Jerusa Furbino desvenda segredos sobre encarar as próprias imperfeições em novo livro

Luca Moreira
10 Min Read
Jerusa Furbino (Gabriel Furbino)

Encarar as próprias imperfeições pode ser um desafio árduo para muitos. Jerusa Furbino, escritora mineira, propõe uma jornada de confronto com as falhas humanas por meio de seu livro “Inimigo oculto”. Nesta obra de ficção, ela desvenda as complexidades das dinâmicas familiares, abordando questões existenciais e desafiando a crença de que as pessoas são sempre quem aparentam ser, revelando segredos e preconceitos velados.

A trama se desenrola entre a capital e o interior de Minas Gerais, explorando o comportamento da família Silva Rabelo. Eles decidem substituir o tradicional “amigo secreto” de Natal por uma proposta inusitada: o “Inimigo oculto”. Proposto por Bruno, estudante de psicologia, o jogo desafia os participantes a descreverem o defeito da pessoa sorteada sem questionamentos.

À medida que as máscaras caem e segredos são revelados – como traições, corrupção, preconceitos e rejeição de um filho homossexual -, os personagens enfrentam raiva e mágoa, mas também aprendem a se redescobrir através do amor e do perdão. Jerusa Furbino convida a refletir sobre a importância das relações familiares, o respeito às diferenças individuais e o valor da coragem de confrontar os próprios dilemas internos.

Com uma narrativa fluída, quase como um roteiro de novela, o livro é enriquecido pelas ilustrações do versátil artista e poeta Dione Machado, co-fundador do “ColetiVoz”, um dos mais antigos grupos de poesia marginal de Belo Horizonte. As imagens dinamizam a trama que, apesar das intrigas e reviravoltas, conclui com uma mensagem de aceitação, amor e união.

Desenvolvida pela autora como uma ferramenta de exploração emocional, a obra permite ao leitor se identificar tanto consigo mesmo quanto com sua própria família na história contada. Para Jerusa Furbino, essa abordagem pode ser um ponto de partida para o crescimento pessoal.

Jerusa Furbino, natural de Governador Valadares (MG), desempenha diversos papéis na vida: mãe, mulher, dona de casa, advogada por formação e apaixonada por poesia. Atualmente, ela trilha seu caminho diário na escrita, já tendo publicado dois livros de poesia: “Rabiscos” e “Luto – Um passeio da poesia entre o substantivo e o verbo”, além da coletânea de contos “Catarse Literária”. Reconhecida por suas contribuições em antologias poéticas, sua poesia “Indagações” foi premiada em primeiro lugar no Prêmio Nacional de Literatura de Clubes no final de 2022.

O que inspirou você a abordar a temática do Inimigo Oculto como uma ferramenta terapêutica em sua novela?

Leio muito sobre transformação pessoal, sobre psicologia. Fiz terapia por muito tempo, gosto desse viés do autoconhecimento. E, às vezes, o outro enxerga em você, coisas que você não. Isso não quer dizer que o olhar do outro esteja correto, mas acende um alerta para que você possa se analisar e, se achar necessário, mudar. O Inimigo Oculto é na realidade uma ferramenta para que as pessoas aceitem seus defeitos como parte do processo de transformação pessoal.

Como foi o processo de criação dos personagens da família Silva Rabelo e a escolha de Minas Gerais como cenário para a história?

Os personagens foram surgindo aos poucos de forma caricata, eu gosto de observar as pessoas no dia a dia. Assim, pego características de pessoas que eu convivo ou que eu vejo nos espaços em que estou inserida, ou até mesmo em algum filme ou série.

Minas Gerais é meu Estado de nascimento, Coroaci é uma cidade que frequento e passei muitos natais em família. Eu gosto de trabalhar com lugares reais para dar mais verossimilhança à história. Deixo a ficção para os personagens e suas histórias, mas em meus livros o lugar por onde meus personagens caminha são sempre reais, acredito que isso leva uma certa dose de identificação com o leitor.

O Inimigo Oculto revela segredos profundos dos personagens. Como você equilibrou o drama e a necessidade de transmitir mensagens de amor e aceitação no desenrolar da trama?

A vida é feita de desafios, a esses desafios damos o nome de dramas na literatura. Mas a vida precisa ter paz também, e para isso é primordial saber lidar de forma positiva com nossos dramas. Enfrentar nossos defeitos, aceitar as falhas do outro. Compreender que cada família tem o seu “lado B” é importante para trabalhar o perdão e poder seguir em frente sem rancor ou mágoas.

A ilustração de Dione Machado adiciona uma dimensão visual à sua obra. Como foi a colaboração entre a escrita e a arte visual?

Isso trouxe um encantamento para a história, eu e o Dione conversamos sobre cada desenho, se o leitor observar bem, na primeira fotografia da família ninguém tem olhos, e isso comunga com o quê a história quer transmitir. Quero que o leitor veja as imagens como uma parte essencial na construção da história.  Trabalhar imagem e palavras, para mim, é um casamento perfeito. Posso atrever dizer que isso é poesia!

Você mencionou que a história pode ser uma ferramenta de exploração emocional. Como espera que os leitores se envolvam e reflitam sobre suas próprias vidas ao ler “Inimigo Oculto”?

Nós podemos aprender de várias formas, e uma delas é pela experiência das outras pessoas. No caso, do livro, os desafios enfrentados por cada personagem podem, de alguma maneira, sensibilizar o leitor. Se vai produzir alguma mudança interna eu não posso dizer, mas a leitura tem essa função de nós levar à reflexão.

Jerusa Furbino

A técnica do Inimigo Oculto, como apresentada no livro, tem alguma base em experiências reais ou é uma criação totalmente fictícia?

Totalmente fictícia.  Alguns dos meus leitores já brincaram que irão sugerir fazer em suas famílias.  Eu ri e disse que achava que era melhor não! Mas quem sabe daqui algum tempo não iremos ouvir relatos de pessoas que usaram o livro como forma de inspiração para realização da técnica? Só não venham processar esta autora! Risos.

Como a jornada dos personagens reflete ou se diferencia das experiências humanas comuns, especialmente em relação aos desafios familiares?

Os personagens têm cada um suas peculiaridades, o que não afasta muito de nossa realidade. Nenhuma família é igual a outra, apesar de existir a expressão que toda mãe é igual. Ninguém é igual a ninguém, aceitar isso é o ponto principal para criação do respeito. Somos seres individuais e únicos, e cada personagem tem sua própria característica. Não existem caixas pré-fabricada para colocar os personagens. Gosto dessa expansão para além dos enquadramentos sociais que a maioria das pessoas, de uma maneira ou de outra buscam de inserir. Eu quero é quebrar essa perspectiva com meus personagens.  Não quero vê-los em caixa ou confortáveis.

Você acredita que a literatura, em geral, tem o poder de catalisar mudanças e reflexões na sociedade?

Claro! A literatura sempre teve esse papel. Toda transformação social passa ou passará de alguma forma pelo pensamento literário. Tanto é verdade que podemos conhecer um pouco da história através da leitura de romances de épocas.  Os escritores contemporâneos estão vivendo essa profusão tecnológica e isso vai parar nos textos que se eternizam como fonte de informações.

Qual mensagem fundamental você espera que os leitores levem consigo após terminar a leitura de “Inimigo Oculto”?

O Inimigo Oculto é, antes tudo, uma forma de olhar para seus defeitos ou segredos e aceitá-los, somos seres integrais, nem só bons, nem só maus. Eu, particularmente, não gosto dessa dicotomia entre o bem e o mal. Muitos dos problemas sociais hoje enfrentados é formado por esse pensamento dual que trabalha com as extremidades. Direita/Esquerda. Bem/Mal. Preto/Branco.

Acredito no diálogo, em mudanças de posturas pela palavra, seja falada ou escrita. Abrir a mente e o coração é uma premissa que trago para minha vida e desejo que o leitor se abra para mudar alguma forma de pensar engessada, que por ventura possa ainda ter.

Você tem projetos futuros que gostaria de compartilhar ou alguma nova temática que planeja explorar em seus próximos trabalhos literários?

Sim, esse ano eu terminei um romance que trabalha a relação entre mãe e filha no seu contexto desafiador. Eu enviei esse romance para um grande concurso literário, estou no aguardo por resposta. Além disso, já estou escrevendo mais um romance. Vem muita coisa boa por aí!  A escrita é o caminho que encontrei para aquietar minha mente e poder viver de forma consciente.

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