do Toda Forma de Adeus que acabou não entrando no disco.

Em seu álbum de estreia, você busca influências na música alternativa americana e na MPB dos anos 70. Como conseguiu fundir esses estilos distintos em um único trabalho coeso?

Essa questão das influências e referências é algo curioso. Eu posso dizer que o disco quis buscar algo do alt-country, mas estou ciente de que nunca soaria como um Jay Farrar, nem se tentasse com muita vontade. Na hora de escrever, se fizer de forma natural e espontânea, sei que é muito mais provável que eu vá cometer versos mais parecidos com algo de um Paulo Sérgio que de um Jeff Tweedy. Então o caminho para essa coesão é só o de não pensar demais, só executar.

Cada faixa parece ser uma jornada própria. Como você descreveria o tema ou a emoção predominante que desejava transmitir aos ouvintes através dessas músicas?

Apesar do fio condutor do disco, as idas e vindas, cada música é, de fato independente, ainda que uma ou outra dialoguem entre si – Mesmo de Longe e Cicatriz, por exemplo, ou Cartão de Embarque e Colecionando Rins. Assim, não tem exatamente uma emoção predominante. Sobre Pertencer, ali pelo meio, tem um otimismo mais natural completamente distante do esforço irônico de Estrelas Encobertas para falar em dias melhores. É meio como na vida, né? Se tudo estiver bem, a gente dificilmente vai passar por tanto tempo enxergando e sentindo as coisas exatamente da mesma forma, risos.

“O que espero” é uma composição que carrega uma carga emocional forte, moldada por experiências pessoais. Como foi o processo de transformar essa experiência em uma música e como isso afetou sua relação com a canção?

Escrevi O Que Espero quase como um desabafo, com aquele sentimento de “estamos aqui, daqui a pouco não estaremos, e o que é que a gente faz nesse meio tempo?”. Brinco que é um existencialismo de superfície. Não moro na mesma cidade que a minha família, então, nos dias seguintes àquela sensação de “caramba, meu pai quase morreu mesmo, de uma hora pra outra”, me peguei cantarolando os primeiros versos da música, já com melodia. Mesmo as partes nas quais eu terceirizei minhas emoções naquele momento, escrevendo pelo ponto de vista de um personagem que não sou exatamente eu, vieram com facilidade. Foi uma música que nasceu pronta.

Jotadablio (Ernesto Carriço)

Algumas músicas remontam a períodos anteriores de sua vida, como “Mesmo de Longe”, de 2005. Como foi revisitar e adaptar essas composições mais antigas para este álbum?

O repertório foi pinçado de um período bem grande, entre 2005 e 2018. E é claro que muita coisa muda num período desses – o que te afeta, como você lida com as coisas, suas influências, referências, métodos de composição etc. A gente teve o trabalho de selecionar músicas que, quando vistas em conjunto, soassem coesas entre si, e aí entrou um trabalho atento na hora de arranjar e produzir as faixas, para deixá-las bem amarradas nesse sentido. O JW que escreveu Mesmo de Longe com certeza não é o mesmo de “De Volta”, “Outra Vez”, mas foi o mesmo que arranjou e gravou as duas para um único disco.

A participação especial de Vivian Benford em “Cicatriz” acrescenta uma dimensão especial à música. Pode compartilhar um pouco sobre como essa colaboração se desenrolou e o que ela trouxe de novo à faixa?

Sou um cantor tecnicamente limitado, ponto. E, apesar da melodia bonitinha, “Cicatriz” é uma música liricamente pesada. Desde o início eu tive receio de não a interpretar bem o suficiente para passar as devidas impressões. Aí veio a ideia do vocal feminino. A princípio, pensei na Fernanda Marques, que foi vocalista da extinta banda carioca Columbia, mas ela já não canta mais, mora na Espanha e as coisas acabaram não andando. A Vivian foi o único nome que pensei além desse, por ter certeza da qualidade do que ela entregaria. Obviamente, atendeu a todas as expectativas.

Você menciona que o disco é uma declaração de sua maturidade artística. Que aspectos específicos desse amadurecimento você destacaria neste trabalho?

Isso aí é coisa da minha assessoria de imprensa, risos. Fico muito honrado que eles tenham enxergado dessa forma, e acho que em muito isso se deve à clareza que tivemos na condução do projeto – sobre o que queríamos falar, como queríamos que soasse etc.

Agora, com “Toda Forma de Adeus” lançado, quais são seus planos ou expectativas para o futuro próximo de sua carreira musical?

Primeiramente, pretendo não levar 18, 20 anos para lançar um segundo disco, risos. Quero trabalhar um pouco na divulgação do Toda Forma, tentar fazer alguma coisa em vídeo e algumas apresentações, buscar jogar o disco um pouco para fora da minha bolha. Mas já tenho o repertório separado e até nome provisório para um segundo disco e estou super ansioso para começar a pensar na pré-produção dessas músicas, talvez a partir do segundo semestre de 2024. Quando vai sair, não faço ideia. Mas não vai levar quase duas décadas, certeza!

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