Rizalva Elting transforma dor em recomeço na autobiografia “Vale a pena viver?”

Luca Moreira
13 Min Read
Rizalva Elting
Rizalva Elting

Marcada por abusos, rejeições e violência doméstica, Rizalva Elting aprendeu desde cedo a conviver com a pergunta que dá nome à sua autobiografia, Vale a pena viver?. No livro, a autora revisita uma trajetória atravessada por perdas, imigração para os Estados Unidos, preconceito e o difícil envolvimento do filho com drogas — até encontrar, no budismo e na recitação do mantra Nam-Myoho-Rengue-Kyo, um caminho de reconstrução interior. Em tom íntimo e confessional, Rizalva narra como transformou desespero em força, acompanhou a virada do filho Allan ao buscar disciplina no exército e enfrentou desafios de saúde, como miomas uterinos e o diagnóstico de Parkinson, ressignificando feridas em aprendizado. O resultado é um relato de fé, resistência e autoconhecimento que convida o leitor a concluir, junto com ela: sim, vale a pena viver.

Seu livro parte de uma pergunta muito direta e poderosa: “Vale a pena viver?”. Em que momento da sua trajetória essa pergunta se tornou mais urgente para você?

Esta pergunta sempre foi uma constante na minha vida, porque eu indagava a Deus por ter nascido católica. Eu perguntava: por que eu tive que nascer? Por que eu passo por tantos problemas? E, principalmente, por que sou obrigada a viver? Eu não encontrava resposta. Eu sempre perguntei a Deus por que Ele não era justo comigo, sendo que eu era uma boa pessoa, fazia tudo direitinho. Então, essa pergunta se tornou uma urgente. Agora, a resposta eu encontrei em um determinado momento, em que comecei a recitar que não sou melhor que ninguém. Então, tudo ficou muito claro.

Existe um princípio básico budista que diz que tudo é causa e efeito. Tudo que a gente vivencia, que a gente chama de problema, diante da visão que a gente tem, é o resultado de uma causa. Quando ela foi feita em vidas passadas, vem nessa existência como carma imutável, como uma doença, como esse Parkinson. Hoje entendo que o Parkinson eu adquiri com tanta tensão, tanto sofrimento dessa vida. Mas pode ser que seja genético, já venha de outras existências.

Então, a resposta dessa pergunta é que me fez refletir e encontrar o sentido e dizer para mim mesma e para as pessoas que vale a pena viver.

Ao revisitar episódios tão dolorosos da infância e da vida adulta — como abusos, rejeições e violência conjugal — o que foi mais desafiador emocionalmente no processo de escrever essa autobiografia?

Tudo, porque eu vivia numa constante de sofrimento. Às vezes, a alegria por um lado, para aliviar a dor que existia por outro. Como eu sou terapeuta emocional TRG, nessa terapia, nós trabalhamos as vivências sofridas do passado. Reprocessando cada uma. E, quando eu escrevi esse livro adoeci muito. Eu me senti tão mal. Vomitei muitas vezes. Tive muita dor de cabeça. Tinha noites que eu não dormia. Então, foi na época que eu estava estudando a terapia TRG, para me tornar terapeuta, que eu trabalhei em mim mesma, reprocessando todas essas experiências.

Para mim, quando eu terminei o livro, quando eu vi as caixas chegarem com os livros, foi um alívio tão grande de todo aquele peso que eu trazia comigo, que eu caí no choro. Eu chorei como se estivesse lavando minha alma. Como se tivesse concluído com a missão e o propósito dessa existência. Foi muito gratificante, foi muito bom e bonito sofrer e viver essa vitória.

Muitas pessoas acreditam que formar uma família é sinônimo de proteção e recomeço. Quando essa expectativa também se frustrou para você, o que a fez seguir em frente em vez de desistir?

A fé transcende qualquer limite do que a gente acredita. Ela é infinita.  E confio na lei mística e acredito no meu potencial. Quando eu oro no meu Rorengueki, eu ativo o potencial inerente de muita força, coragem, superação e resiliência. Então, o que fez eu seguir em frente foi a fé de nunca desistir.

Tem uma passagem dos estudos budistas que diz, se você precisa de 12 dias para viajar de Kamakura a Kyoto, no Japão, no caso, se você desistir não verá a linda lua da capital. Então, eu apliquei isso na minha vida de forma que eu só desisto quando se esgota todas as possibilidades. Isso foi um exercício constante na minha vida. Pela luta e no fim eu pude experimentar a vitória como resultado. Mas por quê? Porque eu nunca desisti.

A imigração para os Estados Unidos surge no livro como uma tentativa de reconstrução, mas também trouxe novos obstáculos. Que tipo de preconceito e solidão mais marcaram esse período da sua vida?

Na vida da gente, dizem que quanto maiores são os objetivos, maiores são os obstáculos. Quanto maiores são os obstáculos, maiores são as vitórias. Então em qualquer lugar do mundo, não somente nos Estados Unidos, a gente vai ter problemas e ter que pensar muito.

Minha vida toda foi marcada por alegrias, tristezas e problemas. É muito comum dos seres humanos, de todas as pessoas. Então esse tipo de preconceito e solidão eu encaro dessa forma, em qualquer lugar do mundo. O problema não é o que eles fazem com a gente, mas o que fazemos com o que eles fazem. Então só vou sofrer diante desses problemas, preconceitos e solidão a depender da maneira que eu vejo, encaro e sinto.

No caso, uma pessoa preconceituosa, uma pessoa que despreza, sempre vai ter na vida da gente. Mesmo que eu tenha superado aquelas que passaram, já tenho a sabedoria para continuar lidando com os que ainda estão presentes até o último dia da minha vida.

A história do seu filho Allan ocupa um lugar muito forte na narrativa. Como foi, para você, acompanhar a queda dele e, depois, presenciar essa virada tão significativa por meio do exército?

Antes de tudo eu quero mencionar o orgulho que tenho por ter colocado no mundo seres humanos tão brilhantes como são os meus filhos. Allan me deu carta branca para falar o que for necessário sobre ele, sobre a vida dele, para que ajude as pessoas. Isso para mim é muito importante.

Eu vi Allan passar por todo esse processo de droga e dessa virada significativa por meio do exército, estava na vida dele. Eu entendo que de alguma forma ele fez causas e eu fiz causas para ter um filho passando por essa situação. E ele ter escolhido ir para o exército, naquele momento, era o que o coração dele pedia.

Hoje ele diz que acha que toda pessoa deveria servir ao exército para ter o senso de organização de uma maneira geral. Mas ele responde por ele, não pelas pessoas. Existem pessoas que já tenha essa vida com tanta disciplina sem precisar passar pelo exército.

Então eu vejo isso como realmente significativo. Ele por si conseguir tirar conclusões dele e nada mais e nada menos é o que ele aprendeu de mim. Por isso a minha responsabilidade é muito grande diante de toda a humanidade, de todos aqueles que me escutam e que leem o que escrevo a partir da minha experiência.

O budismo e a recitação do mantra Nam-Myoho-Rengue-Kyo aparecem como pilares da sua reconstrução interior. Como essa prática transformou, na prática, a forma como você lidava com a dor e o medo?

No momento em que recito Nam-Myoho-Rengue-Kyo, eu me sinto empoderada, porque ativo as forças inerentes na minha pessoa, como coragem, compaixão, determinação, etc. Nam-Myoho-Rengue-Kyo é energia vital que utilizo para o que preciso em termos de determinação. Tudo o que está contido nessa determinação eu posso agir com energia vital.

Nem santos nem sábios estão livres de sofrimento e dor. A dor é inevitável, mas o sofrimento é uma escolha. Uma vez que eu aprendo como lidar eu só preciso agir. E com a energia vital proveniente da Nam-Myoho-Rengue-Kyo enfrento os medos e todo o tipo de sentimento que são contrários ao meu caminho rumo a felicidade. E outra coisa, o medo é necessário, ele impulsiona para que eu aja corretamente, com coragem e determinação. Nós aprendemos a sermos felizes, encarando a dor como um fator normal da vida.

Além das feridas emocionais, você enfrentou desafios físicos importantes, como os miomas uterinos e o diagnóstico de Parkinson. De que maneira a espiritualidade ajudou você a atravessar também essas batalhas do corpo?

Para fortalecer a minha fé, para ativar o meu interior, o entendimento que nascer, crescer, adoecer e envelhecer faz parte da vida. O importante é estudar para ter conhecimento, porque ele liberta. Eu não me sinto condenada pelo Parkinson, agradeço a oportunidade de poder incentivar as pessoas a encararem a vida de outra forma. Isso que chamamos de felicidade. Então se não for o Parkinson vai ser outro tipo de doença.

Eu já estou com 71 anos e me sinto super saudável, porque o meu corpo responde a minha mente e ao meu coração. A essa altura do campeonato eu já eliminei todo e qualquer sentimento pesado e sujo que não vale a pena carregar. E posso dizer com toda certeza e vivência que ser assim é a melhor maneira de ter uma vida de paz, alegria, contemplação, gratidão e uma felicidade absoluta.

Ao fechar o livro com a afirmação de que, sim, vale a pena viver, que mensagem você gostaria que chegasse especialmente às pessoas que hoje se sentem no mesmo lugar de desespero que você já esteve?

A mensagem que passo para as pessoas é que lendo o livro, escutando ou vendo essa entrevista, elas se sintam estimuladas a viver esse tipo de vida, porque é possível. Com a recitação do Nam-Myoho-Rengue-Kyo, rompemos as barreiras do impossível. O possível está ao alcance de todos. Então você recita o Nam-Myoho-Rengue-Kyo e com certeza você chega à conclusão que vale a pena viver. Agrega fé, prática e estudo para compreender que você será imensamente feliz. Esse é o meu desejo, porque a lamparina que clareou o meu caminho, vai clarear o seu também.

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