Caetano Brasil e o segredo de transformar o clássico em contemporâneo

Clarinetista, saxofonista e compositor, Caetano Brasil está em um dos grandes momentos de sua carreira, com mais de uma década de estrada. Após ser indicado por seu álbum “Cartografias” na categoria Grammy Latino 2020 de Melhor Álbum Instrumental, ele retornou não só às suas raízes, mas a toda música brasileira em busca de um futuro. “Pixinverso – Infinito Pixinguinha” é um álbum focado em fortalecer a conexão entre coro, jazz contemporâneo e world music, relendo obras da vida de milhões.

O projeto começou na realização do último álbum do artista, Cartografias (2019), quando gravou uma versão de “Um a Zero”. A música, lançada como single em dezembro de 2020, fez parte do repertório do BDMG Instrumental Awards e do Nabor Pires Camargo Awards, em que Caetano foi eleito Melhor Instrumentista e ficou em primeiro lugar, respectivamente. Confira a entrevista!

Após anos de carreira, seu recente lançamento “Pixinverso – Infinito Pixinguinha” faz um retorno aos estilos do jazz contemporâneo e world music. Como foi a construção e elaboração desse projeto?

Na verdade eu nunca me afastei do jazz ou da world music. Pesquisar e tocar esses estilos sempre alimentou a produção do meu trabalho, que se desenvolve basicamente a partir do choro. Com “Pixinverso” não foi diferente. Em 2020 gravamos um arranjo meu para “Um a Zero”, que já vinha fazendo parte dos meus shows e sempre chamava a atenção do público. Isso reacendeu uma vontade antiga de fazer um álbum só de Pixinguinha. Comecei a curar o repertório e foi um grande desafio escolher (só) 10 músicas. Fui pouco a pouco escrevendo os arranjos e, à medida que a pandemia nos permitia, nos encontrávamos para ensaiar, eu e os outros três músicos do quarteto. Fomos gravando em sessões mais espaçadas e no final de 2021 tínhamos o setlist registrado.

Apesar de você já ter mais de uma década de estrada na música, o que o fez ver a importância de se revisitar o passado e suas tendências?

Na minha compreensão, não há futuro possível sem uma raiz que se finca em quem veio antes da gente. O choro tem quase 200 anos de história, uma tradição que conta a dor e a delícia do nosso povo. Há que se ter muito respeito e apreço. Apreço, não apego! Esse diálogo atemporal que o choro traz, o encontro de gerações nas rodas de choro, o repertório que atravessa décadas sempre me seduziu. Principalmente porque toda essa bagagem me muniu e me deixou livre para seguir meus próprios caminhos. No choro sempre há espaço para que eu traduza a mim mesmo naquela música.

 “Pixinverso” trouxe entre suas principais características, a união entre quatro instrumentos em harmonia, que foram o clarinete, saxofone, piano, baixo e bateria. Como considera ser o seu estilo musical e sua relação com os instrumentos?

Esta formação é muito mais inspirada num jazz quartet do que num regional, formação tradicional dos grupos de choro com violões, pandeiro e cavaquinho. E o que me levou a isso foi principalmente o material humano. Quando comecei este trabalho com o quarteto, que tem em “Pixinverso” seu terceiro álbum gravado, eu estava à procura de pessoas com a cabeça aberta, dispostas a incorporar as referências que eu propunha, a mergulhar nestas possibilidades. Guilherme, Gladston e Adalberto são muito bons de escuta! Aliás, não sei muito bem dizer se “Pixinverso” é um disco de choro propriamente. E acho que tá tudo bem com isso!

Entre as releituras que seu novo projeto trouxe, vários já fazem parte de gerações do público brasileiro. É preciso ter uma confiança maior para mexer em um conteúdo já reconhecido originalmente pelo público? Até onde vai a responsabilidade de se produzir a releitura de um clássico?

Pergunta difícil de responder! Acho que acima de tudo é preciso vivência, uma busca do entendimento de onde vem aquele clássico. História, sociedade, política, tudo junto. E também uma conexão com a minha própria mensagem, saber e acreditar no que quero dizer com a minha proposta. Normalmente, considerando que estudo e vivo o choro intensamente, não estou lá muito preocupado com o “como deve ser feito”, sabe? Tento apoiar minhas decisões numa música que vem de dentro, em como sinto e percebo o mundo, entendendo que o melhor que tenho a oferecer é a minha verdade. 

Qual acredita ser o principal diferencial da sua visão artística para o cenário que temos hoje na indústria fonográfica?

A minha busca tá um tanto nesse lugar, de produzir uma música instrumental que não se preocupa com rótulos e que quer se fazer, sobretudo, acessível. Não porque entrega algo facilmente apreciável – eu sinceramente não tenho nenhum compromisso com o belo! Mas que chegue às pessoas através do sensível. Eu particularmente não acredito que o intelecto deva ser o ingresso para o consumo de um produto artístico. Não me preocupo se as pessoas tão decifrando quais notas e acordes eu estou empregando em cada compasso, mas se, através do som e do meu trabalho de comunicação, a música está despertando as pessoas para a possibilidade de imaginar uma realidade diferente da que nos é oferecida.

O disco de “Pixinverso” traz uma característica física bem marcante, que é a divisão das dez faixas em dois lados de gravação, simulando como eram feitos os antigos discos de vinil. Acredita que essa tendência de recriação esteja chegando para ficar na atualidade?

Acredito que não! Eu é que estou na contramão, lançando um álbum de 53 minutos. Cada vez mais os produtos fonográficos têm ficado mais curtos e têm se esgotado mais rapidamente. Procurei um caminho que conversasse mais com a minha proposta do que necessariamente com as tendências do mercado. Aliás, minha música como um todo, que acaba ficando nichada (e estratégias para furar esta bolha é papo para outro momento), nada contra a corrente. Ouvi recentemente de uma pessoa “você é muito mais a controvérsia do que o status” e eu achei isso o máximo! Sigo buscando por aí os olhos e ouvidos que me recebam como sou, como posso ser.

O seu último projeto, o “Cartografias” de 2019 foi um verdadeiro sucesso, conquistando inclusive indicações ao Grammy Latino 2020. O que esse álbum significou para você?

“Cartografias” é certamente um divisor de águas. Não só pelos marcos que alcançou, mas pelo quanto cresci nesse processo. O álbum representa muito pra mim, sendo eu um artista independente, preto, LGBTQIA+, fazendo música instrumental, autoral, fora do eixo Rio-São Paulo. Para mim “Cartografias” é a constatação de que acreditar no que se tem a dizer é de suma importância. E que é assim, mesmo que nas pequenas esferas, que a gente transforma este lugar em que a gente vive.

Qual é a principal diferença que observa entre as diferentes gerações que seguiu acompanhando na música até os tempos atuais?

Poxa, são inúmeras e ao mesmo tempo não são. Eu acompanho a história e a tradição do choro, por exemplo. E muito embora talvez não exista música tão democrática quanto essa, ela é nascida no Brasil do século XIX e, portanto, muito masculina e muito machista. Ela vai sobrevivendo e se adaptando à realidade do novo mundo, em que cada vez mais estes comportamentos vão ficando intoleráveis. Mas ainda tem muito pra andar. Tem também esse lance que a internet proporciona, as redes de contato, o acesso à informação. Há quase 20 anos, quando comecei a tocar choro e que historicamente não é nada, a gente tinha muito menos material, sites especializados. E hoje muita coisa tá a um clique de distância. Acho que a gente só vai ter a real dimensão desse impacto em alguns anos, mas já o vejo como positivo. O choro é livre, irrestrito e tá ganhando o mundo! 

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*Com Andrezza Barros

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