Gil Monteiro retrata jornada e desafios ao assumir homossexualidade no meio cristão

Luca Moreira
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Gil Monteiro

O cantor Gil Monteiro, reconhecido tanto por sua trajetória musical quanto por sua coragem em assumir publicamente sua sexualidade diante da igreja, está prestes a lançar seu livro “Será Que Ele É?”. Com mais de 2 milhões de reproduções em plataformas de áudio apenas em 2023, Gil compartilha suas angústias e batalhas para revelar sua orientação sexual. O lançamento está marcado para o dia 17 de fevereiro, sábado, às 16h, na Livraria da Vila, localizada na Alameda Lorena, em São Paulo. Com um título sugestivo, o livro oferece um vislumbre da vida e dos sentimentos de alguém que enfrentou a difícil jornada de sair do armário, com um prefácio escrito pelo ator Carmo Dalla Vecchia, amigo próximo de Gil. Em uma narrativa franca, o artista compartilha sua experiência na igreja católica, onde construiu uma carreira musical sólida, e discute a invisibilidade enfrentada por muitos LGBTQ+ em ambientes religiosos. O livro promete abrir diálogos importantes sobre aceitação, identidade e fé, em meio a um contexto ainda desafiador para a comunidade LGBTQ+ nos círculos conservadores.

Sua jornada, como compartilhada em ‘Será que ele é?’, é profundamente pessoal. O que o motivou a contar essa história agora?

Após tornar pública minha orientação sexual e meu casamento homoafetivo, recebi muitas mensagens de pessoas dizendo que tinha suas histórias muito parecidas comigo. Por meio das mensagens que eu trocava com essas pessoas e nas vezes que nos encontramos pessoalmente, havia sempre a pergunta por mais histórias, sobre como lidei com tal coisa, sobre família, sobre religião etc. Entendi que conversar, contar sua história abre horizontes na cabeça de quem está sem perspectivas. Sem querer, acabei me tornando referências para muitos LGBT+ que vivem esse dilema da diversidade sexual e a religião.

Como foi o processo de se assumir publicamente em um meio tão tradicional como o cenário cristão?

Os anos de terapia me ajudaram a ir saindo dos diversos armários onde eu me coloquei, e cenário cristão foi o último armário que faltava eu sair. Minha família e amigos próximos já sabiam do meu casamento. Mas o público que acompanhava o cantor Gil Monteiro não sabia. Manter minha vida privada, em especial meu casamento, dentro do armário estava fazendo muito mal para mim e para nossa relação. De forma muito programada eu compus novas músicas a respeito do tema e então tornei pública minha orientação sexual e casamento.

A sua experiência na igreja e na engenharia, ambas áreas comumente consideradas conservadoras, influenciaram de que maneira a sua jornada LGBTQIAP+?

Com medo e culpa. Na engenharia, eu morria de medo que alguém pudesse sequer desconfiar que eu fosse gay. Chegava até a ficar com algumas meninas quando saía com colegas do trabalho, para não dar motivo de desconfiança. Na igreja, a carga psíquica e emocional da culpa me acompanhou pela maior parte da minha vida. Isso deixava minha autoestima horrível, porque sempre me via como alguém indigno, com algo errado dentro de mim, condenado eternamente a ser quem eu era.

Você mencionou a invisibilidade que muitos LGBT+ enfrentam em ambientes religiosos. Como espera que seu livro ajude a mudar essa percepção?

A maioria das pessoas LGBT+ que vivem relacionamentos e continuam participando nas igrejas, acabam apresentando seus parceiros/parceiras como amigos ou simplesmente escondendo. A invisibilidade é um tipo de violência muito sutil, porque exige que se esconda aquilo que é natural do ser humano: suas relações. Isso tende a confirmar ainda mais os discursos de que as relações são erradas, que são um pecado grave etc. Espero que ao lerem como tratei o tema, percebam a violência à qual me submeti, e como ela deve ser enfrentada.

O lançamento de um novo álbum sobre a temática gay após a sua revelação gerou reações diversas. Pode compartilhar como lida com as opiniões, tanto positivas quanto negativas?

Aos haters eu não dou atenção. Se algum comentário é desagradável e mal-educado eu apago imediatamente. Simples e direto! As respostas positivas foram surpreendentes, e pesaram muito mais na balança em quantidade e impacto que geraram. Para esses, tento sempre respondem e interagir na medida do possível.

Gil Monteiro

No livro, você aborda a construção de diálogos e pontes entre diferentes perspectivas. Como enxerga o papel da sua história nesse processo?

A moral sexual dentro do cristianismo é retrógrada e ultrapassada. A Igreja Católica já reviu vários de seus conceitos e posicionamentos à luz da ciência, mas nada no que se refere a este tema. Eu não tenho a pretensão de gerar mudanças, isso não é comigo. Mas contar histórias que passam pela minha infância, adolescência e fase adulta e como a minha sexualidade se manifestava, talvez faça alguém tão apegado a essa moral antiquada parar para pensar, e ver que além da letra, da lei e do mandamento, existe um ser humano. Certamente esse olhar transformado vai também se estender a todo LGBT+ que cruzar a vida dessa pessoa, gerando diálogo e empatia.

O prefácio do seu livro é assinado pelo ator Carmo Dalla Vecchia, um amigo seu. Como foi a participação dele nesse projeto e qual você acha que é a mensagem que ele contribuiu?

Carmos e eu interagimos pela primeira vez pelo Instagram, quando ele gravava vídeos interpretando as histórias que os seguidores enviavam para ele. Que surpresa boa quando um dia ele gravou a minha história. Carmo leu meu livro e escreveu um prefácio maravilhoso, e a maior contribuição dele é a identificação, porque ele cita alguns fatos da vida dele que foram parecidos com histórias que conto no livro.

A sua música tem uma amplitude de estilos, do pop rock ao folk. Como essa diversidade musical reflete nas mensagens que você deseja transmitir ao seu público?

Geralmente gostamos mais de algumas música em específico porque nos identificamos com aquela história cantada. Ou porque aquela mensagem era algo que gostaríamos de dizer, mas não sabíamos como, então a canção faz isso pela gente. Ser mais diversos nos estilos musicais ajuda a alcançar mais gente, colocando mais histórias e mensagens em formas que mais pessoas se identifiquem e gostem.

O que você espera que as pessoas levem consigo após ler ‘Será que ele é?”?

Empatia! Gostaria que após ler o livro, uma pessoa heterossexual possa conversar com seus amigos LGBT+ e perguntar ‘você passou por algo assim? Você já sentiu dessa forma? como posso te ajudar?’. E que pessoas LGBT+, em especial as cristãs, após lerem o livro possam dizer para si mesmas ‘se ele conseguiu, eu consigo!’.

Em um contexto mais amplo, como acredita que as narrativas de figuras públicas LGBTQIAP+ podem contribuir para a construção de uma sociedade mais inclusiva?

A sociedade sempre tem seus representantes nos vários temas. O atleta, o profissional, beleza, saúde, família etc. Isso gera identificação, e de alguma forma, um “padrão”, um “ideal”. A sociedade saudável deveria ter padrões diversos, onde todos se sentem representados e com quem se identificar, mas infelizmente não é assim. Por isso a necessidade de mais figuras públicas do meio LGBT+, para que exista mais identificação, mais ideais, mais do sentimento de capacidade.

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