Jair Oliveira: Trajetória Musical, Inovação Tecnológica e Colaboração em ‘Tekoá’

Luca Moreira
14 Min Read
Jair Oliveira (Carol Biazotto)

Jair Oliveira, reconhecido produtor musical, cantor, compositor, músico e ator brasileiro, carrega uma trajetória profundamente conectada com a música desde tenra idade. Iniciou sua jornada aos 6 anos, participando da gravação da faixa “Deus Salvador” no álbum de 1981 de seu ilustre pai, Jair Rodrigues, marcando o início de sua incursão no universo musical.

Sua incursão no famoso grupo infantil “Balão Mágico” consolidou sua presença, levando sua música por todo o Brasil e apresentando-se em um programa diário de grande audiência na TV Globo durante os anos 1980, resultando na venda de milhões de cópias fonográficas.

Em 1997, após uma formação acadêmica notável na prestigiada Berklee College of Music, em Boston (EUA), onde recebeu honras acadêmicas, graduou-se em Produção Musical e em Gestão Musical. Ao retornar ao Brasil, estabeleceu a S de Samba, sua produtora de som em colaboração com Wilson Simoninha, consolidando-a como uma das principais no ramo, atuando em projetos artísticos, televisivos, cinematográficos, radiofônicos, digitais e publicitários por mais de 20 anos.

Como um prolífico produtor musical, cantor e compositor, Jair Oliveira lançou mais de 13 álbuns em sua carreira solo, incluindo o bem-sucedido projeto infantil multiplataforma “Grandes Pequeninos”. Sua contribuição para a música inclui a produção de trabalhos para renomados artistas brasileiros e internacionais como Tom Zé, Jair Rodrigues, MPB4, Luciana Mello, entre outros, e a composição de trilhas sonoras publicitárias de grande sucesso global.

Recebeu indicações ao prêmio Grammy Latino, tanto como produtor quanto artista, sendo recentemente indicado na categoria de Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa pelo álbum “Selfie” de 2019.

Seu mais recente álbum, “Tekoá”, que será lançado em 2024, explora o poder da criação coletiva e tem como objetivo central a colaboração com talentos da plataforma Marshmelody, proporcionando uma nova dimensão à música por meio de suas conexões e parcerias.

Pode nos contar mais sobre a inspiração por trás da música “Rede Essencial” e como ela se encaixa no conceito do álbum “Tekoá”?

Penso que não só a música “Rede Essencial”, mas todo o conceito do álbum “Tekoá” tenha surgido como complemento do meu disco anterior, o “Selfie”, de 2018, indicado ao Grammy Latino (2019), e que foi produzido juntamente com o Rogério Leão e gravado em Nova Iorque. No “Selfie” eu decidi expor as minhas fotografias internas – ao contrário das badaladas selfies atuais! Aquele disco busca a fotografia a partir das nossas luzes internas. Ou seja, fruto de uma imersão, de uma pesquisa profunda. É o meu disco mais pessoal. Foi o resultado do que estou vivendo: a maturidade.  Essa tentativa de me pesquisar por meio dos acontecimentos – como a partida do meu pai, em 2014. Então é um disco todo amarrado nessas canções que falam sobre essa busca. Das luzes internas, dessa imersão pessoal.

E o disco “Tekoá” acaba sendo o arremate dessa busca – um oposto complementar! Essa viagem profunda e bem-sucedida ao meu interior trouxe essa vontade de me conectar a outras pessoas, a outras mentes criativas. E é o que traz a canção “Redes Essenciais”. A música fala desse cenário digital, dos emojis e todos os símbolos para essa comunicação, mas que, na verdade, necessita desse contato presencial. É uma canção que fala de como a gente lida com essa relação, dessa proximidade. Como a gente lida com a tecnologia, se nos esforçamos ou não a ter o contato com o outro, sobretudo o contato presencial. Cada canção tem um papel dentro desse conceito do álbum. Ou seja, essa canção dentro da minha “Tekoá” tem essa função de expor, manifestar, abordar e fomentar a conectividade – digital e presencial.

O projeto comunitário em torno da plataforma criativa digital Marshmelody parece muito interessante. Como isso funciona e o que você espera alcançar com ele?

A Marshmelody surgiu da parceria que tenho com Wilson Simoninha na produtora de som S de Samba, na qual somos sócios desde 2000. Em agosto de 2021, com a consultoria de profissionais da área de tecnologia de grandes empresas nos Estados Unidos como Netflix e Google, lançamos a Marshmelody – essa plataforma musical global criativa e digital com sede nos Estados Unidos, destinada a fornecer música original para criadores de conteúdos audiovisuais de qualquer complexidade.

Assim, comecei a buscar novas parcerias com produtores e produtoras que conheci pelas redes sociais, alguns deles que ainda não tinham tido nenhuma vitrine, além das redes, e comecei a me abrir e enxergar um universo muito interessante e criativo dentro dessa mentalidade coletiva. E comecei a pensar que eu tinha que fazer um disco para isso.

E no álbum “Tekoá” é assim: a produção é coletiva. Cada um tem a liberdade de colocar suas ideias. Eu enviei as canções para cada um dos colaboradores e disse: – ‘É um showroom de produções. Coloque da maneira como você achar melhor’. São 12 canções onde cada uma é produzida ao lado de um talento diferente. Esse é o conceito: da criatividade coletiva, de uma comunidade criativa, que eu sinto que tem um poder gigantesco e isso acontece quando a gente se abre para novas ideias, para outros pontos de vista e só colabora para um crescimento criativo global. E eu tenho ficado muito satisfeito com essa experiência de criar com outras pessoas, de delegar ideias, outros produtores, outras produtoras. A intenção desse projeto dentro da plataforma é ‘desacomodar’, de abrir para novas caminhos dentro da música. Quero ser surpreendido. E eu tenho sido muito bem surpreendido. Tem funcionado muito.

“Tekoá” é um termo indígena que significa “aldeia” ou “comunidade”. Como esse conceito se reflete no seu novo álbum?

Eu cheguei a esse título junto ao artista plástico colombiano Leo Macias, um dos grandes publicitários do cenário brasileiro, que está fazendo também um lindíssimo trabalho de design gráfico para a capa do disco e de todas as faixas. E, tentando explicar a ele um pouco desse conceito da capa do disco, a gente chegou a esse termo. Ele me sugeriu essa palavra para colocar como representação daquilo que a gente sentiu que o disco estabelece, que é essa criatividade coletiva. Então, procurei integrar cada uma das canções dentro da “Tekoá”. Ou seja, cada uma das faixas têm um papel vital dentro dessa aldeia – sendo na vivência ou no respeito a determinadas questões. “Rede Essencial” tem essa função de expor, manifestar, abordar a conectividade – digital e presencial. Em outra faixa caberá o papel do Poder Feminino, em outra da Solidariedade; outra do Respeito à Natureza… São 12 canções representando a nossa aldeia global.

Você mencionou que “Rede Essencial” celebra as relações humanas presenciais. Como essa canção reflete essa importância em um mundo cada vez mais digital?

Ela reflete essa importância justamente fazendo um paralelo e usando termos do que a gente geralmente associa às relações digitais e transferindo para a relação presencial. No refrão, por exemplo tem essa brincadeira: ‘Menina, a gente se navega e a gente se curte’. A letra se ancora na ideia de não separar os universos valorizando também algo que a gente tem perdido, que é essa delícia de se desconectar e aproveitar as relações, seja amorosa, com filhos, amigos, família. Faz esse paralelo de uma maneira leve, mas ao mesmo tempo abrindo a mente para essas questões presenciais serem bem cuidadas, senão a gente corre o risco de só ficar na relação digital deixando de ter o privilégio de ter relações humanas vividas no mundo real.

A colaboração com Prateado, uma referência do samba, é notável. Como foi trabalhar com ele na criação de “Rede Essencial”?

Apesar de conhecer há anos o trabalho do Prateado, que é essa grande referência no universo do Samba, eu só comecei a conversar profundamente com ele durante a pandemia. Em uma das lives que eu fazia habitualmente durante o período de isolamento Prateado pediu para entrar na conversa e, a partir dali, começamos a trocar mensagens. Já surgiram três ou quatro músicas. Uma delas é a “Já é”, para o Pedro Mariano. E, agora, a “Rede Essencial’, que é primeira canção recém-lançada do álbum “Tekoá”. Sou muito grato por esse encontro digital.

“Rede Essencial” fala sobre estabelecer conexões amorosas presenciais e reais. Qual é a mensagem central que você deseja transmitir com essa música?

No “Selfie” eu decidi expor as minhas fotografias internas. No “Tekoá” são as expressões externas. “Rede Essencial” pretende enaltecer as relações pessoais. Exalta a tecnologia, o poder (ou a força) para que ela se se converta em relacionamentos reais. Assim, exalta o poder (ou a força) das relações humanas.

Conte-nos sobre a importância da participação da Ditto Music na distribuição da música. Como isso influencia o alcance e a acessibilidade da sua música?

A Ditto é uma distribuidora conceituada no mercado, que também trabalha com os nossos produtos da S de Samba. Uma parceria antiga e bem-sucedida que atende praticamente todos os nossos projetos.

Você mencionou que a música “Rede Essencial” é uma celebração da troca presencial de experiências. Como você equilibra essa ideia com a influência das redes sociais e da comunicação digital em sua música?

As trocas digitais vieram para ficar, ou seja, positivas e que alimentam relações, parcerias profissionais. Para esse disco, não só parceiros, mas também produtores, como é o caso Rodrigo Sha, Leandro Caldeira, Ananda Torres, Heloá Holanda, Matsuyama, Daniel Penido, Fábio Cadore…São muitos os produtores que eu só me conectei digitalmente, por enquanto. E é super válido a gente explorar essas relações, esse jeito de se comunicar, trabalhar. É o meu disco que mais valoriza essas conexões.

Como a música brasileira, especialmente o samba, desempenha um papel em “Rede Essencial” e no álbum “Tekoá”?

O samba tem importância enorme no meu trabalho como produtor, como músico. Sou filho de um grande intérprete da música brasileira, que cantava de tudo, mas tinha uma relação especial com o samba. Jair Rodrigues era um sambista nato e acabou passando essa paixão pelo samba tanto para mim como para minha irmã, Luciana Mello, e o samba está presente até quando eu não componho samba – quando componho baladas, música pop. O jeito como eu divido as frases, como eu divido a melodia, a letra… acaba sendo imperceptível, mas eu sinto essa influência o tempo inteiro – da música brasileira, da música preta brasileira, do samba. No “Tekoá” tem alguns sambas como a própria “Rede Essencial”, que é um samba pop, que eu compus com o Prateado, que é um grande expoente do samba. Nas 12 faixas, quatro ou cinco são sambas e as demais não são classificadas como samba, mas tem essa influência, quase imperceptível, mas tem.

Qual mensagem você espera que seu público leve consigo após ouvir “Rede Essencial” e explorar o álbum “Tekoá”?

Eu diria que é um grande movimento trabalhando para construir essa grande aldeia artística. E assim, eu gostaria que as pessoas tivessem essa experiência ao explorar cada uma das faixas desse álbum tão especial para mim. O “Tekoá” já é uma explosão de colaboração e espero que seja uma ferramenta que sirva para que todos pensem nessa comunhão não só na música, mas na experiência humana.

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