Nathan Fronza transforma dor e melancolia em força no single “Pessimismo da Razão”

Luca Moreira
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Nathan Fronza
Nathan Fronza

O cantor e compositor Nathan Fronza lança no dia 27 de fevereiro o single “Pessimismo da Razão”, faixa central do EP Paz, Pão e Terra, pela Marã Música. Inspirada na célebre frase de Antonio Gramsci, a canção traduz a melancolia como ponto de virada entre a paralisia e a retomada da esperança, refletindo um momento delicado da vida do artista. Em entrevista, Nathan revela que a música nasceu quando pensava em desistir de tudo, transformando a composição em um diálogo íntimo sobre dor, resiliência e recomeço. Com referências que transitam entre o rock, o R&B e influências como Jimi Hendrix e John Frusciante, o single une intensidade emocional e musical para propor uma mensagem clara: mesmo quando tudo parece perdido, ainda é possível encontrar força para continuar.

“Pessimismo da Razão” nasce de um momento muito delicado da sua vida e carrega uma carga emocional intensa. Em que ponto você percebeu que aquela dor poderia se transformar em música e, mais do que isso, em algo capaz de ajudar outras pessoas?

Na verdade a coisa apenas aconteceu, eu peguei a guitarra e a música simplesmente surgiu, veio tudo pronto na minha cabeça em tempo real, aí eu fiz uma gravação bem simples sem pretensão nenhuma. No dia seguinte eu acordei com a música na cabeça e aí eu parei pra escutar a gravação, e eu percebi que ela realmente carregava toda esta carga emocional. De vez em quando eu mostrava esta música para algumas pessoas ao meu redor e elas diziam que a música mexeu com elas, teve gente que chorou enquanto escutava. Agora chegou a hora desta música nascer oficialmente e eu espero que ela consiga tocar o coração das pessoas que estão sofrendo, especialmente as que estão prestes a desistir, assim como eu estava quando esta canção surgiu. Afinal, esta música salvou a minha vida.

Dentro do EP “Paz, Pão e Terra”, cada faixa representa uma forma diferente de lidar com as frustrações do cotidiano. Por que você sentiu que a melancolia precisava ocupar esse lugar de transição entre a paralisia e a retomada da força interior?

Assumir uma postura de luta exige abrir mão de muita coisa, e em algum momento a gente acaba se sentindo completamente sozinho, muitas vezes até questionando se a luta realmente vale a pena, e se pensar racionalmente talvez até chegue à conclusão de que não vale. Vai chegar um momento onde não será possível jogar este sofrimento para “debaixo do tapete”, ou seja, a única opção é seguir em frente apesar da dor, e pode ser que durante estes momentos você encontre a sua verdadeira força para seguir em frente. Até porque muitas vezes o próprio ato de seguir em frente já exige que a gente assuma uma postura de luta.

Nathan Fronza
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A música dialoga diretamente com “Otimismo da Vontade”, inspirada na ideia de Gramsci. Como foi construir esse “díptico” emocional e conceitual dentro do EP, quase como duas etapas de um mesmo processo interno?

Um dos maiores desafios de gravar um EP foi justamente encontrar uma maneira de fazer com que as músicas dialogassem entre si, como se fosse um quebra-cabeças, e inicialmente as músicas não tinham nomes, elas apenas existiam. Eu sempre senti que as duas músicas precisavam estar juntas, já que “Pessimismo da Razão” me trazia uma ideia de estar sozinho em uma noite chuvosa enquanto a “Otimismo da Razão” trazia a sensação de que o céu estava se abrindo novamente e junto com ele a esperança necessária para continuar seguindo em frente. Esta introdução que depois veio a se tornar “Otimismo da Vontade” foi algo que surgiu naturalmente enquanto eu olhava para a minha cachorra, Flor, enquanto ela dormia, e ao longo dos próximos dias eu percebi que eu sempre tocava esta mesma sequência de acordes quando eu não estava me sentindo bem, e que de alguma forma ela me ajudava a colocar a cabeça no lugar novamente, como se fosse um quentinho no coração, sabe? Aí essa frase do Gramsci é algo que saía da minha boca eventualmente durante as conversas com a equipe, até que em algum momento o Leo, que dirigiu o videoclipe da “A Última Sombra”, além de várias outras coisas, chamou a atenção dizendo que a gente deveria utilizar esta frase no EP de alguma maneira, e no meio de uma reunião a gente teve a ideia de quebrar a frase em dois e dividir entre as duas últimas faixas do EP.

Você descreve o momento da composição como uma espécie de conversa consigo mesmo, quase terapêutica. Depois de pronta, qual foi a principal transformação que essa canção provocou em você como pessoa?

Acho que apenas o fato de eu ter acordado no dia seguinte já foi uma grande transformação, porque eu realmente havia chegado à um beco sem saída. Acredito que após este momento eu comecei a entender que sempre vale a pena seguir em frente, e que por pior que seja a nossa dor amanhã será um novo dia e quando acordar iremos pensar que valeu a pena continuar aqui.

Nathan Fronza
Nathan Fronza

A participação do seu pai na gravação adiciona uma camada afetiva muito forte ao projeto. O que esse encontro familiar dentro da música representa para você, especialmente em uma faixa tão íntima?

Eu não tenho nem palavras para descrever o que isso significa para mim. Primeiro pelo fato de ele ser um músico fenomenal, e quando eu digo isso é porque ele realmente é, ele tem uma grande trajetória na música e dá aula em uma das maiores escolas de música da América Latina, ao lado de alguns dos maiores músicos deste país, e tocar junto com alguém da velha guarda é algo que não dá nem pra explicar, porque esses caras tiveram uma vivência muito diferente da minha geração. Eles não tinham Youtube, o lance era aprender música na raça, muitas vezes moravam junto com o pessoal da própria banda e tocavam o dia inteiro, e a noite saíam para tocar mais ainda, todos os dias, durante décadas. Meu pai é um cara que veio do nada e entregou tudo para a música, e até hoje ele estuda o dia todo, além de dar aulas e tocar. Conseguir tocar junto com um músico desse porte é algo muito gratificante, porque há um nível de percepção muito aguçado, onde é capaz de perceber cada detalhe, além do bom gosto, que talvez seja o principal. Nesta música ele gravou a linha de baixo e algumas camadas de guitarra também. Ele também gravou a linha de baixo da “Otimismo da Vontade”. Outra questão foi o fato de eu ser o produtor musical e engenheiro de áudio do EP, ou seja, eu tive que tomar todas as decisões em relação à como as coisas deveriam soar, e por mais que a gente faça isso a gente sempre fica com um certo frio na barriga na hora de conduzir uma gravação com um músico desse nível. E é claro, além de tudo isso há o fato dele ser o meu pai, o cara que está comigo desde o dia em que eu nasci, então cada vez que eu ouço essa gravação eu fico muito emocionado.

O solo final, improvisado em um único take, parece simbolizar um rompimento, um ponto de virada. Você lembra o que estava sentindo naquele instante específico em que decidiu simplesmente “deixar acontecer”?

Naquele momento eu não pensei em absolutamente nada além de “acho que precisa ter um solo aqui”. Eu decidi gravar alguma base de guitarra, e eu realmente não fazia a menor ideia do que fazer, eu liguei o “Rec” primeiro e depois pensei no que ia fazer, inclusive isso é algo que acontece com frequência no meu dia a dia. Comecei a gravar uma sequência de acordes e de repente senti que precisava mudar a tonalidade, e mudei. Depois eu apertei o “Rec” novamente e gravei o solo em um único take, e é exatamente o solo que está na gravação, mas todo o resto foi regravado, inclusive as bases. Na versão final quem faz a base do solo é o meu pai, além do baixo. Eu tenho certeza que se eu tentasse gravar o solo várias vezes eu não conseguiria manter a mesma energia, e isso é algo que eu “herdei” do pessoal da velha guarda, porque hoje a galera quer fazer tudo muito perfeitinho, e eu gosto desta pegada “old school”, mais orgânica, que considera que soar verdadeiro esteja acima de qualquer outra coisa. De alguma forma eu acho que me inspirei no John Frusciante do Red Hot Chilli Peppers na hora de criar este solo, porque ele é um cara totalmente orgânico.

Nathan Fronza
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Ao falar abertamente sobre saúde emocional e sobre como a dor pode ser ainda mais intensa para pessoas neurodivergentes, você assume um lugar de muita vulnerabilidade. O que te motivou a transformar essa experiência pessoal em uma mensagem pública de acolhimento?

Eu acho que eu simplesmente não tenho outra opção, sabe? Às vezes a gente tenta ser o cara forte que enfrenta qualquer desafio e assume uma postura de herói, mas em algum momento a conta vem e a gente precisa enfrentar a realidade de que temos sim as nossas fraquezas. É muito importante o fato de estarem falando cada vez mais sobre saúde mental, porque até um tempo atrás as pessoas simplesmente evitavam falar sobre, só diziam que era tudo frescura e seguiam em frente, as vezes até diziam que bastava trabalhar bastante e ocupar a cabeça para evitar ter depressão, mas hoje sabemos que isso não é verdade. Nós perdemos grandes artistas por conta de não saber como lidar com estas questões, muitos deles nunca nem chegaram a descobrir que tinham algum tipo de transtorno, além disso eu também perdi algumas pessoas ao meu redor por estas mesmas razões, e é muito triste pensar que muitas destas pessoas ainda poderiam estar aqui se tivessem encontrado algum tratamento que as acolhesse. Existem alguns agravantes quando falamos sobre pessoas que são neurodivergentes, ou seja, o cérebro dela tem um funcionamento diferente do padrão, então às vezes a pessoa realmente tem muita dificuldade para se adaptar à uma sociedade que simplesmente não foi feita para ela. Recentemente eu fui diagnosticado com autismo e AH/SD (altas habilidades/superdotação), e esta é a primeira vez que eu falo publicamente sobre isso, até porque ainda estou em processo de entender o que isso significa, mas de alguma maneira eu me sinto mais confiante em relação ao futuro já que agora eu tenho ferramentas para encontrar maneiras de me sentir menos deslocado perante a sociedade, porque este deslocamento é algo muito difícil para uma pessoa lidar, é como se você fosse um cisne vivendo no meio de um monte de pato, ou vice versa, e precisando agir como eles, sendo que você não é igual. Além de todo o preconceito que ainda existe em relação a estas questões, por exemplo, eu sei que algumas pessoas vão me olhar de outra forma a partir do momento em que descobrirem que eu tenho este diagnóstico, e aqui eu tive que decidir entre perder estas pessoas em troca de poder me conectar com algumas pessoas que se sintam deslocadas e que estão precisando de ajuda, e eu acho que estou fazendo o que é certo. Então cada vez que eu falar sobre isso publicamente eu espero que, de alguma forma, incentive alguém a buscar ajuda caso esteja sofrendo, afinal ninguém precisa enfrentar estas questões sozinho(a), e mesmo que quisesse provavelmente nem teria ferramentas para conseguir.

Você comentou que ainda está tentando encontrar coragem para lançar e tocar essa música por ser algo muito sensível. O que você espera sentir no momento em que ela finalmente chegar às pessoas e começar a criar conexões fora de você?

Eu realmente não consigo nem pensar sobre isso, eu apenas tento não criar nenhum tipo de expectativa e ver o que vai acontecer, como se eu estivesse entrando em algum terreno completamente desconhecido e com o coração aberto para o que vier. Ao mesmo tempo que eu estou ansioso para conversar com as pessoas e entender melhor o que elas sentem, até porque de certa forma eu também preciso disso para seguir em frente. Eu vejo que muitas vezes há um muro entre o artista e público, o que até certo ponto pode ser saudável para preservar a saúde mental e a privacidade do artista, que é um ser humano como qualquer outro e precisa deste espaço, porém eu espero que esta música consiga derrubar este muro e que eu consiga ter uma relação mais profunda com as pessoas, afinal eu sei que eu tenho muito a aprender com elas.

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