Após conquistar o público na TV, o ator Pedro Goifman vive um momento de transformação ao estrear no cinema com Eclipse, longa de Djin Sganzerla que chega às salas no dia 7 de maio. No filme, ele interpreta um personagem marcado por comportamentos perturbadores e distante de qualquer busca por empatia, revelando novas camadas de sua atuação. Em entrevista, Goifman fala sobre o desafio de mergulhar em figuras complexas, o papel da arte como provocação e os caminhos de uma carreira cada vez mais voltada a narrativas intensas e autorais.
Depois de conquistar o público com um personagem tão querido em Garota do Momento, você chega ao cinema com Felipe, em Eclipse, alguém muito mais incômodo e difícil de amar. O que te atraiu nesse mergulho tão brusco para um lugar tão desconfortável?
A possibilidade de interpretar personagens diferentes me agrada muito. Cada personagem é um mergulho e o Felipe foi essa viagem ao horror, mas que não é caricatura, e sim muito palpável.
Você disse que Felipe é um “abismo do horror”, mas ao mesmo tempo algo muito palpável. O que mais te interessava investigar nesse personagem: a violência em si ou as estruturas que produzem esse tipo de comportamento?
As estruturas. O Felipe carrega a violência como herança. Ele é fruto da sociedade patriarcal e especificamente de uma cultura familiar que atravessa gerações. Investigar as estruturas é fundamental. Retratar a violência só pela violência não me parece ter muito sentido.
Eclipse parece ser um filme que não quer anestesiar o público, mas provocar reação, incômodo e até vontade de mudança. Como foi, para você, participar de uma obra que assume tão claramente essa potência política da arte?
A arte é política. Se um filme diz não ser político, essa já é uma posição política. E tenho buscado fazer trabalhos que provoquem o espectador a agir, e não só reagir. Filmes que trazem mais perguntas do que respostas, e, assim, produzem movimento.

Sua fala sobre querer desnaturalizar o que está naturalizado é muito forte. Hoje, que tipo de tensão você sente necessidade de provocar através dos personagens e projetos que escolhe?
Simplesmente aceitar a realidade é um problema grave. Muitos mecanismos de opressão estão tão naturalizados, que passamos a não enxerga-los. Desnaturaliza-los aponta para o processo de revelação dessas estruturas invisíveis.
Em A Professora de Francês, você entra em outro universo denso, com uma produção atravessada por várias culturas e idiomas. O que um set tão plural despertou em você como ator e também como artista em formação constante?
Estar com artistas criadores de diferentes culturas é muito engrandecedor. A admiração move para o crescimento. Sou muito grato por ter feito esse filme e tenho certeza que essas pluralidade e complexidade cultural vão aparecer na tela.
Mesmo com a abertura para projetos internacionais, você fala muito mais sobre encontros criativos do que sobre carreira como status. O que realmente faz seus olhos brilharem em um trabalho: o personagem, a equipe, o processo ou a possibilidade de deslocamento humano e artístico?
Tudo isso faz meu olho brilhar, não faz sentido hierarquizar. E nem pensar na carreira de ator como “status”. Sou um trabalhador e um criador. Não tem glamour nisso, muitas vezes inclusive é muito angustiante e difícil. Sinto que ser ator é, de alguma forma, uma condenação. É o que sou.

Além de atuar, você também está escrevendo, dirigindo e participando da criação de projetos. Em que momento nasceu essa necessidade de não apenas interpretar histórias, mas também criá-las?
Eu sou ator, e como ator, sou criador. Quando escrevo, dirijo ou ocupo qualquer outra função no set, sigo sendo um ator, mas que está ocupando outro espaço. Dirigir e escrever foram processos naturais. Sempre escrevi e gravar as minhas criações é muito prazeroso.
Você diz que o teatro ainda é um lugar onde se sente “vivo e inteiro”. Em meio a tantos caminhos no audiovisual, o que o palco continua te devolvendo de mais essencial sobre você e sobre a arte?
Apesar do meu casamento ser com o cinema, o palco tem algo único. A magia do imprevisível, da troca imediata com o público, é insubstituível. E a efemeridade. O que foi feito ali, nunca mais poderá ser revisto. Não existe registro que dê conta do que é a experiência teatral.

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