A produtora Kris Flink é uma das forças criativas por trás de An Old Friend, curta-metragem que vem conquistando reconhecimento internacional ao unir sensibilidade narrativa e apuro artístico. Estrelado por Tom Skerritt e Jason Faunt, o filme aborda temas universais como nostalgia, companheirismo e a passagem do tempo, em uma história que equilibra fantasia e emoção com delicadeza.
Na trama, um amigo imaginário descobre que sua missão de trazer felicidade à criança que protege agora se estende aos últimos momentos de um homem de 90 anos, criando um retrato tocante sobre memória, cuidado e despedida. Como produtora, Kris Flink esteve à frente da construção desse universo intimista, garantindo que cada elemento do filme sustentasse sua carga emocional e seu impacto humano.
O resultado se reflete no sucesso do curta no circuito de festivais, com seleções para eventos como o Hollyshorts Film Festival, Oxford Film Festival e Newport Beach Film Festival, além de importantes prêmios, incluindo Melhor Drama no SISFA 2025 e Melhor Ator para Jason Faunt no Puerto Aventuras International Film Festival. An Old Friend reforça o olhar apurado de Kris Flink para projetos autorais que dialogam com públicos diversos ao redor do mundo.
A premissa do filme é simples, mas profundamente universal. O que te convenceu de que An Old Friend era um projeto que precisava ser realizado?
A simplicidade foi exatamente o que me convenceu. No fundo, An Old Friend fala sobre tempo, memória e sobre como nos despedimos — experiências que tocam todo mundo. Quando li o roteiro, ele se conectou imediatamente à minha própria vida.
Meu pai sobreviveu a um infarto massivo que o deixou com uma perda severa de memória, e nossa família passou os últimos quinze anos da vida dele sem saber o que ele lembraria ou quanto tempo realmente ainda teríamos juntos.
Essa experiência transformou a forma como eu enxergo o envelhecimento, o legado e o valor dos momentos cotidianos. O roteiro compreendia essa verdade silenciosa — a de que as histórias mais significativas não precisam de espetáculo, apenas de honestidade. Naquele momento, eu soube que precisava fazer parte desse projeto.
Produzir um filme que transita entre o lúdico e o emocional exige escolhas de tom muito precisas. Qual decisão de produção mais moldou a identidade do curta?
Desde o início, tomamos a decisão consciente de não exagerar em nada — nem emocionalmente, nem visualmente, nem musicalmente. Permitimos que o humor existisse dentro de um tema sério, mas apenas quando isso soava natural e verdadeiro.
É tentador adicionar elementos para fazer um filme parecer maior, especialmente quando se tem poucos recursos, mas nós fizemos o oposto. Ao apostar na simplicidade e na contenção, tanto os momentos lúdicos quanto os emocionais puderam brilhar. Esse equilíbrio acabou definindo a identidade do filme.

Trazer Tom Skerritt para o projeto adicionou peso e prestígio. Como foi essa experiência e o que mais te impressionou na atuação dele?
Trabalhar com o Tom foi ao mesmo tempo humilde e inspirador. Ele se aproximou do projeto com uma generosidade incrível e um profundo respeito pela equipe e pelo processo do cinema independente.
O que mais me impressionou não foi apenas sua técnica — que é extraordinária —, mas sua contenção. Ele entendeu que o personagem William não precisava ser interpretado de forma expansiva. Ele trouxe décadas de experiência para gestos mínimos e, silenciosamente, nos orientou ao longo de todo o processo. Para um curta-metragem, ter alguém do calibre dele totalmente comprometido foi realmente transformador.
O filme está circulando por grandes festivais e conquistando prêmios. Como é ver esse reconhecimento refletir o cuidado investido no projeto?
É profundamente gratificante. Esse filme foi feito com intenção, vulnerabilidade e muito cuidado, muitas vezes em circunstâncias desafiadoras. Ver o público e os júris ao redor do mundo acolhendo a obra reforça que a honestidade emocional ainda importa.
O que mais significa para mim é a conexão. Depois de quase todas as exibições, alguém nos diz: “Esse era o meu pai” ou “É exatamente o que estou vivendo agora”. Saber que o filme ressoa dessa forma faz com que cada desafio tenha valido a pena.

Houve algum momento inesperado durante as filmagens que se tornou essencial para o resultado final?
Sim — o final. Inicialmente, planejamos duas versões diferentes e filmamos ambas. A equipe debateu intensamente qual caminho seguir, com opiniões fortes dos dois lados.
No fim, uma fala improvisada do Tom deixou a decisão clara. Aquele momento se tornou o eixo emocional do filme. Sem ele, acho que não teríamos chegado ao desfecho que alcançamos. Até hoje, essa fala afeta todos nós cada vez que assistimos ao filme. Um impacto assim não pode ser fabricado.
An Old Friend fala sobre memória e legado. Que legado pessoal você espera deixar com esse filme como produtora?
Espero que o filme reflita a importância de liderar com empatia. Como produtora, quero que meu trabalho honre a verdade emocional e trate as histórias — e as pessoas que as contam — com cuidado. Esse filme está profundamente ligado à minha relação com meu pai e à experiência de amar alguém durante o declínio e a perda.
Se ele incentivar ao menos uma pessoa a desacelerar, valorizar um momento ou se sentir menos sozinha em seu luto, então já terá superado todas as minhas expectativas. Esse é o legado que mais importa para mim.

Que conselho você daria a produtoras independentes que criam filmes íntimos com recursos limitados?
Transformem o pessoal no seu maior ativo. Quando o orçamento é curto, a verdade emocional se torna o valor de produção. O público percebe quando uma história nasce de uma experiência vivida.
Cerquem-se de colaboradores que acreditam na história tão profundamente quanto vocês, e não tenham medo do silêncio, da pausa ou da simplicidade. Quando os recursos são limitados, a autenticidade não é apenas útil — ela é essencial.
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