Quem nunca teve aquele personagem que marcou a sua infância ou aqueles seus filmes favoritos que estão em suas listas? Aquele personagem que acaba por carregar o filme nas costas de tão cativante que é, aquele blockbuster que todo mundo gosta. Muitas dessas marcas realmente são fruto das personalidades de cada um combina combinada as boas narrativas que estão inseridos. Dentre os elementos que foram essa personalidade, temos a principal – as vozes. Através desses sons, é possível transmitir desde sentimentos, passar mensagens, entre várias questões que tornam aquela produção tão amada.
O que muitos que assistem, e que apesar de estarem ganhando cada vez mais reconhecimento pelos seus trabalhos, são os profissionais que estão por trás dessas vozes que tanto amamos! Um desses profissionais é a Fernanda Baronne, que desde meados de 1987, tem marcado gerações com suas produções.
Filha de Marlene Costa e irmã de Flávia Sady, ambas também dubladoras, sua voz está presente em personagens como Michelle Baldwin (“CSI: Miami”), Mary DAnnunzio (franquia “X-Men”), Tiffany Wilson (“As Branquelas”), Trudy Bolt (“Titanic”), além de cobrir personagens de grandes atrizes como Scarlett Johansson, Rachel McAdams, Jennifer Garner, Eva Green, Anna Paquin, Maggie Gyllebgaal, Marilyn Monroe, Charlize Theron, além de Malia Tate, na série de sucesso “Teen Wolf”.
No mundo das animações, o currículo de Fernanda também surpreende, sendo que em sua lista de personagens, já constam Angel (“A Dama e o Vagabundo 2”), Cinderela (em ambas as continuações), Peach (“Procurando Nemo”), Vanessa Bloome (“Bee Movie: A História de uma Abelha”), Mavis (“Hotel Transilvânia”), e um de seus maiores destaques, a personagem Velma em várias produções da franquia “Scooby-Doo”. Confira a entrevista!
Fernanda, você hoje é considerada uma das grandes dubladoras que temos no mercado e já realizou tantas dublagens de produções infanto-juvenil como adultas. Gostaria de começar perguntando com qual perfil de personagem acha mais difícil de trabalhar e qual trabalho considera ter sido o mais desafiador até hoje?
Acho que os personagens mais densos e que falam pouco são os mais difíceis. Afinal, nós atores em dublagem só temos a voz mesmo pra expressar tudo pelo qual o personagem está passando. Conseguir ter a profundidade necessária para determinados momentos, nem sempre é uma coisa evidente. Ainda mais se pensarmos que na maioria das vezes os atores tem meses, as vezes até anos, de preparação para determinados papéis. Considerando tudo isso, o trabalho mais desafiador que fiz até hoje foi o filme Hillary and Jackie, que conta a história da violoncelista Jacqueline Dupré, que foi acometida bem cedo de esclerose múltipla. O trabalho da Emily Watson nesse filme é primoroso, e dublá-la foi um grande desafio.
Durante sua carreira, você ficou conhecida por ser a voz de diversas atrizes aqui no Brasil, tais como Scarlett Johansson, Anna Paquin, Jennifer Garner, Emily Blunt e Eva Green. Nesses casos, principalmente quando se trata de filmes, se torna mais difícil adotar um padrão de voz tendo em vista que dubla a mesma atriz em diferentes produções? Como precisa ser a sincronia entre a atuação do ator e o estilo de voz?
O padrão de voz, na verdade, vai depender da atuação de cada atriz em cada trabalho. Não vejo isso como uma dificuldade, mas como uma das coisas mais interessantes da profissão. A gente acompanha determinadas atrizes por muitos anos, as vezes, durante a carreira inteira delas, e é curioso porque a gente começa a conhecer o método de atuação de cada uma, o que cria uma maior “intimidade” com o trabalho e uma naturalidade maior na minha opinião. Uma harmonia entre a atuação do ator e o estilo de voz é mais do que necessária para se ter um bom resultado; eu diria que é primordial. Por isso, é muito importante que o dublador esteja completamente entregue e com todos os seus sentidos prontos para apreender aquela atuação. A gente dá a “nossa cara”? Claro, pois é uma versão é a visão que nós temos daquele trabalho, mas é muito importante ser humilde e se lembrar sempre de que aquela versão está a serviço de um trabalho que já foi realizado e deve ser respeitado é representado.
Além de você, a sua família também carrega uma grande tradição pela dublagem, tanto é que suas irmãs Marlene Costa e Flávia Saddy também estão seguindo carreira. Como acontece o apoio na família e como e compartilhar essa arte com elas?
Sim (risos), somos uma família de dubladoras e eu acho isso lindo! Nossa mãe, Marlene Costa, sempre foi nosso grande exemplo e uma incentivadora quando percebeu que realmente queríamos seguir carreira. Ela é uma ótima diretora de dublagem, bem exigente, e te garanto que com as filhas é mais ainda! Isso nos fez e nos faz querermos nos dedicar sempre ao máximo a cada papel que fazemos. E, é claro, a dublagem acaba sendo um assunto recorrente nos encontros de família, não tem jeito.

Principalmente nos dias atuais, onde, já se tornou comum vermos a presença de star talents, observamos a campanha de se valorizar a boa dublagem. Qual é a sua opinião em relação a valorização do trabalho dos dubladores no Brasil?
Eu, particularmente, não vejo com tão maus olhos a presença dos star talents. Isso é uma coisa que começou há muitos anos e é perfeitamente compreensível em termos de marketing para as distribuidoras. O problema começa quando o star talent escolhido não consegue um bom resultado no trabalho e aí, na minha opinião, alguns produtos são realmente estragados. Havendo consciência na escolha e escolhendo um ator que tenha capacidade de corresponder às necessidades do papel, dá muito certo. Agora, é claro que, como dubladora, eu sou super a favor da valorização do trabalho desses profissionais. E, como diretora de dublagem, eu sempre procuro escalar as produções pensando na qualidade final do trabalho.
Em relação as suas passagens acadêmicas, você possui formação teatral na Escola de Teatro Martins Pena, Tablado e na Casa de Cultura Laura Alvim. Gostaria de perguntar um pouco mais sobre como aconteceram os seus primeiros contatos com o teatro e o que a levou a apostar na dublagem?
Na verdade, foi ao contrário! Eu comecei a dublar quando tinha 10 anos. Teatro sempre foi uma paixão desde pequena, e se tinha uma coisa da qual eu tinha certeza, era de que eu queria seguir a carreira de atriz. Assim, as coisas aconteceram naturalmente, e uma formação foi sucedendo a outra. Sendo que meu primeiro contato com teatro foi na Casa de Cultura Laura Alvim, com Suzana Kruger e Daniel Herz.
Durante um período, você chegou a integrar o elenco da premiada Companhia Preto no Branco, que era dedicada ao público infanto-juvenil. Como era trabalhar com esse público e principalmente, sente falta de estar nos palcos?
Era maravilhoso trabalhar com crianças! É o público mais entregue e sincero que existe! Sinto falta sim de estar nos palcos, mas a vida na dublagem é super corrida e a gente acaba ficando com a agenda muito comprometida o que, muitas vezes, impossibilita você de participar de um processo de montagem, por exemplo. Mas com certeza, um dia voltarei aos palcos.
No seu currículo consta que o primeiro trabalho que dublou foi a novela “Carrossel” de 1991, exibida pelo SBT, onde deu voz à personagem Valéria. Tem recordações da primeira vez que entrou em um estúdio de dublagem?
Meu primeiro trabalho foi uma fala em um filme do Burt Reynolds, do qual obviamente não me lembro o nome (risos), em que eu dizia “Boa noite, papai”. Me lembro perfeitamente desse dia, na Herbert Richers, no estúdio C. Foi uma emoção muito grande. Já a Valéria, de “Carrossel”, foi meu primeiro grande papel.

Apesar de possuir muitas produções mais recentes, você foi responsável por dar voz a uma das personagens mais destacadas dos estúdios Disney, que foi a Cinderela nas duas continuações do clássico que foram lançadas diretamente para home video. Como foi a experiência de emprestar a voz para uma personagem que ficou tão marcada desde sua primeira aparição em 1951?
Nossa, como diria a própria Cinderella, foi como um sonho que se realizou! A Cinderella era a minha princesa favorita quando eu era pequena. Quando fiz o teste, torci muito para ganhar; estava concorrendo com outras atrizes maravilhosas. Quando recebi a notícia de que ganhei, foi sem dúvida um dos dias mais felizes da minha vida. A minha Cinderella faz uma homenagem à Cinderella que eu ouvi a minha infância toda na voz da grande Simone de Moraes. Ela foi, sem dúvida, a minha referência para a personagem.
Outro filme de animação que também acabou ficando conhecido pelo público foi a trilogia de “O Hotel Transilvânia”, onde fez o papel de Mavis e dublou ao lado de Alexandre Moreno. Como foi a troca de vocês durante esse filme?
Infelizmente, desde os anos 2000, ninguém mais dubla junto. Isso se deve a uma questão técnica: para uma maior qualidade de som, é necessário que cada dublador grave a sua parte separadamente. Mas podemos ouvir o que já está gravado e eu ouvi o Moreno sim, para poder criar essa cumplicidade de pai e filha. É uma trilogia que eu adoro e uma personagem que me trouxe muitas alegrias. 🙂
No ano de 2006, você ganhou o Prêmio Yamato pela dublagem da personagem Kim no desenho Kim Possible, da Disney, além de, em 2011, vencer na categoria de melhor dubladora coadjuvante pela dublagem de Irene no filme Sherlock Holmes. Qual foi significado que essas duas personagens trouxerem na sua caminhada?
Kim Possible é uma das minhas personagens favoritas: dublei ela por muitos anos e sempre me identifiquei muito, até fisicamente. É uma personagem que encanta crianças de diferentes idades, sou apaixonada por ela. A Irene do Sherlock Holmes foi um trabalho muito gratificante. Eu gosto muito de dublar a atriz Rachel McAdams , embora eu não seja a única que a duble. Há várias colegas talentosas no Rio e em São Paulo que também emprestam a voz pra ela. A Irene é uma personagem cativante, principalmente por não ser uma mocinha clássica. Amei fazer esse filme.
O que muitas pessoas podem não saber, é que além de seguir pela dublagem, você também se graduou em jornalismo na faculdade. O que a levou a decidir formação por essa área da comunicação social?
Na verdade, eu não cheguei a me graduar no Brasil. Eu cursei boa parte da faculdade, a ECO, na UFRJ, mas abandonei antes da conclusão para me dedicar aos estudos de teatro na Martins Pena. Eu sempre me interessei por comunicação e sempre amei escrever. Aliás, em 2015, fiz uma graduação de literatura francesa na Sorbonne e em 2019, um mestrado em comunicado social lá também.
Eu acho que somos múltiplos demais para sermos apenas “uma coisa”. Acho que os talentos são variados e devem ser explorados. Eu não trabalho com literatura nem com comunicação social, mas, sem dúvida, essa vivência me enriquece e me ajuda em várias outras áreas, inclusive na dublagem.
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