Projetos internacionais exigem adaptação técnica para viabilização no Brasil

Rodolfo Gomes
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Diferenças normativas, operacionais e de execução fazem com que projetos concebidos no exterior passem por ajustes estruturais antes da obra, etapa que pode representar até 15% do esforço técnico e impactar diretamente prazo e custo.

A execução de empreendimentos desenvolvidos no exterior tem se tornado cada vez mais comum na construção civil brasileira, especialmente em obras ligadas a marcas globais. Esse movimento, no entanto, traz uma camada adicional de complexidade: a necessidade de ajustes para que essas soluções funcionem dentro das normas, condições operacionais e do contexto construtivo do país, sem comprometer o padrão original.

Na prática, isso significa que a concepção, muitas vezes baseada em outras referências normativas, métodos construtivos e padrões de materiais, precisa passar por um processo estruturado de viabilização antes do início da obra. Em empreendimentos de hotelaria ou corporativos, por exemplo, é comum que sistemas, especificações e até soluções executivas sejam revisados para garantir eficiência na aplicação no Brasil.
Segundo dados do SindusCon-SP, a etapa de integração entre engenharia e execução pode representar até 15% do esforço técnico total em obras de maior complexidade, considerando ajustes, revisões e coordenação entre disciplinas. Em empreendimentos com padrão internacional, esse percentual tende a ser ainda mais relevante, especialmente quando não há alinhamento prévio entre concepção e obra.

Para Celso Zaffarani, CEO da Zaffarani Design Build, essa etapa é determinante para o sucesso da obra.
“Quando um projeto vem de fora, ele já está resolvido conceitualmente. O desafio está em garantir que ele funcione no Brasil, respeitando normas técnicas, métodos construtivos e condições reais de execução, sem perder o padrão global”, afirma.

Diferenças normativas e operacionais

Projetos desenvolvidos em mercados como Estados Unidos e Europa seguem códigos técnicos, padrões de segurança e critérios de desempenho que nem sempre têm correspondência direta no Brasil. Isso exige revisões em sistemas estruturais, especificações de materiais, instalações e soluções construtivas.

Além da parte normativa, fatores operacionais também influenciam nesse processo. Condições climáticas, disponibilidade de mão de obra especializada e comportamento de uso dos espaços impactam diretamente a forma como a obra precisa ser conduzida. Quando esses pontos não são considerados desde o início, aumentam os riscos de retrabalho, atrasos e elevação de custos.

Segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV), falhas de integração entre concepção e execução estão entre as principais causas de aumento de custo na construção civil, podendo gerar impactos superiores a 10% no orçamento final em obras complexas.

“Não se trata de alterar o projeto, mas de traduzir tecnicamente aquele conceito para a realidade local. Cada decisão precisa preservar o desempenho e a intenção original, mas ao mesmo tempo garantir viabilidade”, diz Zaffarani.

Integração como fator de eficiência

A necessidade de ajustes reforça a importância da integração entre engenharia e execução desde as fases iniciais. Estruturas desenvolvidas de forma fragmentada tendem a gerar incompatibilidades que só aparecem durante a obra, com impacto direto em prazo e custo, muitas vezes com correções mais onerosas.

O uso de ferramentas como o BIM (Building Information Modeling) tem contribuído para reduzir essas falhas. Estudos do setor indicam que empreendimentos com maior nível de integração podem reduzir o retrabalho em até 20%, além de melhorar a previsibilidade do cronograma.

Ainda assim, especialistas apontam que a tecnologia não substitui a validação prática e a tomada de decisão técnica ao longo da execução.

Crescimento da demanda

Com a expansão de redes internacionais e o aumento de obras com padrão global no Brasil, a tendência é que esse tipo de viabilização se consolide como uma etapa cada vez mais estratégica dentro da construção civil.
Dados da CBIC indicam que empreendimentos com maior nível de exigência técnica e governança vêm ganhando participação no mercado, especialmente nos segmentos corporativo e de hotelaria, elevando o nível de exigência e profissionalização do setor.

Para Zaffarani, esse movimento reforça a importância da execução bem planejada.

“O projeto precisa funcionar na prática. Quando essa adaptação é bem feita, a obra ganha previsibilidade. Quando não é, o problema aparece depois e normalmente com custo maior”, afirma.

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