Augusto Maia: a experiência na indústria farmacêutica e a inspiração para “Amor In Vitro”

Luca Moreira
12 Min Read
Augusto Maia (Nicola Labate)

Augusto Maia, com sua vasta experiência como executivo na indústria farmacêutica, encontrou inspiração nos relatos vividos por pessoas que buscaram a reprodução assistida para concretizar o desejo de ter um filho. Essas narrativas tocaram-no profundamente, levando-o a publicar “Amor In Vitro”, um livro ficcional repleto de reflexões sociais, afetivas e filosóficas acerca das possibilidades oferecidas pelo avanço da ciência no campo da medicina.

Esta obra se divide em sete contos, cada um representando um mergulho em dilemas, conflitos e emoções que orbitam a condição humana. Cada enredo apresenta elementos capazes de instigar discussões sobre a realidade contemporânea: desde um casal lésbico enfrentando o preconceito familiar na busca por ter um filho até a história de uma mulher impossibilitada de acessar a reprodução assistida por questões financeiras, e até mesmo a reflexão de uma médica que, apesar de ajudar outras famílias a realizarem seu desejo de ter um bebê, questiona a possibilidade de vivenciar essa experiência por si mesma.

Com ilustrações cuidadosamente criadas por Alexandra Seraphim e poemas que traduzem os sentimentos das personagens, o livro almeja, sobretudo, oferecer uma visão sensível e reflexiva sobre a reprodução assistida. Contudo, os contos não apenas emocionam, mas também informam: Augusto Maia tece notas informativas ao longo da obra, contextualizando o público com dados relevantes sobre infertilidade, taxa de fecundidade, implicações socioeconômicas e mais.

Além disso, o autor projeta algumas das histórias no futuro, explorando avanços potenciais na medicina e as possíveis transformações sociais. Ao trazer informações verídicas sobre os progressos da fertilização in vitro, ele levanta questões éticas, questionando como a humanidade estará em algumas décadas. Entre as ponderações, emerge a reflexão sobre a próxima era da edição genética e do desenvolvimento de embriões em bolsa artificial, e quais implicações éticas e sociais essas inovações podem trazer.

Engenheiro de produção e administrador de empresas, Augusto Maia acumula mais de 25 anos de experiência na indústria farmacêutica. Mestre em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), sua pesquisa está centrada em Humanidades, Narrativas e Humanização. Com a publicação de “Amor in Vitro”, inspirado em histórias reais sobre reprodução assistida, Maia faz sua estreia na literatura de ficção, após já ter lançado, em 2022, o livro “Responsabilidade Humanística – uma proposta para a agenda ESG” e ter contribuído com artigos em revistas acadêmicas.

Como suas experiências na indústria farmacêutica influenciaram a inspiração por trás de “Amor In Vitro”?  

Trabalhei na área de medicina reprodutiva e interagi diretamente com os principais fertileutas do Brasil. Participei também de muitos congressos médicos. Nessa interação, aprendi sobre as diversas questões que envolvem o tratamento de reprodução assistida, que vão além da técnica e dos medicamentos, e aborda questões psicológicas, sociais, morais e religiosas, entre outras. Da mesma forma, ouvi muitas histórias reais que médicos e amigos me contaram e me encantei pela humanidade e complexidade dos dilemas que são enfrentados nesse campo. Como já tinha planos para escrever um livro, naturalmente aproveitei toda essa experiência.

Há alguma história ou experiência específica que o levou desta experiência para escrever este livro?

Não há um caso específico. Na verdade, as diversas perspectivas pelas quais esse tema pode ser abordado produz um material riquíssimo e muito interessante para ser explorado por um autor de ficção.

Os sete contos da obra abordam dilemas sociais e emocionais relacionados à reprodução assistida. Qual foi a sua abordagem ao criar essas histórias? Como elas são baseadas em relatos reais que você encontrou?

Primeiramente defini os temas que queria abordar através das histórias como a questão da maternidade solo, da religião, acesso ao tratamento e os dilemas morais que enfrentaremos com o rápido avanço da ciência. A partir daí identifiquei elementos das muitas histórias que conheci para elaborar as personagens de cada conto. Então imaginei situações possíveis me colocando no lugar das personagens.

Além das histórias ficcionais, seu livro inclui notas informativas para contextualizar os leitores sobre a infertilidade e outras questões. Qual foi a intenção por trás dessa adição? Como você acredita que essas informações podem ampliar a compreensão do público sobre o tema?

A medicina reprodutiva é um tema complexo, permite inúmeras possibilidades e há muitas questões abertas para serem respondidas. Geralmente apenas os profissionais da área e as pessoas que fizeram o tratamento compreendem esse contexto e estão familiarizadas com o vocabulário que é utilizado e as etapas do tratamento. Por isso, inclui as notas informativas para facilitar o leitor leigo a aproximar-se desse universo e enfatizar com as personagens.

Você mencionou que alguns contos projetam possíveis avanços futuros na medicina reprodutiva. Como você explorou esses avanços no livro e por que considerou importante trazê-los à discussão?

Esse é um tema importantíssimo para reflexão. Me apoiei em artigos científicos recentemente publicados para levantar questões de bioética através das histórias. Os avanços da genética, por exemplo, permitirão um nível de interferência no processo natural de reprodução que tem o potencial de modificar a nossa espécie. Na mesma linha, o processo de gestação poderá ser artificial. Quais serão as consequências? Até que ponto queremos ir? São perguntas que precisamos endereçar.

Augusto Maia

Qual é a importância de transmitir reflexões filosóficas e sociais por meio da ficção? Como você vê o papel dos livros e da literatura na abordagem de temas sensíveis, como a reprodução assistida?

Acredito que é através do efeito estético-reflexivo provocado pelas artes que alcançamos a essência da nossa humanidade, por uma via afetiva e não intelectiva. A literatura cumpre muito bem esse papel.

Como a inclusão de ilustrações e poemas na obra contribui para a experiência do leitor? Qual era a sua intenção ao integrar esses elementos?

A artista que produziu as ilustrações foi extremamente sensível em representar simbolicamente cada conto através das imagens. Dessa maneira, as ilustrações acompanhadas pelos poemas trazem beleza e conectam o leitor com as histórias diretamente pela emoção.

Em sua opinião, como a sociedade contemporânea lida com o tema da reprodução assistida? Quais são os principais desafios e preconceitos que você acredita que ainda precisam ser superados?

A sociedade ainda está aprendendo a lidar com os avanços da tecnologia, que são mais rápidos do que a nossa capacidade de criar consenso e regular. Entra em jogo questões religiosas, culturais e econômicas que precisam ser levadas em conta. Por isso, os cenários da reprodução humana variam muito em cada país. A questão do acesso ao tratamento, por exemplo, é um desafio no Brasil. Aqui as pessoas de baixa renda que não podem pagar pelo tratamento têm poucas chances no serviço público. Outro desafio é a informação, e mesmo na comunidade na médica há muito a fazer. Por exemplo, mulheres jovens que precisam fazer quimioterapia por conta de um câncer de mama, que afeta a sua reserva ovariana e diminui as chances de gravidez no futuro, nem sempre são orientadas pelos oncologistas a fazer o congelamento de óvulos. A saída é a educação através da disseminação da informação e do debate. Esse é um dos objetivos do livro.

O livro discute o possível futuro da reprodução humana, como a edição genética e o desenvolvimento de embriões em bolsas artificiais. Quais são as reflexões éticas e sociais que você espera provocar com essas discussões?

Devemos refletir e delimitar o alcance das tecnologias que podem causar um impacto muito grande no futuro da humanidade. É o caso da energia nuclear, da inteligência artificial e das técnicas de reprodução assistida. Por exemplo, a possibilidade de gestação fora do útero e de gerar embriões a partir só de gametas masculinos ou femininos, ou diretamente a partir de células-tronco, pode transformar completamente a forma como a sociedade se organiza. Além disso, esse grau de interferência no processo natural direciona a evolução, diminui a diversidade promovida pela aleatoriedade da natureza e, portanto, traz muitos riscos. Precisamos decidir até onde queremos chegar e qual é o legado que queremos deixar para as futuras gerações. Abordo essa questão nos últimos três contos.

Você poderia compartilhar um pouco sobre o processo de escrita deste livro? Houve algum desafio específico ao abordar um tema tão complexo e sensível?

Comecei o projeto imaginando um texto mais informativo e pedagógico pensando nas pessoas que podem se beneficiar dos recursos da medicina reprodutiva. Também havia pensado em provocar a discussão em torno de temas importantes, como exemplifiquei antes. Contudo, ao longo do processo, na medida que criava as histórias e me colocava no lugar das personagens, o texto fluiu para uma linha muito mais literária ficcional, e a medicina reprodutiva passou a ser mais um pano de fundo para elaborar as questões afetivas e morais que dão forma à nossa humanidade. Nesse caminho, os poemas me ajudaram muito. Não havia planejado escrevê-los, mas se tornou um recurso para eu me desligar das demandas do dia a dia da vida e me conectar com o texto. Então sempre começava escrevendo ou relendo os poemas, ou cantando mentalmente a música que faço referência em um dos contos, para estimular a criatividade e entrar no universo dos contos que escrevia.

Que mensagem ou impacto você espera que os leitores levem consigo após ler “Amor In Vitro”? Como você acha que esse livro pode influenciar ou contribuir para conscientização sobre a reprodução assistida?

O livro pode ser lido por diversas perspectivas. Imagino que algumas pessoas buscarão se informar mais sobre a reprodução assistida e considerá-la como uma alternativa para constituir suas famílias, outros se interessarão pelas questões sociais e culturais e, por fim, muitos irão refletir sobre os dilemas morais que já enfrentamos e os que enfrentaremos. Ao final, penso que a mensagem central é que o amor deve estar no centro das nossas decisões, pois é no encontro do afeto com a razão que a nossa humanidade se define, e estamos sobrecarregando essa balança para um só lado.

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