IARAH lança “Não Me Olhe Assim” e transforma vivências de assédio em música

Luca Moreira
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IARAH (Renata Moita)
IARAH (Renata Moita)

A cantora e compositora IARAH lança no dia 24 de abril o single Não Me Olhe Assim, uma faixa intensa que aborda o assédio a partir de experiências pessoais marcadas por medo, silêncio e resistência. Com uma construção sonora que evolui da introspecção ao peso emocional, a música surge como um espaço de acolhimento e reflexão, questionando discursos naturalizados e reforçando que nenhum comportamento ou aparência justifica a violência. Em entrevista, a artista fala sobre o processo de transformar dor em expressão artística e a importância de dar voz a histórias muitas vezes invisibilizadas.

 “Não Me Olhe Assim” nasce de uma experiência muito íntima e dolorosa. Em que momento você sentiu que transformar essa vivência em música era também uma forma de romper o silêncio?

Desde que comecei a escrever a música senti que estava fazendo algo que era importante para mim, não só para o meu eu de hoje em dia, mas para o meu eu pequena que sofreu esses assédios e que sequer sabia como lidar com isso, hoje em dia ainda sofro muito assédio, não vou falar que eles pararam, mas diminuíram bastante em relação a quantidade de assédios que eu sofria quando era criança, o que é ainda mais assustador, já que antes eu era apenas uma criança.

Você fala sobre assédios sofridos desde a infância, e isso dá à canção uma camada ainda mais sensível. Como foi revisitar essas memórias para conseguir escrevê-las?

Foi doloroso, muito, embora a gente nunca esqueça o assédio, o que foi dito e a cara do assediador, relembrar é sempre muito difícil, no sentido de que dói, muito.

Lembro que quando ouvi a música pronta pela primeira vez eu me acabei de chorar no estúdio, então definitivamente foi muito dolorido, mas me deu ainda mais força para enfrentar isso e lutar por aqueles que sofrem o mesmo que eu sofri.

IARAH (Renata Moita)
IARAH (Renata Moita)

A faixa começa mais contida e depois cresce até ganhar peso e força. De que forma essa construção sonora conversa com o que você queria expressar emocionalmente?

A crescente da faixa, para mim, representa tudo que eu sentia quando era pequena, o fato de ela começar mais contida representa principalmente a confusão e o medo que eu sentia, já a parte do peso e da força para mim retrata mais como o medo evoluiu para o pânico, e para como eu ficava assustada, muitas vezes com medo de sair na rua com receio de que se eu saísse eu seria assediada.

Você comentou que tinha muita coisa para dizer, mas nem sempre sabia como colocar isso em palavras. O que foi mais difícil nesse processo de composição: lembrar, organizar ou expor?

Definitivamente organizar foi a parte mais difícil, a gente nunca esquece sobre o assédio, sempre vai ser um fantasma na minha vida, então organizar tudo que eu sofri em todos esses anos realmente foi o mais difícil, porquê foram diversas situações, mas em absolutamente todas o que eu mais senti foi definitivamente medo, e em muitos casos, culpa, cheguei a denunciar uma época um assédio que sofri, como era criança o aconselhado foi denunciar no conselho tutelar, e uma coisa que nunca vou esquecer foi que a psicóloga do conselho tutelar me perguntou que roupa eu estava usando quando fui assediada.

Então organizar todos esses sentimentos de medo, culpa e etc, foi com certeza a parte mais complicada.

IARAH (Renata Moita)
IARAH (Renata Moita)

Sua música não se limita ao relato pessoal, ela também acolhe outras pessoas que passaram por situações parecidas. Quando você escreve, pensa mais em desabafar ou em estender a mão para quem vai ouvir?

Quando eu estou escrevendo penso obviamente mais em desabafar, mas é inevitável, principalmente em casos como esse, pensar que a sua música pode servir como acolhimento para alguém que já passou pelo mesmo.

Há uma fala sua muito forte sobre como a sociedade ainda costuma responsabilizar a vítima. O quanto te move artisticamente usar sua voz para confrontar esse tipo de pensamento?

Muito, pois como aconteceu comigo, e como acontece com diversas vítimas, a sociedade costuma responsabilizar a vítima, “que roupa você estava usando?” “Mas também, você viu a hora que você saiu?” “Mas o que você falou pra ele achar que podia falar isso?”, então assim, a culpa sempre é da vítima, e nunca do assediador, e isso é errado, é tão louco pra mim que seja necessário apontar ainda que a culpa NÃO é da vítima, porque isso deveria ser óbvio, mas infelizmente, em muitos dos casos, não é.

IARAH
IARAH

Suas influências passam por nomes como Paramore, Evanescence e Halestorm, artistas que também carregam muita intensidade e atitude. Como essas referências te ajudaram a encontrar a força certa para contar essa história?

Sinceramente não foram as bandas que precisamente me ajudaram a fazer essa música, elas são minhas influências por serem bandas que eu admiro e gosto muito, seja pela intensidade da música, da letra, a atitude que eles têm em cima do palco, os temas que abordam, a forma como escrevem. Coisas desse tipo foram definitivamente o que fizeram deles as minhas referências.

Depois de colocar “todo o seu coração” em “Não Me Olhe Assim”, o que você mais espera que fique no público quando a música terminar: identificação, reflexão, acolhimento ou coragem?

Espero que fique mais a reflexão, o acolhimento e a coragem, espero que as pessoas reflitam sobre como ainda falamos pouco sobre esse assunto tão importante que muitas vezes é tratado de forma rasa e também não é levado a sério, vejo muitos casos onde crianças denunciam o assédio ou o estupro para a mãe, tia, avô e etc e não são levadas a sério, como se elas estivessem mentindo, muitas vezes tratam as crianças como se elas não fossem seres humanos com suas dores, pensamentos próprios e vivências, é isso é extremamente errado, então espero que fique a reflexão para os adultos e que eles tenham a iniciativa de mudar, pois muitas das vezes a criança não entende direito o que está acontecendo, então se ela fala, é verdade, não tem porquê uma criança mentir sobre um assunto tão sério.

E espero que aqueles que já sofreram com o assédio se sintam acolhidos e acolhidas e que sintam coragem para denunciar quem quer que tenha feito isso com eles, o que aconteceu comigo quando eu denunciei não foi certo, mas foi necessário, pois muitas vezes quem assedia uma pessoa, assedia mais de uma, então denunciem, e sejam fortes, mesmo quando for difícil, temos que ser fortes uns pelos outros e continuar lutando pelas causas que realmente importam.

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