A Americana Jazz Big Band apresentou, no dia 3 de abril, uma nova interpretação de Dindi, clássico de Tom Jobim, em arranjo original para big band. O lançamento marca um momento significativo na trajetória do coletivo ao unir tradição e experimentação, explorando novas possibilidades sonoras sem perder a essência da obra. Em entrevista, o grupo reflete sobre o processo criativo, a importância de revisitar a música brasileira e o desafio de transformar um ícone da canção em uma experiência instrumental contemporânea.
Regravar “Dindi”, um clássico tão delicado e simbólico de Tom Jobim, é também entrar em diálogo com uma herança muito grande da música brasileira. Como vocês viveram essa responsabilidade emocional e artística?
Regravar “Dindi” é, antes de tudo, um gesto de muito respeito. Estamos falando de uma obra que atravessou gerações e foi interpretada por artistas imensos da música brasileira. Existe, sim, uma responsabilidade emocional muito grande, mas ela não vem como um peso que paralisa — vem como um cuidado. Nosso ponto de partida foi justamente esse: honrar a obra do Tom Jobim, entender suas nuances e, a partir disso, encontrar um caminho honesto de interpretação dentro da nossa linguagem de big band. Para nós, é também uma forma de contribuir para a continuidade dessa história.
Vocês falam em preservar a essência da obra original, mas também imprimir uma identidade própria no arranjo. Onde termina a reverência e começa a ousadia nessa nova interpretação?
A reverência está naquilo que não se negocia: a melodia, a estrutura da canção, a força da letra. A ousadia começa na forma como a gente decide contar essa história com os recursos que temos. No nosso caso, isso passa muito pela escrita para big band — pelas texturas, pelas movimentações internas dos naipes e pelas escolhas harmônicas. Criamos momentos mais intimistas durante a exposição da letra, com uma base mais delicada, e depois expandimos isso com recursos próprios da linguagem, como o soli de sopros. É nesse equilíbrio que a gente tenta existir: respeitando profundamente a obra, mas permitindo que ela respire de outra forma.

A formação de big band amplia muito as possibilidades de cor, textura e impacto sonoro. O que esse formato permitiu revelar em “Dindi” que talvez passasse despercebido em uma leitura mais tradicional?
A big band permite trabalhar camadas de uma forma muito particular. Em “Dindi”, conseguimos explorar contrastes mais evidentes entre momentos de intimidade e expansão. A canção começa com uma atmosfera mais contida, valorizando a voz e o texto, mas ao longo do arranjo vamos revelando novas cores — seja nos contrapontos dos sopros, nos movimentos harmônicos ou nas respostas entre os naipes. O soli, por exemplo, é um momento em que a big band ganha protagonismo coletivo, criando uma nova narrativa dentro da música. Esse tipo de construção dificilmente aparece em formações menores.
A escolha da canção surgiu também da parceria com Manda Moraes. O que a presença dela trouxe de especial para essa versão e como essa colaboração ajudou a desenhar o caminho do single?
A Manda foi determinante. A escolha de “Dindi” passou muito pela possibilidade de ter a interpretação dela dentro desse contexto. Ela traz uma sensibilidade muito própria, uma relação muito natural com a música brasileira, que dialoga diretamente com o universo do Tom Jobim. A forma como ela conduz a melodia, com delicadeza e intenção, ajudou a definir o caráter do arranjo como um todo. A partir disso, conseguimos construir uma versão que respeita a canção e ao mesmo tempo cria um espaço de diálogo real entre a voz e a big band.

Receber o apoio e a autorização da família de Tom Jobim certamente acrescenta um peso afetivo enorme ao lançamento. O que esse gesto representou para vocês como músicos e como admiradores da obra dele?
Foi um momento muito significativo para nós. O Tom Jobim é uma referência fundamental, e saber que a família apoiou e autorizou o lançamento nos trouxe uma sensação de acolhimento muito grande. É claro que existe sempre a consciência de que ele não pôde ouvir essa versão, mas esse gesto nos dá a impressão de que estamos no caminho certo — de que fizemos um trabalho respeitoso, que dialoga com o legado dele. Para nós, isso tem um valor enorme, tanto artístico quanto emocional.
O vídeo ao vivo parece reforçar a ideia de verdade musical, de encontro real entre músicos, arranjo e emoção. O que havia de importante para vocês em mostrar “Dindi” também nesse formato quase documental?
A ideia do vídeo ao vivo veio justamente desse desejo de registrar o momento como ele acontece. Gravar áudio e vídeo simultaneamente traz uma tensão maior, porque tudo precisa acontecer ali, no tempo real, mas também traz uma verdade que é difícil de construir em outras condições. Queríamos mostrar não só o resultado final, mas o processo, a interação entre os músicos, a energia do coletivo. Uma big band é isso: um grupo grande de pessoas criando juntas ao mesmo tempo. O vídeo acaba funcionando como um documento desse encontro.

A Americana Jazz Big Band nasceu no interior de São Paulo, fora do eixo mais tradicional das grandes formações instrumentais. Que força existe em construir esse tipo de trabalho longe dos grandes centros?
Existe uma força muito grande, porque vem de uma necessidade real. O interior paulista tem uma proximidade importante com centros de formação como Campinas, São Paulo e Tatuí, o que faz com que haja muitos músicos extremamente qualificados na região. Ao mesmo tempo, faltam espaços estruturados para que essas formações de grande porte existam de forma contínua. A big band nasce justamente dessa lacuna — como um espaço de pertencimento, de criação coletiva. Construir isso fora dos grandes centros é também afirmar que essa produção pode existir em outros territórios, com identidade própria.
Ao lançar “Dindi” e preparar o álbum de estreia, que lugar vocês sentem que a big band quer ocupar hoje dentro da música brasileira: preservação, reinvenção ou justamente a ponte entre as duas?
A gente acredita muito nessa ideia de ponte. Existe um compromisso claro com a preservação — no sentido de manter viva uma linguagem, uma tradição que é muito importante. Mas isso só faz sentido se vier acompanhado de um olhar contemporâneo, de uma vontade de reinventar e dialogar com o presente. Nosso trabalho tenta justamente equilibrar essas duas coisas: respeitar a história e, ao mesmo tempo, propor novas formas de escuta. Talvez esse seja o lugar que buscamos ocupar hoje.

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