Ingrid Konrath desvenda mistério da paternidade na sociedade contemporânea em novo livro

Luca Moreira
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Ingrid Konrath (Amanda Konrath Gressler)

Levar o filho ao médico, escola ou se preocupar com o futuro da criança. O século XXI está aí para mostrar que a parentalidade não precisa, e nem deve, ser exercida apenas pela mãe. É justamente em torno da relação entre a figura paterna e os filhos que a psicóloga e mestre em Educação, Ingrid Konrath, põe o foco em “Paternidade – Um percurso para aprender e ensinar sobre o ser pai”.

O livro resulta de uma pesquisa de campo originada na dissertação de mestrado em Educação com ênfase em Psicanálise e Cultura. Neste estudo, para buscar entender melhor as complexidades da paternidade, a autora conversou com pais para saber o que sentem e têm a dizer sobre as experiências e responsabilidades de estar neste papel. A partir deste íntimo diálogo com homens de diversas idades e, principalmente, com filhos na primeira infância, Ingrid desvenda questões cruciais sobre convivência, dúvidas, e desafios que enfrentam.

Os oito capítulos da publicação são construídos a partir de fragmentos de consciência que os pais têm das vivências com os filhos. A autora percorre temas como a função simbólica da figura paterna, as responsabilidades, carência e ausência. Também entrelaça a pesquisa com dados mundiais e nacionais sobre comportamento familiar e faz análise das imposições sociais de progenitor.

A especialista identifica, por meio da psicanálise, que a relação paterna reside muito no silêncio masculino, na escassez de diálogo e na dificuldade de expressão neste campo. A principal observação é, no entanto, que o pai contemporâneo deseja mudar, ser uma figura mais sensível, afetiva e dispor de mais tempo para a criação e o lazer em família. Ele começa a traçar um caminho de rejeição do tradicional pai “durão”, frio e distante, uma provável referência da própria infância.

Como sua pesquisa de campo contribui para que os leitores compreendam as complexidades da paternidade?

Ao estudar o tema das relações pais-filhos, não podemos deixar de levar em conta que encontraremos um maior número de estudos que referem a relação da mãe com os filhos. Bem como sobre a importância do papel da mãe na relação com a criança. Ainda hoje, o lugar do pai no exercício da paternidade é pouco estudado e pouco pesquisado pelas Ciências Humanas.

Podemos dizer que o homem ocidental sofreu uma “amputação” no seu papel diante das prerrogativas atribuídas a mãe. A criança tem razão quando diz que: “o pai saiu de carro”. A pesquisa científica que eu realizei no mestrado e este livro não pretende desvalorizar a experiência da maternidade. Quero aproximar o pai da criança.

Quais são os temas que você explora nos oito capítulos do seu livro “Paternidade – Um percurso para aprender e ensinar sobre o ser pai “?

Escrever sobre o pai na atualidade é um grande desafio, diante da pluralidade que a cultura oferece. A pesquisa que realizei em 1996, foi revisitada e atualizada com o objetivo de responder e se manter viva no século XXI. Sustentando ainda as mesmas inquietações:

– O que os pais pensam sobre a paternidade?

– Como fica a função paterna nos dias de hoje?

– O que é ser pai, para o homem?

– Como é ser pai?

– Como ele está pensando as questões de autoridade?

– Como fica a relação pai-filho na atualidade?

Os capítulos do livro foram organizados a partir destes tópicos, anteriormente colocados. Recebem um tom, a partir do que foi suscitado pela fala dos pais. É um desencadeamento sucessivo. O tom, está impregnado por esta voz, que se mantém singular. A voz de cada sujeito, aqui pai, como um retrato que fala por si (p24). Ao longo de minha prática na clínica de Psicologia sigo orientando pais, mães e famílias. Este trabalho diário foi orientado por este estudo e o livro surge como resultado de ambos.

Ao utilizar a psicanálise, como você identifica a relevância do silêncio masculino na relação paterna?

O silêncio masculino “se encontra recheado de dúvidas e medos, pois, para estes homens, o modelo que têm para seguir é de sua mãe, de seu jeito de cuidar das crianças e da casa” (Konrath, 2022, p.110). O medo está presente e para estes homens, muitas vezes, vivê-lo de forma estereotipada torna-se menos perigoso. De modo geral, as pessoas temem encontrar-se perdidas. E com isso perdem o rumo de suas vidas e esquecem seus sonhos e desejos mais profundos, sua própria identidade.

O que seu livro revela sobre a mudança na representação do pai contemporâneo em relação ao estereótipo tradicional?

A mudança do pai contemporâneo é quando ele mesmo se percebe agindo de acordo com o modelo mais tradicional, acaba se denominando de “errado”. A cultura não entende mais, o comportamento de um pai distante e duro como sendo o correto. O pai na atualidade é marcado pela tolerância, a amizade e a compreensão. Precisa também ser mais ativo e participativo na educação e no dia a dia com a criança. Para conseguir se fazer valer diante da mãe e do filho e conseguir exercer sua autoridade.

De que maneira você conecta teorias psicanalíticas, estatísticas e experiências reais para trazer significado ao cotidiano das relações entre pais e filhos?

Hoje em dia o discurso psicanalítico está muito presente, e assume um lugar de autoridade na tarefa de orientar e ensinar sobre crianças e famílias. Tanto na área da saúde como na área da educação, o psicólogo e o médico assumem um papel relevante. A cultura já não se escandaliza mais com os termos e abordagens da psicanálise como ocorria nos tempos de Freud. Falar de ansiedade, conflitos, complexo de édipo, sobre sexualidade, psicologia infantil ou feminina já é bastante procurado e apreciado. O psicólogo e o psicanalista, agora possuem autoridade para abordar estas questões.

Ingrid Konrath

Poderia compartilhar uma metáfora ou abordagem que utiliza no livro, como a ideia de deixar o filho voar?

Deixar o filho voar é na verdade uma metáfora que uso no prefácio do livro Paternidade (2022), na página 14 para me referir às minhas inquietações ao retomar este tema, que foi o tema do mestrado realizado na Universidade federal do Rio Grande do Sul em 1996. A inquietação neste momento em que voltei a escrever sobre o tema era compartilhar o conhecimento e aprendizado, que havia me acompanhado na prática clínica por tantos anos. Agora precisava deixá-lo voar, conhecer outras vozes e outros lugares. Como um pai precisa deixar que seu filho siga em frente.

Segundo sua pesquisa, como o pai contemporâneo deseja se distanciar do estereótipo tradicional e ser mais sensível e afetivo?

Sim, percebi que é algo que emerge da fala dos pais entrevistados em minha pesquisa; a preocupação e o desejo de alcançarem uma aproximação com os filhos que não existiu em sua relação com seu pai.  “Buscando dispor de mais tempo livre para lazer, rejeitando uma cultura tradicional masculina, rompendo com o modelo de sua infância, em que seu pai era durão, mantendo-se em uma postura fria e distante, almejando com isso, reparar sua própria infância. (Konrath, 2022, p.110). Constato, no entanto, que é algo muito mais desejado do que alcançado e hoje em dia percebe-se que os homens se encontram divididos entre aquilo que herdaram de seus pais e o que gostariam de ser.

*Fonte de referências: Konrath, Ingrid. Paternidade: um percurso para aprender e ensinar sobre o ser pai. Porto Alegre: Secco Editora, 2022.

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