Josanna Vaz, uma das primeiras brasileiras pretas a estrelar um filme americano, brilha na superprodução “Musica” do Prime Video, ao lado de Rudy Mancuso e Camila Mendes. Com uma carreira consolidada no exterior, especialmente no teatro de Nova York, Josanna planeja trazer seu sucesso internacional de volta ao Brasil com o espetáculo “Riven”. Este projeto, que narra a história de mulheres catadoras de lixo, foi dirigido por Marina Zurita e aclamado pela crítica na cena teatral nova-iorquina.

Desde que se mudou para Nova York em 2013 para estudar com Ron Stetson, mesmo mentor de Viola Davis, Josanna tem se destacado por sua arte. Nascida em Minas Gerais, ela iniciou sua carreira no grupo Nós do Morro e formou-se em artes cênicas na UFMG. No Brasil, ganhou reconhecimento por suas atuações em “Cinco Vezes Favela – Agora Por Nós Mesmos” e “Mais Vezes Favela”, ambos produzidos por Cacá Diegues, e em novelas da Record como “Ribeirão do Tempo” e “Os Mutantes”.

Além de sua atuação em “Musica”, onde canta suas falas em ritmo de maracatu, Josanna faz parte do grupo feminino “Samba das Carolinas”, que homenageia a autora Carolina Maria de Jesus. O filme marca um passo significativo em sua carreira, e a música da cena pode ser encontrada no Spotify, destacando ainda mais seu talento multifacetado.

Josanna Vaz continua a ser uma figura inspiradora, quebrando barreiras e trazendo a cultura brasileira para o palco internacional. Seu próximo projeto, “Riven”, promete impactar o público brasileiro da mesma forma que conquistou Nova York, reafirmando seu compromisso com a arte e a representatividade.

Você começou sua carreira no Brasil, com trabalhos importantes na televisão e no cinema. Como foi a transição para atuar em Hollywood e participar de grandes produções como “Musica”?

Eu vim para Nova York e comecei a estudar na The Neighborhood Playhouse, escola que ensina a técnica de Meisner. Continuei o curso com o Professor Ron Stetson, mesmo professor que treinou a Viola Davis. Ele é um mestre incrível. Comecei no teatro no Downtown Scene também conhecido como off Broadway, e fiz muito cinema independente. Tenho um perfil no Actors Access que é uma plataforma de atores daqui, e através dela recebi o convite para o teste do Música e passei.

Em “Musica”, você interpreta uma personagem brasileira e incorpora elementos culturais como o maracatu na sua atuação. Como foi esse processo de conexão com sua cultura em um ambiente tão distinto como Hollywood?

O filme se passa numa comunidade brasileira em Newark, Nova Jersey, onde o Rudy cresceu. Foi incrível fazer parte dessa história, conectar com a comunidade brasileira daqui, esse é o primeiro filme a falar da comunidade brasileira especificamente, com suas tradições e particularidades… Foi muito gratificante!

Você mencionou o espetáculo “Riven”, ou “Ruptura”, que foi um sucesso em Nova York e agora você planeja trazê-lo para o Brasil. Como surgiu a ideia para esse projeto e qual mensagem você espera transmitir através dele?

A Marina Zurita, diretora do projeto, em 2021 entrevistou as catadoras da cooperativa Filadélfia em São Paulo. A Marina é muito conectada com as questões ambientais e do humano, o embrião dessa peça vem dessas pesquisas e da inspiração que ela teve ao ler Mãe Coragem de Bertold Brecht. Ela convidou a mim e a Laila Garroni em 2022, para improvisarmos textos e ações das duas personagens a partir das entrevistas.

A mensagem que espero passar? É um pouco difícil responder essa pergunta, o artista faz a obra pela existência dela, a identificação pertence ao expectador. Mas para mim, Ruptura fala da imensidão de universos individuais que se cruzam e como ignoramos a maioria desses universos por preconceitos. Mas eles existem e sabem da nossa intimidade. Ruptura é uma história de humanidade.

Josanna Vaz (Alex Korolkovas)
Josanna Vaz (Alex Korolkovas)

Em seus projetos, você frequentemente destaca temas como representação e inclusão. Como você vê o papel da arte e do cinema na promoção dessas questões, especialmente para minorias e comunidades marginalizadas?

Acho que a função da arte é observar o tempo no qual ela existe e esta sendo concebida. A arte conta a historia de um povo para que erros passados não se repitam. É a expressão mais pura do ser humano. Ao mesmo tempo que entretém, sua função única não é ser entretenimento. Por isso fascistas não gostam de arte, e a atacam com veemência.

Você é uma das primeiras atrizes brasileiras pretas a atuar em Hollywood. Quais desafios você enfrentou ao longo dessa jornada e como você acredita que sua trajetória pode inspirar outras pessoas?

Acho que os maiores desafios foram de mim comigo mesma, me amar e acreditar em mim todos os dias sabe? O mundo já me diz que eu não sou bem-vinda desde pequena, então o trabalho a ser feito é não acreditar nisso e seguir em frente. E sempre, sempre se lembrar que as nossas ancestrais construíram um caminho lindo para a gente ter a certeza de que temos não só o direito, mas a honra de caminhar por ele. Somos honradas e Divinas.

Além da atuação, você também se envolve com projetos musicais, como o “Samba das Carolinas”. Como o samba e a música brasileira influenciam sua arte e sua vida pessoal nos Estados Unidos?

Samba das Carolinas é um Projeto da Priscila Santana para homenagear Carolina Maria de Jesus e tantas outras sambistas mulheres que existem no nosso samba. Samba faz parte de mim, vem dos meus ancestrais, sempre que está muito frio em Nova York, é o samba que com certeza, aquece o coração da gente. E enraíza, o samba lembra a gente de quem a gente é e isso é muito importante!

Josanna Vaz (Alex Korolkovas)
Josanna Vaz (Alex Korolkovas)

Você mencionou enfrentar racismo e xenofobia ao migrar para os Estados Unidos. Como essas experiências moldaram sua visão sobre a arte e sua identidade como artista brasileira e negra?

Uma vez eu fui na exposição da Tarsila do Amaral e na entrada da exposição tinha a seguinte frase dela: “Quero ser a pintora do meu país.” Essa frase me tocou muito, e eu comecei a pensar o quanto a cultura brasileira, que é majoritariamente Indígena e Africana, é difundida no mundo pelas pessoas brancas, que sim, são brasileiras e essa cultura é delas também, mas porque não dar aos povos originários dessa cultura o direito a difundi-la? A partir desse pensamento, eu me conectei cada vez mais com minhas raízes, e me descobri uma observadora de uma cultura não miscigenada, e como essa identidade cultural é de extrema necessidade para qualquer ser humano. O ser sem identidade cultural, vai atrás de cultura para se apropriar, e ao se apropriar ele mata, escraviza. Pois ele não tem contato com sua própria raiz, ele se perde, como Sobonfu Somé explica maravilhosamente no livro “O Espirito da Intimidade.” E foi assim que conheci e me aproximei da arte da performance. À partir da observação da sociedade na qual me encontro (uma sociedade extremamente divida), do meu ponto de vista enraizado no Brasil Negro e Originário. E é a partir daí que eu me expresso.

Quais são seus planos futuros na atuação e na arte? Há algum tipo de papel ou projeto específico que você ainda deseja explorar?

Planos futuros na arte? Continuar, arte é imortal e infinita. Tenho um projeto de performance, que quero muito explorar, mas ainda esta no plano das ideias. E quero fazer cinema brasileiro. Eu amo o cinema brasileiro! Os projetos mais concretos que já estão caminhando são a peça Ruptura, a peça Cariño Malo, a banda Samba das Carolinas e a performance Contos.

Como você vê o futuro da representação de artistas brasileiros e negros em Hollywood e na indústria cinematográfica global? Quais mudanças você gostaria de ver acontecer nos próximos anos?

As mudanças que quero ver são mulheres negras de pele retinta e corpos fora do padrão eurocêntrico em papéis principais. E também minhas irmãs trans. Eu quero ver o futuro com otimismo, sabendo que aos poucos o mundo esta descobrindo que o Brasil é a maior população de descendência africana fora da África, descobrindo que toda a América do Sul é povoada por nós também, e que nossos ancestrais criaram cultura e formas de se falar a língua. Então acho que vai ser brilhante, e cada um de nós vai abrir as portas para os que virão, num movimento ancestral que vem do mais profundo sentimento de amor.

Josanna Vaz (Alex Korolkovas)
Josanna Vaz (Alex Korolkovas)

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