David Maykell: Uma Viagem Pessoal – Entre Maceió e Santiago de Compostela

Luca Moreira
12 Min Read
David Maykell

Peregrinar: enfrentar os desafios de extensas trilhas, em um encontro com a natureza, consigo mesmo e com a espiritualidade, é o que muitos aventureiros buscam ao percorrer os Caminhos da Fé, no Brasil, e os conhecidos Caminhos de Santiago, rumo à cidade espanhola de Santiago de Compostela. São reflexões sobre a vida e relatos dessas jornadas que dão vida ao quarto livro do alagoano David Maykell. Em “Enquanto for peixe, eu não rio – Reflexões entremeadas pelos Caminhos da Fé e de Santiago de Compostela“, o autor compartilha com o leitor pensamentos, reflexões, angústias, decisões e mudanças. Observando as redes sociais, David percebeu o potencial de compartilhar histórias e devaneios, deixando de lado as barreiras e revelando mais sobre si mesmo para quem quisesse se conectar e partilhar sobre a vida.

A decisão de percorrer os Caminhos veio acompanhada de reflexões sobre a existência. Após um divórcio e a venda do apartamento, todos os seus pertences passaram a caber em uma pequena mochila. Assim, sem planejamento e com um estilo de vida sedentário, ele partiu em direção ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida. Após retornar, encontrou-se sozinho em um hotel em Maceió e, estando de licença no trabalho, adquiriu uma passagem para Portugal no mesmo dia e iniciou uma nova jornada. David percorreu mais de 1.500 quilômetros em busca de autoconhecimento, costurando palavras com suas vivências diárias, reflexões e experiências.

A vida presenteia cada um de nós com momentos de alegria e dor, experiências memoráveis e sentimentos singulares. Em “Enquanto for peixe, eu não rio”, o autor transforma o livro em um espaço de reflexões variadas, ilustradas por fotografias do cotidiano, autorretratos, dos locais por onde passou e da natureza. É um registro da construção de um novo David, oferecendo ao leitor pensamentos sobre a experiência humana.

Nascido em Arapiraca, Alagoas, David Maykell atualmente reside em Maceió. Servidor público federal, é Analista Ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Formado em Ciências Biológicas e pós-graduado em Recuperação de Áreas Degradadas, descobriu nas palavras uma maneira de expressar suas reflexões sobre a vida e, nas redes sociais, um canal para se mostrar genuinamente, sem máscaras ou reservas. Em busca de liberdade e autoconhecimento, percorreu os Caminhos da Fé e de Santiago, condensando suas experiências no livro “Enquanto for peixe, eu não rio”. Além desta obra, também publicou os livros “Planeta Intocável”, “Para Sempre Filho” e “Suicida em Série”.

Seu livro, “Enquanto for peixe, eu não rio”, explora suas reflexões durante as peregrinações pelos Caminhos da Fé e de Santiago de Compostela. Como essas experiências moldaram suas reflexões e mudaram sua perspectiva de vida?

Enfrentar uma longa caminhada exige, talvez, um pouco mais de coragem. Para mim, nas condições pessoais adversas que me encontrava, afirmo que requer uma certa dose de desespero. Foram em torno de setenta dias caminhando, permitindo-me ter muito tempo sozinho e sem as distrações que existem em casa e nas cidades. Naquelas circunstâncias eram natureza, o universo bucólico de fazendas e pequenos povoados e um enorme EU para lidar. Dessa forma, as experiências, das mais simples até as mais profundas, entravam em choque com meus conceitos preexistentes e, assim, muito do que pensei e parte do que escrevi foi de forma intensiva moldando minhas reflexões e mudando minha vida.

Ao mencionar o processo de compartilhar reflexões online, como você percebeu a evolução dessas ideias ao serem debatidas e interagidas pelo público nas redes sociais?

Ao compartilhar experiências diárias, fossem elas boas ou ruins, percebi um movimento positivo no sentido de estimular a persistência na jornada e, de uma maneira mais acentuada, no despojamento da minha escrita. Sim, à medida que passava para as redes sociais os acontecimentos e as minhas verdades da forma mais fidedigna, havia uma resposta pública ou privada, que externava uma inesperada identificação com casos e reações similares que seguidores distantes relatam e admitiram passar. Naturalmente fui ampliando meu olhar para detalhes físicos dos caminhos, pensamentos e conversas esporádicas com as pessoas com quem tinha algum tipo de interação, considerando sob a perspectiva de ir para as redes sociais, pois ainda não havia a intenção de publicação de um livro.

A decisão de embarcar nas peregrinações veio após um período de mudanças significativas em sua vida, como a separação e a venda de bens. Como essa mudança de estilo de vida impactou sua jornada pessoal e suas reflexões?

Após vinte anos de trabalho e vinte e três anos de relacionamento, olhei para trás e não gostei do que havia ficado de rastro. Veio uma separação amigável. Já estava de licença médica do trabalho e decidi voltar o olhar para mim. Dizem ser – e devo alertar que foi para mim – uma das maiores dores que conheci. Como em tudo, o começo é mais difícil, e a cada passo mais confusas minhas reflexões se mostravam. Chegava na pousada e tinha de segurar o ímpeto até que as ideias estivessem menos incompreensíveis. Com o passar do tempo e dos quilômetros, a confusão foi diminuindo, e as ideias se assentavam com muita facilidade, até no banco de praça ou sentado no meio fio. Então, por um período, tudo pareceu mais leve.

Você menciona que o livro é um registro da construção de um “novo David”. Como essas peregrinações contribuíram para sua jornada pessoal e o que mais o marcou nessa busca por si mesmo?

Está fazendo um ano que o caminhar era minha vida e, naquela ocasião, já havia mudado muito meu ser. Era impossível não valorizar cada pequena coisa, apreciar a natureza com outro olhar e, principalmente, a confiança no ser humano. Saí de Alagoas sem acreditar na verdadeira bondade e na generosidade genuína até começar a trilhar o Caminho da Fé e me deparar com elas em grande escala e com muita frequência, o que me marcou profundamente. Do Caminho de Santiago, não percebi a boa receptividade, porém conheci o auge da solidão, pois estava sem conversas nem com garçons, nem com recepcionistas das pousadas. Retornei carente de gente e muito mais aberto até que o dinamismo da vida chacoalha novamente e eu já não sou mais quem chegara da jornada.

Ao compartilhar reflexões variadas ilustradas por fotos de cenas cotidianas e da natureza, como você equilibrou a expressão desses pensamentos com a representação visual no livro?

Comecei a correlacionar imagens/fotografias com textos da mais alta amplitude de profundidades e verdades que eu poderia alcançar antes dos caminhos. Lá, nos caminhos, dei continuidade ao meu modo de fazer. Tudo de uma forma inteiramente intuitiva. Vejo uma teia de aranha e faço a foto por ter achado interessante e não para se tornar texto. Quando menos espero, um texto está pronto em poucos minutos e a imagem pode se enquadrar ou não ao contexto narrado. Não é uma preocupação minha.

David Maykell

As experiências vividas nas peregrinações influenciaram diretamente a forma como você vê a vida e os relacionamentos pessoais? Se sim, de que forma?

Um senhor para um carro e te pede para rezar por ele; um farmacêutico e uma massagista se oferecem para tratar de você sem cobrar nada em troca. Impossível passar por experiências e não ser influenciado profundamente por elas. Infelizmente estas lembranças estão mais vívidas nos pensamentos do que nas atitudes propriamente ditas. Posso dizer que ganhei outro olhar sobre o sofrimento humano, contudo foi uma forma de enxergar o mundo que ficou mais restrita ao universo da peregrinação.

O livro destaca a busca pela compreensão da experiência humana. Quais são os principais temas ou conceitos que você espera que os leitores absorvam ao ler “Enquanto for peixe, eu não rio”?

Interessante como a busca da compreensão da experiência humana segue, ao meu sentir, as orientações das mais variadas religiões e/ou o envolvimento com a espiritualidade, o que, por sua vez, caminha para a exaltação da perfeição e da santidade. Eu – no caminho e no livro – cheguei ao entendimento oposto, o da humanização no melhor sentido da palavra. Não dá para abordar tema como dos conflitos ambientais pelo viés religioso ou sob a ótica daqueles que defendem que não se deve tocar nos recursos naturais, mas os quer em sua casa. Outro assunto delicado é a exposição e hipocrisia nas redes sociais, nestes, sempre que pude me posicionei e dei exemplos da minha vida pessoal e de relacionamentos, contando também fatos ruins.

Você mencionou que a vida presenteia com momentos de alegrias, sofrimentos e experiências únicas. Qual foi o principal aprendizado que você destaca dessas experiências registradas no livro?

Numa jornada com oitocentos e tantos quilômetros, você sentirá de tudo que for possível para você. Eu mesmo comecei ao arrumar a mochila e não era medo, era pavor de sofrer acidente, de ser assaltado, de encarar picadas peçonhentas, de dores, lesões, calos, etc. Aí você vence o primeiro trecho e, quando chega, é inundado de bem-estar, toma banho com um prazer indescritível e segue sua vida de jantar como se não tivesse acabado de caminhar quarenta quilômetros. E o que fica de aprendizado é o velho clichê de dar o primeiro passo, para tornar possível o que muitos acham impossível. Sejam quantos quilômetros forem, o próximo passo sempre foi meu destino.

Como você espera que a experiência descrita no livro inspire ou impacte os leitores que buscam uma compreensão mais profunda da própria jornada pessoal e espiritual?

Que se reconheçam seres humanos reais, com demandas físicas, interpessoais e espirituais. Conscientes que devemos melhorar, na medida do possível, em todas as áreas o tempo todo, mas que oscilar também faz parte do processo.

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