O afeto é a seta que guia os caminhos e a sonoridade do duo ÀVUÀ. Resultado do encontro entre os cantores e compositores paulistas Bruna Black e Jota Pê, a dupla se prepara para desdobrar e traduzir as várias possibilidades afetivas em seu álbum de estreia, previsto para o segundo semestre de 2022. E, aos poucos, eles entregam pistas do que está por vir por meio de singles. Após apresentar ao público “Dois Sóis”, que ganhou um videoclipe, mais uma peça dessa trilha sonora chega ao público no último dia 15 de julho. Trata-se de “Famoso Amor”, canção já disponível nos aplicativos de streaming de áudio.

“Dois Sóis” e “Famoso Amor” falam de amor de maneiras distintas, porém complementares. A primeira aborda uma esfera mais sexual, física, enquanto a segunda traz o sentimento no contexto a dois para a narrativa. Com composição de Bruna Black e produção de Lucas Mayer e Rodrigo Lemos, “Famoso Amor” simboliza também a intenção que conduz o duo em sua criação.

Formado em 2019, o ÀVUÀ junta dois talentos que partem de experiências pessoais e profissionais diferentes, mas que, como duo, faz transbordar as suas intersecções e distinções em uma música brasileira contemporânea. Em pouco tempo de estrada, eles já colecionam feitos importantes, como uma faixa no álbum ONZE canções inéditas de Adoniran  Barbosa (Dorsal Musik, 2020), indicado ao Grammy Latino em 2021; e também a participação no celebrado (e hypado) canal internacional COLORS, no qual registraram a canção autoral “Comum”. Este é só o começo de um caminho que germina, por meio do afeto, pequenas e grandes revoluções. Confira a entrevista!

Se aproximando do lançamento do primeiro álbum da dupla de vocês, como andam as expectativas de ambos e como tem sido o processo de produção?

Estamos muito animados com a produção e o processo todo do álbum, desde os encontros com a Bruna para começar a compor as faixas, até a escolha de algumas músicas de amigos que acabaram entrando no disco. Agora a pouco eu estava no estúdio com o silvinho gravando uns teclados e está ficando bonitão. Então o processo todo está bonito e sendo feito com muito carinho, desde a parte de compor as faixas, produzir elas na Dahouse com o Lemos, o Lucas a distância. Estamos com uma expectativa grande de que a galera vai gostar. 

Resultado do encontro da identidade musical de ambos, o ÀVUÀ já lançou vários singles e realizou inclusive participações em álbuns de outros artistas. Como vocês enxergam individualmente o projeto da ÀVUÀ e o que mais fez com que vocês se identificassem e topassem criar esse projeto um com o outro?

Jota: Foi muito fácil porque já somos amigos há muito tempo, nos damos muito bem e já cantamos várias vezes no show um do outro. Eu já gravei uma música no EP solo da Bruna e ela gravou uma no meu, então foi um processo muito natural e que aconteceu tudo muito rápido. Quando resolvemos montar o duo, nosso primeiro trabalho já foi um disco dividindo com Elza Soares e Zeca Baleiro. Depois, esse mesmo disco foi indicado ao Grammy Latino e aí um monte de coisa maravilhosa foi rolando com o projeto ÀVUÀ. Agora mesmo estamos indo tocar no evento do Rock in Rio aqui em São Paulo. Muitas coisas maravilhosas acontecendo com o duo, só alegria.

É muito prazeroso trabalhar com a Bruna, sendo tudo muito simples de fazer rolar, ainda mais agora que estamos recebendo muito apoio e que as coisas estão acontecendo, números estão subindo, novos shows, já contando que recentemente fomos aprovados no YouTube Foundry, então tem muita coisa massa acontecendo. 

Formada em 2019, o que vocês acreditam ter sido o sinalizador para que esse momento seja o certo para finalmente lançarem o álbum de estreia de vocês?

Eu penso que o momento de estreia para fazer o álbum é justamente registrar esse encontro, porque começamos em 2020, e na sequência a pandemia começou. Gravamos muitas coisas à distância até conseguirmos nos reunir, e foi durante esse período que o público começou a crescer, isso sem a gente fazer show nenhum. Foi muito doido entender isso, nesse lugar de começar um projeto e ele ser muito ouvido e não conseguir perceber fisicamente, porque não podíamos fazer shows, então, estamos muito felizes e ansiosos em registrar esse encontro. 

ÀVUÀ (Foto: Thiago Santos)

A respeito do enredo abordado pelas suas principais músicas “Dois Sóis” e “Famoso Amor”, ambas abordam as diferentes, porém complementares formas de amor, sendo a primeira uma forma mais sexual e a segunda um amor mais sentimental. O que os levaram a escolher essa abordagem e qual foi a importância dessas faixas tanto para a carreira como para vida de vocês? Elas promoveram alguma reflexão nova a respeito do tema?

As duas faixas representam formas complementares de amor. Na verdade, o álbum todo tem esse lugar de afeto e de falar sobre ele de várias maneiras.

Jota: “Dois Sós”, a princípio foi uma composição que pensei muito em como eu conseguiria falar sobre o prazer, de como é estar na correria do dia a dia, fazendo um monte de coisa, e chegar em casa e encontra com uma pessoa que te traz uma boa energia. E aí, obviamente, levando para esse lugar sexual também, de ter esse aconchego para seguir a correria do cotidiano.  

Por isso,”Dois Sós”, são duas pessoas se envolvendo e que de fato se energizam a ponto de vibrar feito “Dois Sós”, e continuar fazendo as coisas do dia a dia. Já “Famoso Amor”, também traz muito disso, porque é sobre ter coragem de viver o amor incluindo todas as suas dificuldades, saindo um pouco do lugar romântico e entendendo que o amor é construção e exercício de disposição. 

Nesses últimos lançamentos, vocês acabaram contando com a composição de Bruna Black e produção de Lucas Mayer e Rodrigo Lemos. Como foi trabalhar em conjunto com essa equipe e como funciona a troca de vocês durante o processo de composição? Existe muito da dupla dentro da composição também?

Jota: O Lucas eu já conheço há bastante tempo, ele que produziu o meu EP solo e basicamente todos os singles que vieram depois do “Garoa” foi ele que produziu. Já o Lemos, entrou para Dahouse um pouco depois e começou a trabalhar mais com ÀVUÀ, ele que produziu a faixa do A COLLORS SHOW. 

Jota: As composições são muito divididas, às vezes fazemos juntos ou individualmente. Os primeiros singles do ÀVUÀ eram composições minhas, depois começamos a compor juntos, mas o bacana é que quando a gente compõe as faixas, levamos para o Lucas e o Lemos e aí rola uma segunda opinião do que podemos mudar. 

Apesar de ser um tema bastante explorado por outros gêneros como o sertanejo e outros estilos musicais, vocês chegaram a partir do entendimento de que o amor seria algo revolucionário. Vocês acreditam ter conseguido trazer uma nova roupagem a uma temática que já foi tão explorada pelos estilos da indústria musical? O que diferencia a ÀVUÀ de outros grupos do mesmo gênero atualmente?

Jota: O que diferencia o ÀVUÀ nesse lugar de tratar o amor como revolucionário é o fato de sermos duas pessoas pretas falando sobre o amor. Vejo que a nossa geração veio muito desse lugar em falamos mais sobre as mazelas e dificuldades, e não podemos falar de amor, porque no final temos que resolver um monte de coisa o tempo todo e acabamos negligenciando um pouco esse sentimento, sendo tão incrível e essencial para todas as pessoas. 

Jota: Acredito que todas as lutas que as pessoas têm contra a homofobia envolve amor, e só lutamos contra todas essas coisas porque amamos essas pessoas e queremos que elas vivam bem, andando sem medo, sem que as questões que não tem nada a ver com nenhuma outra pessoa interfira nisso. Não somos os únicos que pensam assim, temos visto um levante nessa relação de falar mais sobre o amor, e é por isso que acreditamos estar fazendo uma parada necessária.

ÀVUÀ (Foto: Thiago Santos)

Uma questão que foi levada no trabalho de vocês como forma de performance do enredo, vocês trouxessem duas pessoas pretas que compartilham de um sentimento como forma de luta onde mostram que mereciam viver coisas que fossem além dos traumas e das más experiências de suas vidas. Esse enredo chegou a ser baseado em uma história real da vida de vocês ou foi uma percepção de uma realidade observada no mundo?

Jota:  Na minha percepção é a realidade de todas as pessoas pretas, porque acredito que em algum momento todas as pessoas negras passaram por isso. Então não só nós como pessoas queridas viveram e vivem isso, o que acaba sendo fácil falar sobre, porque é uma realidade muito próxima, sendo algo que estamos aprendendo a construir. Neste lugar eu não sinto tanto que o sertanejo ou outras vertentes musicais falam muito de amor, percebo ser uma vertente que a gente como artista pretos estamos falando mais sobre isso. 

A respeito do futuro da dupla, como vocês se veem daqui alguns anos? 

Esperamos estar tocando muito pelo mundo inteiro, ganhando dinheiro, fazendo música nova, feats com um monte de artista que a gente é fã, como Djavan, Mayra Andrade, tocando no Rock in Rio, etc. Nós amamos subir ao palco, então, tudo que esperamos é poder continuar fazendo isso para sempre, com estrutura, pagando bem nossos músicos e toda a equipe, podendo gravar discos com carinho, com tempo, sabe?! Só queremos viver do que a gente ama e pagar alguns boletos (risos). 

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