“Rascunhos”, a mais recente obra de Marcelly Tatiani, transcende a fronteira entre leitor e escritor, convidando o público a se tornar parte da narrativa. Cada capítulo desse livro singular apresenta um poema que mergulha em temas universais da experiência humana, acompanhado por uma página em branco pronta para ser compartilhada com a autora.
Por meio dessas páginas, as dores de um amor não correspondido, a busca incessante por liberdade nas nuances do cotidiano, a exploração dos significados da vida, a solidão que acompanha o crescimento e a vertiginosa passagem do tempo ganham vida. As palavras de Tatiani também exploram os meandros das amizades, o impacto do sentimento de insignificância e a delicadeza das despedidas.
Este conjunto de 41 textos poéticos, carinhosamente chamados de “rascunhos” pela autora, foi gerado ao longo de diferentes etapas de sua jornada. Desde a infância, quando ela começou a criar, até os anos que se seguiram após obter sua graduação em Letras e sua pós-graduação em Jornalismo Institucional, essas palavras foram meticulosamente guardadas. Agora, ganham vida no papel enquanto mantêm a pureza e a autenticidade daqueles momentos em que foram concebidas.
Por meio dessa obra, Marcelly Tatiani não somente confere uma nova roupagem a sentimentos há muito aprisionados, mas também os liberta, abrindo espaço para que novas experiências possam florescer. Este é um ato profundamente pessoal, mas também atua como um guia para os leitores refletirem sobre suas próprias jornadas, reacendendo as emoções que residem silenciosamente ao longo do tempo. “Rascunhos” é mais que um livro, é uma viagem compartilhada pelo vasto terreno da existência.
O conceito de “Rascunhos” é bastante único, convidando os leitores a se tornarem co-autores ao preencherem as páginas em branco junto com você. Como surgiu a ideia de criar essa experiência interativa com os leitores?
A escrita, para mim, sempre foi algo libertador e funcional. Na adolescência comecei a estruturar como seria um possível livro meu e surgiu essa ideia de deixar uma página em branco para que os leitores também pudessem experimentar a escrita libertadora.
Seus poemas abordam uma variedade de temas universais, desde dores amorosas até reflexões sobre o sentido da vida. Como você escolheu esses temas e qual foi a sua inspiração para explorá-los?
Na verdade, quando comecei a escrevê-los, não tinha o autoconhecimento que tenho agora, até por causa da imaturidade da idade, esses temas foram nomeados para esconder algo mais profundo, o vazio existencial que sentia e não sabia identificar, por isso tentava encontrar algo que me fizesse entender o que eram aqueles sentimentos que faziam morada em mim. Acredito que a inspiração foi a busca pelo entendimento de sentimentos que me incomodavam e como um ato libertador, escrevia a mão sobre temas que eu achava pertinentes para ocasião.
O livro inclui poemas escritos em diferentes fases da sua vida. Como foi revisitar esses textos após anos e decidir compartilhá-los? Você fez alguma modificação nos poemas originais?
Durante anos, eu os escondi das pessoas, mas eu os revisitava sempre. Acreditava que se as pessoas tivessem acesso a eles, elas iriam identificar situações vividas em minha vida e sempre fui uma pessoa bem discreta, até que durante o processo de autoconhecimento, resolvi que iria publicá-los para atender a vontade da criança/adolescente que fui e prosseguir a minha vida de acordo com a mulher que sou hoje. Em algumas escritas, fiz pequenas alterações, mas quis deixar o mais parecido com o que escrevi originalmente.
A essência e a inocência dos momentos em que você escreveu os textos são mantidas no livro. Como você acha que essa autenticidade adiciona profundidade à experiência de leitura?
Algumas escritas me impactam até hoje, pelo fato de lembrar sobre o processo de escrita. Eu era muito intensa, ainda sou, mas hoje consigo perceber que, a essência deles se dá exatamente pelo fato de terem sido escritos em fases distintas, a partir dos meus 8 anos de idade.
“Rascunhos” parece ser uma jornada emocional tanto para você quanto para os leitores. Quais são os sentimentos que você espera que os leitores experimentem ao preencher as páginas em branco?
Não pensei em um único sentimento, pois o sentir é muito particular, mas o livro foi escrito para que os leitores escrevam o que eles acharem que deve ser escrito, sentimentos aprisionados para depois de algum tempo, serem revisitados e ressignificados. Espero que o leitor de “Rascunhos”, pratique, também, a escrita libertadora nas páginas em branco do livro ou em qualquer outra ferramenta.

A ressignificação de sentimentos aprisionados é uma parte importante do livro. Como você acha que esse processo pode impactar positivamente a vida dos leitores?
Muitas vezes, para nos conhecermos melhor é preciso dar um novo significado a nossa história de vida, acreditar que tudo o que vivemos é aprendizado, isso inclui os acertos e erros que cometemos ao longo de nossa jornada, esse processo nos traz mais segurança e clareza do que a gente verdadeiramente é.
Além de escritora, você é graduada em Letras e pós-graduada em Jornalismo Institucional. Como essas experiências acadêmicas influenciaram seu trabalho criativo?
“Rascunhos” antecede todas as minhas formações acadêmicas, mas hoje sei que ter cursado letras e a pós em Jornalismo foram muito importantes no meu processo de escrita, pois tenho um pouco mais de conhecimento durante a produção textual, na escolha das palavras, na coerência do texto, na transmissão da mensagem, todos esses fatores, também, influenciam o processo criativo.
A psicologia é uma área que você também começou a explorar. Como a compreensão da mente humana influencia sua abordagem à escrita e a criação de personagens?
Ainda não tive a oportunidade criativa de explorar o universo de uma personagem criada por mim depois que comecei a cursar psicologia. Tenho algumas histórias manuscritas que possuem personagens fictícios, com os seus processos naturais de vida escritas alguns anos atrás.
A psicologia é o meu propósito de vida e dedico quase todo o meu tempo livre em entender os conceitos que são apresentados nas aulas teóricas e nas supervisões, hoje assistir filmes ou ler livros que abordam questões psicológicas, por exemplo, me atraem muito. Pensar em desenvolver uma personagem baseada na compreensão que tenho sobre a mente humana é um desafio grande, não só pelo fato de a mente humana ser complexa, mas sim, pelo fato de ser estudante e ainda estar em processo de escolha sobre a abordagem teórica que seguirei como psicóloga.
“Rascunhos” permite que os leitores reflitam sobre suas próprias vivências. Você pode compartilhar alguma experiência pessoal que foi particularmente significativa para você enquanto escrevia o livro?
Acredito que estar em um transporte público com muitas pessoas ao meu redor e me sentir sozinha. Na verdade, os momentos que mais me sentia sozinha eram os momentos que eu estava rodeada de pessoas, pois me faziam refletir sobre o vazio existencial dentro de mim que na época nomeei como solidão e então escrevia. Sempre deixava um lápis e uma caderneta na bolsa, mesmo com o celular em mãos, poucas vezes usei o celular como ferramenta de armazenamento das minhas escritas.
Agora que “Rascunhos” foi lançado, você tem planos para futuros projetos? Podemos esperar mais livros interativos ou explorando outras formas criativas?
Tenho um projeto que sairá no final do ano: serei uma das coautoras do livro “As Donas da P*** Toda”, volume 4. No meu capítulo exploro um pouco do vazio existencial e a importância de ressignificar a sua história de uma forma bem objetiva e particular.
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