Du Prazeres une literatura e ancestralidade em Quilombo: contos e receitas

Luca Moreira
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Du Prazeres
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Em “Quilombo: contos e receitas”, o escritor Du Prazeres transforma memórias de infância e saberes ancestrais em uma obra que conecta literatura, gastronomia e identidade. Inspirado pelas histórias e sabores vividos ao lado da avó em um quilombo no Rio de Janeiro, o autor apresenta narrativas que resgatam tradições, celebram trajetórias e refletem sobre a experiência do povo preto no Brasil. Em entrevista, Du fala sobre o processo de transformar afeto, história e resistência em um livro que ultrapassa o papel e se estende à mesa.

“Quilombo: contos e receitas” nasce de memórias muito íntimas, ligadas à sua avó Nair, à cozinha e às histórias da família. Em que momento você percebeu que esses sabores e lembranças também eram matéria literária?

Eu sempre cozinhei e acho fascinante obras que trabalham de alguma forma com a temática da comida, como os romances policiais do italiano Andrea Camilleri e do espanhol Manuel Vázquez Montalbán, os livros do nosso Jorge Amado e do escritor açoriano Joel Neto. Entendi, assim, que as receitas da minha família poderiam ser transpostas para a literatura. De certa forma, cozinhar era a maneira de minha mãe e minha avó narrarem suas histórias, o que fiz foi adequar os contos a esta produção “literária” delas, publicando-os no formato texto.

O livro une duas dimensões muito poderosas: a palavra e o alimento. O que a gastronomia te permite contar sobre ancestralidade que, talvez, a narrativa sozinha não alcançasse?

Gastronomia e literatura são duas instâncias de poder muito presentes em minha vida. Talvez o alimento alcance um tipo de ligação com o corpo de forma mais direta do que a narrativa escrita. No livro, um dos contos fala sobre o caldo de mulato velho (espécie de bagre salgado) que, em nossa tradição, dá força e auxilia na recuperação de doentes. É uma verdade ancestral comprovada porque o peixe tem ação anti-inflamatória, é rico em ômega-3, selênio, zinco e fonte de vitamina B12. Literatura também cura e fortalece seguindo outros caminhos, menos diretos. Mas ela, eventualmente, nos alcança, se estivermos disponíveis a isto.

Há algo muito bonito na ideia de que cozinhar também é uma forma de transmitir memória, afeto e identidade. O que sua avó te ensinou, mesmo sem necessariamente transformar isso em explicação?

Minha avó me ensinou sobre ética, respeito, presença. Mesmo em silêncio, havia lição no modo como escolhia os grãos, no tempo que entregava ao fogo baixo, como quem escuta as necessidades do alimento para suprir as nossas necessidades. Com ela aprendi a paciência que não se apressa, a atenção aos ciclos e, sobretudo, a generosidade que se oferece sem alarde. Cozinhar, para ela, era mais que preparo: era um pacto de cuidado, um gesto de entrega ao outro. Minha avó materializava naquele fogão os mesmos conceitos de respeito ao Outro que o filósofo franco-lituano Emannuel Lévinas apresenta em seus livros sobre Ética da Alteridade. O saber dela não veio em palavras nem em teorias; veio no corpo, no olhar atento, no prato feito e repleto de afeto entregue a quem estava com fome, fosse conhecido dela ou não.

Você parte de um quilombo que hoje já não existe fisicamente, mas continua vivo na lembrança, na cultura e na escrita. Como foi transformar essa ausência em presença dentro do livro?

O Quilombo de Santo Antônio de Jacutinga sofreu um apagamento urbano, por assim dizer, mas não histórico. As tradições e os ensinamentos perduram, assumindo outro tipo de territorialidade. O livro deixa claro que o coração do quilombo ainda pulsa, transfigurado em memória, identidade, esperança. As receitas e os contos estão enraigados nas vozes ancestrais, as quais felizmente, por enquanto, não “conseguem/querem” se ausentar de nosso cotidiano, pois permanecem vivas e inabaláveis. Pertencer a um quilombo é natural como o ciclo dos alimentos e é infinito por ser um estado de espírito.

Ao trazer contos acompanhados de receitas tradicionais, você parece convidar o leitor não apenas a ler, mas também a sentir, imaginar e até saborear essa herança. Como nasceu essa proposta de unir literatura e culinária de forma tão orgânica?

No âmbito deste projeto, palavra e alimento são indissociáveis. Da mesma forma, as imagens de Bruno de Andrade e a apresentação da chef quilombola Leoídia Carvalho também compõem este menu. Quero que o leitor leia o livro como se estivesse sentado à mesa comigo, degustando histórias, comida, afeto e pensando junto. Ora um cozinhando e falando sobre o livro ou sobre o que ele evoca, ora o outro fazendo o mesmo, em comunhão. Este encontro entre o verbo e o tempero, entre leitores, glutões e cozinheiros me parece natural e uma forma de apontar para horizontes outros de luta, buscando mais solidariedade e empatia, para que a sociedade chegue à equidade social.

Sua obra também amplia o olhar para as tradições quilombolas e para a trajetória do povo preto, abordando lideranças, fome, resistência e coletividade. O que mais te mobilizava ao escrever a partir dessa dimensão histórica e política?

Uma das minhas motivações era mostrar que a resistência negra não existe apenas na dor, na melancolia. Há resistência na criação, no desenvolvimento de um pensamento antirracista, nos encontros, nas festas, no dengo, na fraternidade e no amor. Cada conto e cada prato foram pensados como ferramentas de valorização da cultura negra e de ampliação do debate sobre as condições socioeconômicas a que o povo preto foi historicamente relegado. Como dito anteriormente, é um livro voltado à integração das pessoas em uma comunidade antirracista e mais justa.

Os griôs aparecem como figuras centrais nessa transmissão de saberes. Você sente que “Quilombo: contos e receitas” também é, de certa forma, um gesto de continuidade dessa corrente ancestral para as novas gerações?

Não sou um griô, não há curso de pós-doutorado que consiga competir com o conhecimento ancestral e a sabedoria dos antigos. Mas penso que meu livro se coaduna aos ideais por eles defendidos porque sempre os ouvi e respeitei. Os ensinamentos dos antigos, invariavelmente, eram passados por meio da oralidade. Ao me por entregue a ouvi-los, consegui transpor um pouco dessa sapiência, dessas histórias, para o texto escrito. Os tempos são outros e a disseminação de informações é multimodal, assim sendo, o livro busca, sim, apresentar ou reforçar os saberes antigos para as novas gerações.

Saber que o livro foi selecionado para o Kit Literário 2026 e chegará a estudantes da rede municipal dá a ele uma dimensão ainda mais simbólica. O que você espera despertar nesses jovens leitores ao colocá-los em contato com essa memória afro-brasileira tão afetuosa e potente?

Queria que esses leitores e cidadãos em formação se reconhecessem nas histórias. Queria que se voltassem para os seus mais velhos, em casa, e os lessem com disponibilidade e respeito. As histórias dos avós, dos pais, dos padrinhos, memórias que não podem ser silenciadas porque vivas. Que entendessem que literatura é para todos, que percebessem maneiras de romper com qualquer tentativa de torná-los subalternos, minorizados.  Que escrevessem suas próprias narrativas e vidas e trocassem estes conhecimentos entre si. Queria muita coisa, mas se não for para tentar tornar isto tudo real, não há motivo para publicação de meu livro.

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