Aos 40 anos e com mais de 25 de carreira, o ator, diretor e idealizador Filipe Codeço estreia seu mais novo desafio no teatro com o espetáculo “Língua”, que explora a interseção entre libras e português. A peça, que estreia no dia 06 de junho no Sesc Copacabana, não se limita a uma tradução convencional, mas imerge verdadeiramente na fusão das duas línguas. Além de ser parte da criação, Filipe também vive o personagem Félix, um taxista ouvinte que precisa aprender a se comunicar com seu amigo surdo, Matias. Com uma trajetória marcante no teatro e no audiovisual, incluindo participações em “Vai Na Fé” (Globo) e “Essa História Dava Um Filme” (Multishow), Codeço reforça seu compromisso com a diversidade e inclusão no palco, destacando a importância da técnica e da arte como ferramenta de transformação.

Filipe, você tem mais de 25 anos de carreira no teatro e no audiovisual. Como você vê sua trajetória até agora e quais são os principais marcos dessa jornada?

São 26 anos de carreira. Eu colocaria como primeiro marco a peça “Capitães da Areia”, que foi o meu segundo ou terceiro trabalho, mas foi o primeiro trabalho em que eu tinha um personagem maior e foi muito forte a reação da plateia. É uma peça baseada na obra de Jorge Amado. Eu colocaria como segundo marco um espetáculo que eu mesmo escrevi, chamado “Mono Diálogos a Macoretas”, que escrevi com 19 anos. E aí, com 20 anos, montei esse espetáculo. Eu dirigia e atuava. É um espetáculo que fez parte de um movimento chamado Nova Dramaturgia Brasileira. Gosto muito do que eu estava refletindo ali naquele trabalho.

Também vou citar aqui já o espetáculo que eu fiz já a partir da experiência da enfermaria do riso, que é a palhaçaria, é uma vertente muito importante do meu trabalho. Eu tenho inclusive um grupo chamado Bando de Palhaços que é dedicado a essa linguagem. Eu fazia parte da enfermaria do Riso, que era um projeto de graduação e extensão em pesquisa, envolvendo as três instâncias acadêmicas. A gente atuava regularmente nos hospitais e fizemos o espetáculo chamado “Palhaços”, que era baseado no cotidiano do universo hospitalar e levamos esse espetáculo pra Tunísia, onde ganhamos um festival.

Com o espetáculo “Aquilo De Que Não Se Pode Falar”, o meu primeiro trabalho envolvendo libras em português, eu fui premiado no  APTR Nacional 2021 como melhor ator em papel protagonista. Foi um desafio imenso, realmente. Porque, para complexificar ainda mais, a gente levantou esse espetáculo durante a pandemia. Era muito difícil o processo de ensaios, através do Zoom. Mas, para mim, isso de ser um espetáculo em que eu contracenava com um ator surdo é uma contracena completamente distinta, porque são duas línguas, uma língua oralizada e uma língua visual. Enfim, são 26 anos de carreira, então é muito difícil conseguir sintetizar, porque são muitos, muitos, muitos trabalhos, tanto no teatro quanto no audiovisual.

Seu novo espetáculo “Língua” explora a interseção entre Libras e português. O que inspirou essa pesquisa e como foi o processo de criação desse projeto?

O projeto Língua foi idealizado por mim, em parceria com Vinícius Arneiro. Este é o nosso segundo trabalho envolvendo essa dimensão bilíngue, que hoje consideramos também bicultural, pois a vivência surda é uma experiência cultural distinta da nossa. O que nos inspirou a realizar esse segundo projeto foi uma provocação do próprio Vinícius Arneiro. Inicialmente, meu espetáculo Aquilo de Que Não Se Pode Falar seria um solo baseado no romance Vaca de Nariz Sutil, de Campos de Carvalho, um autor incrível. O livro é narrado por um personagem, um ex-soldado do exército afastado devido a um quadro de esquizofrenia, que viveu algumas guerras. Após ser afastado, ele passa a morar numa pensão bancada pelo Estado, dividindo o quarto com uma pessoa surda.

Em algum momento do processo, Vinícius me propôs uma ideia: “E se colocássemos esse personagem do Aristides também como protagonista? Se ele também adquirisse o poder de narrar?” Eu achei incrível. Nossa inspiração veio da necessidade de ir um pouco mais a fundo na relação de convivência cotidiana e artística entre subjetividades surdas e ouvintes, pois, de fato, é uma percepção distinta do mundo.

Filipe Codeço
Filipe Codeço

Você menciona que a comunicação com a comunidade surda é um desafio devido à barreira da língua. Como “Língua” busca romper essa barreira e promover uma maior inclusão?

Eu já comecei a responder um pouco da terceira pergunta na segunda, mas vamos aprofundar um pouco mais. Em relação à barreira da língua, é importante destacar que a língua de sinais, como forma de comunicação das pessoas surdas, foi banida em grande parte do mundo ao longo de cerca de 100 anos. Em 1880, houve um congresso em Milão com educadores de pessoas surdas, na maioria ouvintes, que deliberaram pela exclusão do ensino da língua de sinais. Eles acreditavam que isso criava uma comunidade apartada, dificultando o controle estatal.

Essa decisão resultou na imposição da oralização, forçando as pessoas surdas a aprenderem a leitura labial e a língua falada do país, como o português no Brasil, em vez da língua de sinais. Embora muitas pessoas surdas sejam capazes de emitir sons, elas não conseguem ouvir a própria voz, o que torna a comunicação muito difícil e exaustiva para elas. Isso coloca as pessoas surdas em uma posição de desvantagem na comunidade ouvinte, enquanto na cultura surda, elas se encontram em um ambiente mais acessível e familiar.

Essa resolução vigorou aproximadamente de 1880 até 1980, sendo a lei de Libras bastante recente, dos anos 2000. Esse período causou um grande trauma nas comunidades surdas e gerou um desconhecimento significativo sobre a língua de sinais. Nosso projeto busca romper essa barreira promovendo o convívio, pois a inclusão passa pelo entendimento e pela convivência, que ajudam a romper preconceitos e visões equivocadas.

Durante os processos de criação de “Aquilo de Que Não Se Pode Falar” e agora do “Língua”, tivemos uma nova dimensão do cotidiano das pessoas surdas. Por exemplo, quando convidei Marcelo William da Silva, ator surdo que interpretou Aristides, para ler o livro de Campos de Carvalho, percebemos que a leitura não seria simples para ele, embora o livro já fosse complexo para ouvintes. O primeiro mês de nosso processo foi dedicado a ler e debater o livro com Marcelo e nossos intérpretes e tradutores.

Nosso objetivo é promover o convívio entre surdos e ouvintes tanto no ambiente artístico quanto na plateia. A peça se desenvolve em Libras e português, proporcionando uma experiência única em que, em alguns momentos, as pessoas surdas recebem informações antes dos ouvintes. No entanto, ao final do espetáculo, todos terão uma percepção muito próxima do todo. Para nós, a promoção do convívio é a forma mais eficaz e relevante de romper barreiras e promover a inclusão, gerando afeto e compreensão mútua.

A peça é descrita como uma obra bilingue e bicultural, sem a presença de um intérprete simultâneo. Quais foram os maiores desafios e aprendizagens ao trabalhar nesse formato?

Então, na resposta 4 eu já toquei um pouco na resposta 3, mas vamos aprofundar. A presença de um intérprete em espetáculos falados em português, quando acessibilizados para pessoas surdas, geralmente coloca o intérprete fora da cena, em um ponto de luz, fora do campo de visão principal. Isso faz com que as pessoas surdas tenham que desviar o olhar da cena para o intérprete, diferente de assistir a um filme com legendas, onde a legenda está integrada à imagem. Embora assistir a um filme com legendas possa gerar algumas perdas, elas são muito menores comparadas às perdas de uma pessoa surda assistindo um espetáculo em português com um intérprete fora da cena.

Esse afastamento da cena resulta em uma experiência que se assemelha a uma contação de histórias, onde a pessoa surda tem que desviar o olhar para entender o que está acontecendo, gerando grandes perdas de contexto. A comunidade surda se ressente disso, embora reconheça a importância da acessibilidade. No entanto, consideramos que isso é um passo modesto e que requer outras ações. Hoje existem várias pesquisas para tornar a acessibilidade mais interessante, como o uso de intérpretes sombra, que ficam dentro da cena, atrás dos personagens.

Nosso objetivo é que o processo de acessibilidade também seja um esforço estético. Queremos que as traduções de uma língua para outra aconteçam dentro da cena e da dramaturgia. Isso é desafiador, pois envolve personagens com diferentes níveis de fluência em Libras e português. Por exemplo, meu personagem, que é ouvinte e não fala Libras, convive com Matias, um personagem surdo que fala basicamente Libras e lê um pouco de português, e com a mãe de Félix, Virgínia, que fala Libras e português, além de outros personagens bilíngues.

Em alguns momentos, a peça é totalmente em Libras, o que coloca o público ouvinte em uma posição similar à das pessoas surdas em seu cotidiano, ao tentar entender o que está acontecendo sem compreender a língua. Isso é uma afirmação importante para nós, pois reflete a experiência das pessoas surdas, que muitas vezes observam o mundo sem entender o que está sendo dito ao seu redor.

Um exemplo inspirador para nós é o filme “The Tribe” (A Tribo), que é inteiramente falado em língua de sinais ucraniana sem legendas. Mesmo sem entender a língua de sinais, o público consegue acompanhar a trama e entender as situações, esquecendo-se de que não compreende a língua. Esse filme também retrata as pessoas surdas de maneira não capacitista, mostrando-as como pessoas comuns, com falhas e virtudes, sem heroísmo forçado.

Filipe Codeço
Filipe Codeço

Fale um pouco sobre seu personagem Félix em “Língua”. Quais são os dilemas e as emoções que ele enfrenta ao tentar se comunicar em um ambiente onde ele não domina a língua?

Sobre o Félix, ele é um personagem ouvinte que não fala nada de Libras. Ele chega a uma casa onde todos se comunicam em Libras, e alguns falam português. Apesar de receber alguma acessibilidade, muitas vezes ele não entende nada do que está acontecendo. É um personagem muito rico e desafiador para mim, mas também é muito gratificante dar vida a essa figura.

É interessante porque o público ouvinte certamente vai se identificar muito com esse personagem. Em muitos momentos, o público vai experimentar algo similar ao que Félix vive na cena, não entendendo bem o que está sendo dito e precisando recorrer a alguém para entender o que está acontecendo. Nesse sentido, Félix vive, de forma muito leve, um pouco do que uma pessoa surda vivência em um mundo predominantemente ouvinte.

Félix está numa situação em que ele precisa constantemente recorrer às pessoas para acessar as informações e para se fazer entender. O espetáculo, assim, fala muito sobre comunicação, não apenas sobre a barreira linguística, mas sobre a própria comunicação em si. Muitas vezes, mesmo pessoas que falam a mesma língua têm dificuldade de se comunicar. O espetáculo aborda essas complexidades da comunicação.

No caso do Félix, ele é amigo do Matias, o protagonista que é um taxista surdo. Ambos trabalham na mesma cooperativa e têm uma amizade que, embora afetuosa, é superficial devido à barreira de comunicação. Isso é comum até mesmo em famílias onde pais ouvintes têm filhos surdos, mas não falam fluentemente a língua de sinais, gerando uma comunicação superficial.

A comunicação entre uma pessoa surda e uma ouvinte que não fala Libras frequentemente se limita a gestos, e é importante notar a diferença entre gestos e sinais. Um sinal é parte de uma língua, enquanto um gesto é apenas um esforço de comunicação. Todo esse processo tem sido muito lindo e enriquecedor.

Você ganhou o Prêmio APTR Nacional 2021 por “Aquilo De Que Não Se Pode Falar”. Como essa experiência anterior influenciou seu trabalho em “Língua”?

Eu já respondi bastante da pergunta 6 na resposta à pergunta 2, mas, pensando especificamente no meu trabalho, fiquei muito, muito honrado de receber o prêmio PTR por esse projeto. É, sem dúvida, o trabalho que mais me desafiou na carreira, principalmente por envolver ensaiar via Zoom e interagir com pessoas que falam uma língua de sinais e outra, uma língua oralizada. Os ritmos de cena são completamente distintos. Por exemplo, no teatro, o tempo cômico muitas vezes é baseado no ritmo – uma pergunta seguida de uma resposta rápida, com momentos que podem acelerar ou desacelerar, tudo isso define o humor. Entender esses tempos entre uma comunicação oral e uma visual é um processo longo.

O Marcelo, o ator não ouvinte que participou de Aquilo de Que Não Se Pode Falar, levou um tempo para entender que eu havia terminado de falar. Ele precisava ver que eu havia parado de mexer a boca para saber que ele podia começar a sinalizar. Se eu estivesse olhando para outro lugar, ele também não saberia que eu havia terminado. Esse processo é extremamente complexo, parece simples, mas é muito, muito complicado.

Esse trabalho foi talvez o maior desafio da minha carreira. Ser premiado por ele foi algo muito especial. Confesso que esperava que o Marcelo também fosse indicado, pois ambos somos protagonistas em Aquilo de Que Não Se Pode Falar. Foi lindo que, entre nós, decidimos que o primeiro prêmio que saísse, qualquer que fosse, seria recebido pelo Marcelo. Quando ganhamos, foi ele quem subiu ao palco primeiro, falou o que queria e depois eu fui receber o prêmio. Isso foi muito simbólico.

Infelizmente, a premiação não tinha acessibilidade, mas fizemos questão de garantir isso. O Jonathan Narciso, nosso tradutor-intérprete, também estava na plateia, fazendo a acessibilidade para o Marcelo. Essa experiência influenciou muito o Língua e toda a minha vida, porque agora tenho uma nova relação com a comunidade surda. Tenho cada vez mais interesse e desejo de entender como criar não só acessibilidade, mas também convívio e trocas reais. O Ricardo Boareto, nosso ator protagonista do Língua, que faz o Matias, é incrível e uma pessoa importante dentro da comunidade surda.

Filipe Codeço
Filipe Codeço

Além de atuar, você também é idealizador e diretor de projetos. Como você equilibra esses diferentes papéis e o que você mais gosta em cada um deles?

Durante um tempo, eu me definia como um artista transdisciplinar. Não tenho usado tanto esse termo ultimamente, pois parece ter se tornado um pouco pomposo e acadêmico. Mas, de fato, minha obra nunca se limitou a um só lugar. Nunca consegui me ver apenas como ator, embora seja, essencialmente, um ator. Sempre me considerei um artista, pois, desde os 14 anos, quando comecei a estudar teatro, já tinha uma forte ligação com a escrita.

Esqueci de mencionar na primeira resposta, mas o Monodiálogos Anacoretas é um texto escrito por mim. Meu avô era advogado e poeta, e meu tio Renato Codesso, uma figura muito importante na minha vida, era um devorador de livros e também escrevia muito bem, embora nunca tenha publicado nada. Sempre tive uma relação muito forte com a escrita, já escrevi peças, poesias, e fui premiado em festivais de poesia.

Sempre me vi como um artista porque sou muito inquieto e sempre busquei dar vazão às minhas inquietudes. Sou pragmático, mas não deixo de alimentar essas inquietudes. Sempre me construí como um artista multidisciplinar. Enquanto atuo, já tenho uma visão de diretor, e enquanto dirijo, trago um olhar de montador, considerando a montagem cinematográfica. Estudei profundamente a montagem cinematográfica e já trabalhei como assistente de edição. Muitas vezes, enquanto dirijo, penso como um montador, visualizando como a cena será editada.

Minha relação com a dança também é muito forte. Já tive um grupo de teatro-dança, e minha construção como ator é muito corporal. O corpo é minha via de acesso a emoções e ritmos. Tenho uma relação próxima com a música também, já compus, fiz shows com uma banda brega, e continuo desenvolvendo projetos onde atuo em diferentes frentes.

Não é simples. Houve momentos em que cheguei à exaustão. Durante um tempo, eu fazia shows com o Nivaldo Rosa, um alter ego meu de cantor brega. Eu compunha, pensava na estética, produzia, vendia os shows e pensava na sequência das músicas. Muitas vezes, chegava ao show exausto. Nesse período, também produzia Crônica de um Paraíso Fantástico, um espetáculo baseado na palhaçaria, com influências do expressionismo alemão dos anos 1920. Também dirigia o projeto Bandos de Palhaços, que atuava em hospitais públicos do Rio de Janeiro, em parceria com os Doutores da Alegria.

Cheguei a um ponto de exaustão, não conseguia mais dar conta de tudo. Parei de fazer o show do Nivaldo Rosa e suspendi Crônica de um Paraíso Fantástico. Foi quando decidi fazer mestrado na Unirio, dentro do programa de pós-graduação em teatro, com uma pesquisa voltada para o cinema, estudando filmes que transitam entre a ficção e o documentário. Durante esse período, também dirigi meu primeiro longa-metragem, Estamos Vivos, um projeto do Canal Brasil em parceria com a AK Vídeo. Esse filme é muito especial para mim.

Hoje, depois desse período de exaustão, consigo conciliar minhas atividades com mais tranquilidade. Aos 40 anos, tenho mais maturidade para selecionar melhor os projetos, evitando fazer tudo ao mesmo tempo. Ainda realizo várias coisas, mas com menos intensidade do que antes.

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