Marcel Bennet explora guerra, memória e humanidade em Pássaro de Fogo – O Talismã de Yelnya

Luca Moreira
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Marcel Bennet
Marcel Bennet

Em Pássaro de Fogo – O Talismã de Yelnya, o autor Marcel Bennet conduz o leitor ao front soviético da Segunda Guerra Mundial para acompanhar a trajetória de Pavel Mchailovich Petrov, um jovem cuja vida é violentamente atravessada pelo conflito. Entre o amor interrompido, o amadurecimento forçado e o horror das ruínas de Stalingrado, a obra articula lirismo, realismo histórico e reflexão existencial para investigar os limites da compaixão e da moralidade em tempos extremos. Em entrevista, Bennet fala sobre a construção dessa narrativa marcada por guerra, memória e esperança.

Em Pássaro de Fogo – O Talismã de Yelnya, a guerra não aparece apenas como cenário histórico, mas como um abalo profundo da alma humana. O que mais te interessava investigar nesse encontro entre violência externa e conflito interno?

Há aspectos humanos íntimos que estão destinados, por razões várias, a permanecer ocultos em condições de normalidade. A guerra e outros abalos da teia de relações na qual o indivíduo se insere, surgem como janelas de observação da real natureza individual e da sociedade como um todo. São estes, sem dúvidas, aspectos de grande interesse no desenvolvimento da obra.

Pavel é apresentado primeiro como um jovem comum, com sonhos, estudos e um amor proibido, antes de ser tragado pelo front. Por que era importante mostrar, com tanta clareza, quem ele era antes da guerra?

Para dar a conhecer, por contraste, a profundidade do abismo em que a guerra pôde lançar aquele homem, e a dor que o marcou pela perda de seu futuro promissor. Mas, também, para trazer à luz a inteireza de sua dimensão humana, na paz e na guerra.

A relação entre Pavel e Irina parece funcionar como um último elo com a vida que existia antes da devastação. Que papel esse amor exerce na construção emocional do personagem ao longo da narrativa?

Irina é a lembrança mais candente, o amor não plenamente realizado e a despedida que não houve. É a frase que, pelo desencontro derradeiro, jamais foi dita. Por isso ele insiste, contra todas as possibilidades, em buscá-la em meio as ruínas. Irina é sua esperança irracional, mas também seu mais forte estímulo na luta pela vida.

Em Stalingrado, o protagonista enfrenta não só o inimigo, mas também a fome, o frio, o isolamento e a dúvida moral. Como foi escrever um personagem que precisa sobreviver enquanto luta para não se desumanizar?

É uma bela pergunta. Do ponto de vista da criação, tais condições dão ensejo a grandes possibilidades, na medida em que se mergulha no mundo, na mente e na pele do protagonista. São situações intensas, que demandam imersão profunda e narrativa visceral. Pessoalmente, acho muito gratificante fazê-lo.

Marcel Bennet
Marcel Bennet

Sua escrita combina lirismo, introspecção e realismo histórico. Como você encontrou esse equilíbrio entre a dureza brutal da guerra e uma linguagem tão sensorial e poética?

Considero importante retratar a realidade de forma objetiva, sem deixar, entretanto, de oferecer minha visão a respeito. Procuro fazê-lo, portanto, como proposta, não como realidade acabada.  Talvez o equilíbrio resida na aceitação humilde dos diversos significados possíveis a um mesmo objeto, a depender da visão do observador.

O livro levanta uma pergunta muito forte: ainda há espaço para compaixão em meio à destruição? Essa foi a principal inquietação que guiou a escrita ou ela surgiu no caminho?

Acredito que a ideia, ainda embrionária, tenha contribuído na construção do contexto propício à sua realização.

Ao tratar de identidade, destino e amadurecimento forçado, a obra parece ir além do romance de guerra e tocar em questões universais sobre a condição humana. O que você espera que o leitor reconheça de si mesmo na jornada de Pavel?

Creio que há um Pavel obstinado e lutador em cada um de nós. Alguns despertos e em plena ação; outros, ainda adormecidos. Mas, todos eles com potenciais únicos a serem realizados em favor de uma vida mais plena. É nessa possibilidade de vir a ser, apesar das adversidades, que o leitor há de se identificar com Pavel Mikhailovich Petrov.

Mesmo atravessando ruínas, perdas e contradições, sua fala aponta para um vislumbre de esperança no final. Para você, de onde nasce essa esperança quando tudo ao redor parece ter desmoronado?

O desânimo leva ao lamento e à prostração, mas a esperança nos ergue e convida à ação. A esperança nasce da fé, e fé é virtude de coração lutador. Sejamos, a despeito do caos e da desesperança que nos cerque, bons lutadores!

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