Quando ouvir não é suficiente: Como o Treinamento Auditivo Neurocognitivo pode melhorar atenção, memória e aprendizagem

Rodolfo Gomes
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Dificuldades para compreender comandos, manter a atenção ou acompanhar o ritmo escolar podem estar relacionadas à forma como o cérebro processa os sons. Especialista explica como a escuta pode ser treinada e quais impactos isso gera no desenvolvimento.

Ouvir bem não significa, necessariamente, compreender bem.

Na prática clínica, é comum encontrar pacientes, especialmente crianças, que apresentam audição preservada nos exames tradicionais, mas ainda assim enfrentam dificuldades para entender instruções, manter a atenção, acompanhar conversas ou avançar com mais segurança no ambiente escolar.

Nesses casos, o problema pode não estar no ouvido em si, mas na forma como o cérebro recebe, organiza e interpreta as informações sonoras.

Esse processo é chamado de Processamento Auditivo Central (PAC) e envolve habilidades como discriminação de sons, compreender a fala na presença de ruído, memória auditiva, atenção e capacidade de organizar o que foi ouvido. Quando essas funções não estão bem desenvolvidas, os impactos podem aparecer de formas bastante diferentes, desde dificuldades de aprendizagem até sinais frequentemente confundidos com desatenção ou desinteresse.

“A pessoa escuta, mas não consegue transformar esse som em informação de forma eficiente. Isso interfere diretamente na comunicação, no desempenho escolar, no trabalho e nas relações sociais”, explica a fonoaudióloga Andréa Paz, Pós-Doutora e especialista em audiologia e processamento auditivo.

Segundo ela, é importante entender que ouvir é apenas uma parte do processo. A compreensão depende de uma série de circuitos cerebrais que precisam funcionar de maneira integrada.

“O cérebro precisa organizar aquilo que escuta. E essa organização pode ser estimulada. Quando falamos de Processamento Auditivo Central, estamos falando também de atenção, memória, linguagem e cognição”, afirma.
Nos últimos anos, os avanços da neurociência têm reforçado a importância de olhar para a audição de forma mais ampla. O conceito de neuroplasticidade, por exemplo, mostra que o cérebro tem capacidade de se reorganizar a partir de estímulos adequados, o que abre espaço para intervenções mais direcionadas e eficazes.

Foi a partir dessa integração entre ciência e prática clínica que Andréa desenvolveu o Treinamento Auditivo Neurocognitivo (TAN), abordagem que busca estimular não apenas a escuta e o Processamento Auditivo Central, mas também funções cognitivas associadas ao processamento das informações sonoras.

“O tratamento precisa ter estrutura. Cada paciente precisa ser avaliado e acompanhado de forma individualizada, com objetivos claros e uma sequência terapêutica coerente. Quando isso acontece, os resultados tendem a ser mais consistentes”, explica.

Para a especialista, um dos desafios da área ainda é justamente a falta de organização nos processos terapêuticos.

“Muitos profissionais têm conhecimento técnico, mas ainda trabalham sem um método bem estruturado. Isso pode dificultar tanto a evolução do paciente quanto a segurança clínica de quem atende”, afirma.

A tendência, segundo ela, é que a área caminhe cada vez mais para abordagens integradas, que levem em conta não apenas a audição isoladamente, mas o funcionamento global do paciente.

“A escuta está profundamente conectada à forma como aprendemos, nos comunicamos e interpretamos o mundo. Quando olhamos para isso com mais profundidade, ampliamos também as possibilidades de cuidado.”

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