Voz da Bela no clássico da Disney, Ju Cassou comenta jornada artística multifacetada

Luca Moreira
13 Min Read
Ju Cassou (Rinaldo de Oliveira)

Ju Cassou, artista cuja carreira transcende a música, abraçando teatro, direção musical e até dublagem. Sua trajetória musical, enraizada desde a infância, se entrelaça com uma paixão pela performance no palco. A música é a essência, desde a alfabetização musical aos estudos eruditos e formações em jazz. A diversidade de suas experiências artísticas é o fio condutor que a levou a explorar novos horizontes, inclusive na dublagem brasileira da icônica personagem Bela no clássico “A Bela e a Fera” (1991) da Disney. Afinal, quem poderia amar uma fera?

Essa jornada, que incluiu colaborações com grandes nomes da música brasileira, a levou a formar e dirigir grupos vocais inovadores e a explorar sua paixão pela educação musical. Para Ju Cassou, compartilhar conhecimento é uma via de aprendizado mútuo, uma maneira de proporcionar a realização de sonhos musicais para seus alunos. Seus projetos recentes, entrelaçados com a valorização da cultura indígena e seu papel como mulher e artista, prometem continuar a enriquecer o cenário cultural brasileiro.

Você teve uma carreira musical e trabalhou como atriz de teatro e dubladora. Como essas diferentes facetas artísticas influenciaram sua jornada criativa ao longo dos anos?

Sim, a música é como o ar que respiro, o piano é meu braço e meu porto seguro. Fui musicalizada aos 5 anos de idade antes de ser alfabetizada, aprendi a ler/escrever música antes de ir para a escola. Aprender a Linguagem Musical desta forma fez uma grande diferença na minha relação com a Música de forma geral, gerou uma intimidade muito mais profunda com o som. Sem considerar que a formação da percepção e da memória musical foi gigante!

Estudando piano erudito, teoria e harmonia, depois Faculdade de Música, tocando música popular e jazz, trabalhando com grupos vocais no Rio de Janeiro, tudo isso me encaminhou às outras artes, o teatro, a dança, a dublagem. Costumo dizer que entrei pela “janela da Música”! O exercício da performance no palco em shows sendo dirigida por grandes atores como Pedro Paulo Rangel, fazendo preparação vocal para elencos de teatro, naturalmente me inseriu nessa diversidade artística profissional.

Você integrou o grupo vocal Garganta Profunda no Rio de Janeiro. Como isso aconteceu e como te influenciou artisticamente?

A “Orquestra de Vozes Garganta Profunda” foi um grupo totalmente inovador na época que trazia uma postura teatral para o canto coral/vocal. Um grupo totalmente performático, aproveitava todas as habilidades de cada integrante (no meu caso era instrumentista e tocava clarineta, escrevia alguns arranjos, ajudava a ensaiar os naipes, além de cantar), explorava recursos bem-humorados, e sobretudo era totalmente democrático. Preconceito zero. Assim me criei “Artista” com letra maiúscula com total liberdade. O regente Marcos Leite me conheceu num festival em Londrina e depois me convidou para o grupo. Terminei a Faculdade de Música e me mudei para o Rio. Foi a decisão mais acertada em minha vida.

Além de sua carreira como artista, você também se envolveu no ensino de música. Quais são os aspectos mais gratificantes de compartilhar seu conhecimento musical com outras pessoas?

Quando eu ainda cursava formação técnica de piano, aos 14 anos, comecei a ensinar o instrumento para criança de 5 anos, exatamente como aconteceu comigo! Nunca mais deixei um dia de dar aula de Música! Trabalho com todas as idades, do iniciante ao profissional que quer se aprimorar, no piano/teclado e no canto. Ensinar é aprender, é compartilhar, é olhar e ouvir o outro, é estar constantemente se observando. Não há maior alegria do que proporcionar ao outro a realização de um sonho. Ser uma facilitadora encurtando caminhos com ferramentas sólidas e divertidas é meu maior prazer!

Seu primeiro álbum solo, “Muito Prazer”, contou com a participação especial de Jorge Benjor. Pode compartilhar conosco como essa colaboração aconteceu e qual foi o destaque desse projeto para você?

Quando eu estava produzindo o “Muito Prazer” fui convidada a participar do Projeto Novo Canto, onde o artista novo fazia seu show e o seu “padrinho” abria o show. Tive que buscar um padrinho. A 1. Canção que aprendi a cantar quando criança foi Chove chuva! Pois adorava o  Topo Gigio! Assim fui buscar contato com Benjor, enviei meu material e ele topou ser meu padrinho no projeto. Fizemos um show lindo (está no meu canal Youtube )! Então o convidei a cantar comigo a música Paz e Arroz, dele, que abria o álbum. Tudo fluiu naturalmente! Estar no palco e no estúdio com seu ídolo é um privilégio para poucos, são momentos eternos na memória e no coração. Escrevi os arranjos de Muito Prazer, produzi e contei com músicos incríveis tanto na gravação quanto nos shows. Delícia!

Você dublou a personagem Bela na versão brasileira do filme “A Bela e a Fera”. Como foi a experiência de dar voz a um personagem tão icônico da Disney?

Eu nunca tinha feito trabalho de dublagem e ter sido escolhida pela Disney USA através do meu teste foi mais um grande presente na minha carreira musical. O diretor quando chegou no Rio me ofereceu a oportunidade de fazer o teste presencial para dublar como atriz. E assim deu tudo certo! Confesso que não tinha naquele momento a dimensão desse trabalho, a repercussão que viria pela frente. Eu e a Bela temos infinitas afinidades, logo não foi nada difícil para mim mergulhar na interpretação: cultura francesa, amar livros, ter um forte laço com o pai, não ser muito “dentro dos padrões e opiniões” … foi um deleite viver essa história de coragem, respeito e verdadeiro amor sem se enganar pelas aparências.

Quantos álbuns você tem na sua carreira musical? Pode nos contar um pouco dos seus últimos projetos?

Tenho quatro álbuns de carreira e muitas colaborações com artistas cantando, tocando ou arranjando. Meus álbuns são Muito Prazer, Live in Germany, Koratã e Mborai, todos independentes e por mim produzidos/ arranjados. Colaborei com artistas como Fabiano Medeiros, João Pinheiro, Bete Caligaris, Sérgio Natureza, Bernard Fines, Daniela Spielmann, Guego Favetti. Também gravei álbuns com vários grupos que participei como “Garganta Profunda” e a banda alemã de música brasileira eletrônica “Riovolt”. A grande maioria desse material está disponível no Youtube e no streaming (Spotify, Deezer, Apple…).  Durante a pandemia lancei “Koratã”, um trabalho que vinha gestando há uns dez anos. Com capa do grande artista Elifas Andreato apresento composições próprias, parcerias, canções inéditas e algumas músicas em guarani (resgate da ancestralidade da minha avó paterna). Em 2021 fiz um projeto lindo “Mborai”! Transcrevi dez cantos sagrados guarani num livro trilingue de partituras com textos explicativos (guarani, português, inglês) que está disponível para livre download no meu site www.jucassou.com.br um registro de patrimônio para a educação, a pesquisa e os interessados pelo assunto. Deste repertório selecionei seis músicas e lancei um EP cantando em guarani, mas com arranjos Pop! É a cultura tradicional no mundo contemporâneo, trazendo de forma palatável ao grande público nossas raízes ainda tão pouco valorizadas.

Seu álbum “Live in Germany” foi gravado em um ambiente intimista com um pequeno grupo de músicos. Como foi a experiência de se apresentar dessa forma e como o público reagiu a essa abordagem mais íntima?

O “Live in Germany” foi gravado no teatro Pasinger Fabrik, em Munique, um teatro pequeno e aconchegante. Encontrei esses dois músicos brasileiros radicados lá, Gilson de Assis (percussionista carioca) e Márcio Tubino ( sax/flautas gaúcho ) e nossa sintonia musical foi incrível. Nesse trio existia um equilíbrio musical e energético! Tudo fluía muito bem entre ideias, execução, profissionalismo e alto astral. Vínhamos de uma série de shows e fechamos nesse teatro para a gravação do álbum. Gravamos em vídeo também, mas ainda não disponibilizei esse material. Com nossa experiência individual de tocar também em clubes de jazz estar próximo do público é só prazer! O público vibra com cada improviso, mergulha nas minhas interpretações, criando uma conexão muito especial.

Você também teve uma carreira na direção musical de peças e filmes. Pode compartilhar alguns dos desafios e recompensas desse aspecto da sua carreira?

Após a experiência de gravar muitos filmes fui convidada a fazer a direção musical de desenhos de empresas como Warner e Universal. É uma enorme responsabilidade que só foi possível por eu ter uma formação musical de base muito sólida e diversificada. Entre os desafios está encontrar cantores com timbres adequados, ter uma ampla rede de conhecimento de pessoas, ser muito ágil em produção e estúdio, conhecer profundamente a prática coral e ter o tato/sensibilidade para dirigir os cantores em estúdio conseguindo extrair o que eles têm de melhor. Não se trata apenas de belas vozes e afinadas, mas de interpretação a seguir uma referência já existente.

Como cantora, instrumentista e educadora fazer esse trabalho é uma realização completa pois oriento pessoas, estou trabalhando com a minha “língua número um” – lendo e expressando Música!

Ao longo de sua carreira multifacetada, quais foram os momentos mais memoráveis ou gratificantes para você?

Sem dúvida o show e gravação com Benjor, os festivais que toquei na Alemanha, temporadas de teatro como a peça “Nos tempos de Martins Pena” com Sérgio Britto, minha temporada de shows solo piano/voz na Sardenha, os shows com Garganta onde conheci grandes artistas queridos como Braguinha e o pianista Luiz Eça do Tamba Trio, com quem vim a estudar e ficamos muito amigos, e, assistir A Bela e a Fera – Disney on Ice“no Maracanazinho ouvindo minha voz no estádio lotado emocionando tanta gente! Inesquecível

Atualmente, você está envolvida em algum projeto novo ou emocionante que gostaria de compartilhar conosco?

Durante a pandemia conheci muitos artistas, músicos, escritores e indígenas de todo nosso Pindorama chamado Brasil. Fui convidada a participar do Mulherio das Letras e em seguida formamos o “Mulherio das Letras Indígenas”. Lançamos nosso Álbum Biográfico Guerreiras da Ancestralidade e temos levado saraus, rodas de conversa, atividades, em feiras literárias, universidades, escolas, teatros… Já somos mais de cem mulheres escritoras indígenas de inúmeras etnias e regiões do nosso território. Buscamos nosso espaço como doutoras, pedagogas, artistas, cientistas, contando nossas realidades e culturas através de nossos escritos.

Tenho escrito bastante e espero em breve lançar novidades. Também tenho projetos novos musicais tanto de gravação como livros. Apoiadores, empresas, interessados em conteúdos originais, liguem! Precisamos dar as mãos e produzir cultura, deixar nosso legado criativo e experiente para as próximas gerações!

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