Ju Kosso lança clipe de “Sofisalma” e aprofunda debate sobre identidade e aparência

Luca Moreira
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Ju Kosso
Ju Kosso

A cantora e compositora Ju Kosso apresentou, no dia 1º de abril, o videoclipe de “Sofisalma”, expandindo em imagens a narrativa intensa da faixa lançada anteriormente. Com estética inspirada em graphic novels e uso simbólico da inteligência artificial, o projeto constrói uma experiência visual que questiona as máscaras sociais, os discursos de validação e as múltiplas formas de existir. Em entrevista, a artista reflete sobre o processo criativo do clipe e o convite à auto-observação presente na obra.

Em “Sofisalma”, você parte de uma inquietação muito contemporânea: a distância entre aquilo que mostramos e aquilo que realmente somos. Em que momento essa reflexão virou música?

Sempre fui muito observadora. Depois que saí das Velhas Virgens, voltei a ter vontade de  escrever, de compor…vieram várias ideias, reflexões e uma percepção mais profunda sobre mim mesma. Passei a olhar com mais honestidade pro  que eu faço, para o que deixei de fazer e também para as ilusões que criei ao longo do meu caminho. Foi nesse processo de auto-observação que essa inquietação ganhou forma e acabou virando música.

Você constrói o clipe a partir de uma “trindade” entre corpo, alma e IA. Como nasceu essa ideia e o que cada uma dessas dimensões revela sobre a forma como existimos hoje?

Sou muito ligada à psique humana, é apaixonante e me liberta. Essa idèia da ”trindade” surgiu como uma forma de dogma, de representação do contexto desse clipe; corpo, alma e IA…E aí que nasce o conflito: quem você sustenta? O corpo que performa, a máquina que projeta ou a alma que precisa de silêncio? Como se fosse algo do tipo: é assim que você deve existir! Pensei em 3 personagens no clipe pra representar suas personas às escondidas.

A validação externa é algo que adoece o ser humano…enquanto que a alma pra quem acredita, vai ficando em segundo plano, deixada de lado, em último caso, então conforme o tempo a alma  grita por socorro, por verdade, retirar a máscara é um alívio. Essa trindade no clipe é justamente esse conflito: do que mostramos, o que construímos artificialmente e aquilo que, no fundo, somos de verdade.

Ju Kosso
Ju Kosso

Os personagens do videoclipe parecem representar contradições muito humanas, como desejo reprimido, felicidade encenada e busca por transcendência. O que mais te interessava investigar emocionalmente  dessas figuras?

A felicidade não existe…o que existe são alguns momentos felizes…é uma nóia essa busca de felicidade… Somos neuróticos em provar o que nem somos!

Existe sim o desejo reprimido e às vezes esse desejo fica escondido nessa busca egóica…e o auto engano é uma defesa pra não ser descoberto, o medo do que os outros vão pensar pode abrir pra algo mais excitante em fazer às escondidas… Quando existe repressão, regra, moral ou medo de punição, o desejo não desaparece… A questão é o ego da pessoa em achar que está transcendendo pq se a pessoa mente pra si ela já está se alienando, mesmo que ninguém saiba a verdade sobre ela…sustentar um status social, pesa muito dentro de si…

E o escondido vira quase um palco secreto desse desejo… a pessoa constrói uma imagem oposta ao que sente ou deseja pra viver na sociedade… tudo pra ser bem visto, na família, aos olhos de doutrina religiosa…então, a pessoa se revela às escondidas, nas inverdades, nas mentiras com cara de perfeição… Tem gente que ri alto em festas, paga bebida, parece feliz… mas quando chega em casa, desaba. Sozinho, é outra pessoa…E sim, dói, pq às vezes, a gente não é só aquela imagem bonita que mostra pro mundo.

Você comentou que os primeiros brainstorms foram psicológicos, e não visuais. Como foi transformar sentimentos, conflitos internos e máscaras sociais em imagens tão simbólicas?

Uma vez eu lí que pensamentos geram emoções, emoções geram palavras, palavras geram comportamentos, e assim as causas e consequências…então, pra mim, não foi tão complicado criar as imagens a partir daquilo que a pessoa emana.

Ju Kosso
Ju Kosso

A estética inspirada em graphic novels dá ao clipe uma identidade muito particular. O que esse universo visual permitiu expressar que talvez um videoclipe mais convencional não alcançasse?

Essa questão de fazer o clipe nesse conceito em Graphic Novels, foi pq tenho algumas HQS aqui em casa, batí o olho e pensei… pq não? E como o feat. foi com o Felipe Andreoli, quis fazer uma surpresa pra ele, do que ele representa. Aí depois, fui elaborando os personagens nessa temática, que me deu liberdade pra exagerar, simbolizar e aprofundar os conflitos de um jeito que um clipe mais convencional talvez não alcançasse.

Tem uma outra coisa interessante,  que é a questão de eu estar voltando artisticamente pós saída dedicada nas Velhas Virgens, é um novo retorno pra mim, até pra que as pessoas pudessem conhecer à minha arte, o  meu som, meu jeito, quem sou eu… sendo que é a minha estréia do meu primeiro single autoral e eu queria que as pessoas sentissem primeiro o peso do som, na mensagem da letra. Por isso, confiei no trabalho do Arnaldo Belotto, pra transformar essa carga emocional em imagem. Ele já construiu clipes pra Titãs, Lobão e outros grandes nomes do rock, então existe ali uma sensibilidade pra esse universo.

A inteligência artificial aparece no projeto não só como recurso estético, mas como símbolo de uma busca por perfeição. O que mais te inquieta nessa mistura entre o humano e a máquina?

Eu não sou contra a máquina, mas, pra quem cria, existe uma diferença muito clara entre o que é humano e o que é artificial e isso tem tudo a ver com “Sofisalma”. Uma música nasce de vivência, de conflito, de erro, de verdade. Qdo é 100% feita por IA, pra mim, perde essa essência do real, do humano, da criação. Usar como ferramenta, 10%, 20%, até pra destravar um processo, pode ser válido,  mas também pode viciar o ego, e cair no tentação de ter importância… é aquela coisa, a máquina pode fazer  tudo  100% e vc achar que é seu mérito e dizer pros outros que vc colocou a sua alma ali,  pra receber os aplausos…todo cuidado é pouco pra não se tornar um artista artificial tudo sendo muito robótico, qdo a pessoa se apoia demais nisso e acaba perdendo pra ser validado…Agora, no clipe, acho que  faz sentido, pq é um complemento,  ali entra o lúdico, a fantasia, a construção de imagens … é uma forma viável de produzir sem precisar de uma estrutura milionária e a minha vida é real, rsrsrs… eu não sou  uma superstar de Hollywood.

Pra mim o  rock é visceral, ele vem na raça, da alma mesmo, até  da imperfeição do humano… se a pessoa se pendura em algo 100% artificial, vira muleta, se perde pra ter fama….mas e o talento?

Ju Kosso
Ju Kosso

“Sofisalma” parece propor menos respostas e mais espelhos. Você sente que esse trabalho nasceu mais da vontade de se expor artisticamente ou de provocar o público a se confrontar também?

Dos 2…mas… Lembrando que fui exposta no Velhas por 15 anos fazendo “uma” personagem bem ousada…e hoje, me expor já é algo que está em mim e por si só qualquer provocação.

Agora quando alguém se vê ali no clipe mesmo que não queira se aceitar, o confronto acontece…Sofisalma pode incomodar um pouco, a não ser que a pessoa esteja mesmo anestesiada…mas, quando incomoda é que a gente começa a se enxergar de verdade.

No fim, a pergunta “quem não é você?” fica ecoando de forma muito forte. Depois de criar essa música e esse clipe, que verdades você sente que também precisou encarar em si mesma?

Quem não é você? Ixi, é quase uma rasteira do inconsciente, mesmo pq  a gente não é só o que mostra, a gente tb é o que esconde, luz e sombra, a gente é o que recalca, o que finge que não existe. Eu me encaro todos os dias, ainda me descubro e me reinvento, tem coisas que tenho medo de enfrentar…isso sou eu; em processo, em construção, talvez podemos chamar de transcendência até o meu ultimo suspiro de vida!

Mas “quem não sou eu”, eu tento delicadamente  ser menos crítica e perfeccionista… uma verdade que eu não negocio: nunca precisei ferrar ninguém pra me sentir maior. O resto eu vou me desmontando aos poucos…mas nunca prejudiquei alguém propositalmente por me sentir ameaçada… e assim, segue o jogo!

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