Borges lança “O Sol Também Chora”, álbum manifesto com Emicida, BK, Teto, Duquesa e Ryu The Runner

Rodolfo Gomes
4 Min Read

Lançado nesta quarta-feira, 28 de janeiro, o novo álbum de Borges, “O Sol Também Chora”, chega como um dos projetos mais profundos, ambiciosos e simbólicos do rap nacional recente. Com participações inéditas de Emicida, BK, Teto, Duquesa e Ryu The Runner, o disco ultrapassa o território musical e se consolida como um manifesto sócio-político, espiritual e geracional.

Mais do que rimas, Borges entrega discurso. O álbum representa o homem preto que venceu o improvável, mas que compreende que sua vitória ainda é exceção dentro de um sistema estruturalmente desigual. Suas letras caminham pela tensão entre sobrevivência e propósito, fé e fúria, glória e culpa, revelando um artista consciente do peso simbólico que carrega.

Borges fala do gueto não como quem quer fugir, mas como quem o carrega nas costas. Essa postura o aproxima de pensadores e líderes como Malcolm X, Martin Luther King, Nelson Mandela, além de referências brasileiras como Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez e Mano Brown — todos enxergando o negro como agente de transformação, e não apenas como símbolo da dor.

A faixa “Guetto Gospel” sintetiza esse espírito ao declarar:

“Eu sou Martin, não sou Gandhi, eu tenho uma arma comigo.”
A frase evoca o enfrentamento de Malcolm X, mas logo se cruza com o dilema de Martin Luther King: a fé, o sofrimento e o desejo de redenção. Essa dualidade atravessa todo o álbum e faz de “O Sol Também Chora” uma obra que transcende o rap para se tornar a voz de uma geração.

O conceito do título

“O Sol Também Chora” traduz o coração do projeto: até a luz sente dor. Borges fala da solidão de quem brilha, da fé testada e do preço de ser grande. Assim como o sol, ele ilumina, mas queima por dentro. O sol simboliza poder, fé, verdade e renascimento, mas também exposição, cansaço e sacrifício — uma metáfora direta para o artista que ascendeu, inspira multidões, mas carrega o peso do caminho.

Versos como “Seja como o sol que ilumina todos, mas vai recuar” (Seja Como o Sol) e “No deserto eu não posso chorar” (Guetto Gospel) reforçam a mensagem central do álbum: a certeza de que, apesar da dor, o sol continuará a brilhar amanhã.

Estética e narrativa visual

A identidade visual do projeto segue uma colorimetria narrativa ancestral, onde:
• Tons terrosos (marrom) representam origem, corpo, ancestralidade e chão;
• Vermelho escuro simboliza o sangue, a luta e o sacrifício;
• Amarelo-alaranjado traduz a luz divina, o renascimento e a fé.

Essa tríade remete diretamente às estéticas dos movimentos negros, às bandeiras de libertação e ao poder ancestral africano, criando uma mitologia própria que atravessa clipes, fotografias, figurinos e cenários.

Borges se apresenta como um líder de um novo tempo, não por vaidade, mas por necessidade histórica. Suas letras soam como sermões contemporâneos, onde o sagrado e o profano coexistem. Ele é o pregador da rua, o sol que aquece, ilumina e também sangra.

“O Sol Também Chora” não é apenas um álbum — é o nascimento de um movimento estético, espiritual e cultural. Um evangelho moderno do gueto, feito de fogo, ouro e verdade. O retrato do artista que virou mito, mas nunca deixou de lembrar que é humano.

Borges dá à luz o sol de uma nova era.
Um sol que brilha.
Um sol que queima.
E um sol que chora por todos nós.

(Fotos : Arquivo Pessoal)

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