No dia 30 de janeiro, o cantor, compositor e guitarrista Nathan Fronza lança “A Última Sombra” em todos os aplicativos de música pela Marã Música, abrindo um novo capítulo na própria trajetória ao se apresentar também como intérprete. Com rock cru, simbologia espiritual e um olhar crítico sobre o colapso social e ambiental, a faixa surge como um manifesto em forma de canção — um chamado à transformação, por dentro e por fora.
“A Última Sombra” já começa com um “grito de guerra”. Que tipo de guerra você estava vivendo ali — mais contra o mundo lá fora (clima, sistema, apatia) ou contra algo dentro de você?
Na verdade são as duas coisas. Aquele Riff simplesmente saiu de dentro de mim em um momento de muita angústia, era como se eu fosse explodir, eu precisava colocar pra fora, e desde o início eu sabia que ele foi feito para ser cantado junto com muitas vozes ao mesmo tempo e que ele tinha muita força. Ao longo do processo de composição eu fui entendendo que ele te convida para assumir uma postura de luta, o que já é um grande desafio por si só, porque se deixar a gente acaba vivendo numa espécie de “piloto automático” e vai abrindo mão de coisas que eram importantes. Falando assim até me vem à cabeça o Cazuza cantando “aquele jovem que queria mudar o mundo… mudar o mundo…”, mas a diferença é que hoje estamos em um momento onde precisamos mudar o mundo, e rápido! Os caras estão destruindo tudo. Então algo precisa mudar dentro da gente para que a gente consiga perceber o que está acontecendo, e que a partir deste momento pare de normalizar coisas absurdas como crise climática.
Você fala do fogo como transformação, mas também como alerta sobre queimadas e colapso climático. Em que momento você percebeu que essa música precisava ser posicionamento, e não apenas expressão?
É muito louco como a música simplesmente surge na minha cabeça, e só depois eu consigo entender o que ela significa. Ela nasceu como uma necessidade de se expressar, mas não há como falar sobre crise climática sem se posicionar, esta música te confronta e te impossibilita de continuar numa ilusão de “neutralidade”. O fogo tem uma simbologia muito forte dentro de várias crenças, porque nada passa pelo fogo sem se transformar, além de representar aquilo que chamamos de espiritualidade, e neste caso o fogo também representa as queimadas que estavam acontecendo de forma artificial e arbitrária visando apenas o lucro de um pequeno grupo de pessoas. Este assunto é muito urgente, precisamos fazer alguma coisa.
A frase “venderam o céu e ninguém vai me pagar” é muito forte. Quando você escreveu isso, o que exatamente estava doendo: a destruição ambiental em si, a desigualdade no direito ao “céu azul”, ou a sensação de impotência coletiva?
Com toda a certeza era tudo isso ao mesmo tempo, sabe aquela situação onde a gente tem que rir para não chorar? Tem até um certo sarcasmo nesta frase, vendo que nós perdemos o direito a ter um céu azul porque alguns caras tomaram esta decisão para poder lucrar ainda mais. Lembrando que estou me referindo a um momento específico onde o céu ficou cinza durante algumas semanas seguidas, era desesperador não conseguir enxergar o céu, além de ficar sentindo aquele cheiro de fumaça, e também aquele ar seco que deixava a garganta arranhando, e o principal, que eram as notícias mostrando o que estava acontecendo nas florestas… A sensação era de impotência mesmo, tipo: Vai ser isso mesmo? Ninguém vá fazer nada? Céu azul virou coisa do passado?
Existe uma camada espiritual na música: encarar as próprias sombras. Qual foi a “sombra” mais difícil de admitir durante esse processo — e o que mudou em você depois de encará-la?
Eu conheci este termo “sombra” quando participei de rituais xamânicos, que são aqueles pontos dentro de você que mais te assustam, e aí eu entendi que na nossa sociedade a gente tem a tendência a não encarar as nossas sombras, a gente simplesmente ignora e vai seguindo em frente, e faz os mesmos com nossas angústias e até mesmo com os nossos traumas. Em contrapartida algumas outras culturas acreditam que você precise encarar as suas sombras, olhando no olho daquilo que mais te assombra e sentir aquela dor até o limite, afinal não há nada de errado em sentir esta dor, ela esta ali e você precisa aceitá-la. A partir deste momento eu comecei a analisar a minha existência através de uma nova perspectiva, especialmente dentro de uma sociedade que esta organizada em um modo de produção capitalista e nos condiciona a pensar de uma determinada maneira desde que a gente nasce. Eu vi muita coisa que precisava mudar em mim, e muitas que ainda precisam, mas acho que o ponto principal foi eu ter me tornado uma pessoa mais sensível em relação à mim e também aos outros, incluindo a natureza e também pessoas que eu nem sequer conheço.

Você ficou conhecido por muita gente como guitarrista e youtuber, e agora assume o microfone como intérprete. O que dá mais medo: errar uma nota no palco ou se expor emocionalmente numa letra?
Este trabalho que eu realizo no YouTube é um negócio muito louco porque me colocou em contato com pessoas de todos os lugares, e muita gente que eu nunca iria conhecer, apesar de sempre ter viajado muito para fazer shows. Além disso eu pude conversar bastante com as pessoas e quebrar aquela barreira que muitas vezes existe entre artista e público. Boa parte das pessoas que me acompanha também toca guitarra e muitas vezes o papo fica em torno do nosso instrumento, e é bem comum que alguém chegue todo animado falando que montou uma banda e que vai fazer o seu primeiro show, e aí me pede um conselho. Eu fico muito feliz porque sei o quão especial é este momento, e o principal conselho que eu costumo dar é: “Não tenha medo de tocar uma nota errada!” Eu sempre falo isso, por várias razões, desde o fato de que isso provavelmente vai acontecer devido às probabilidades e principalmente porque eu acredito que se você subir no palco com este medo você já perdeu. Você não vai conseguir curtir o momento e o show não terá sido bom, mesmo que você acerte todas as notas. No show você precisa interagir com quem está no palco e também com quem estiver assistindo. O palco é um local sagrado. Então eu nunca tive este medo de errar uma nota, mas não posso dizer o mesmo sobre me expor emocionalmente numa letra, isso me deixa totalmente vulnerável e sem chão, mas eu aprendi que devemos encarar as nossas sombras e nossos medos, não é? Então bora pra cima
A introdução nasceu após um ritual xamânico e só virou canção completa anos depois, quando o céu ficou cinza por um mês. Você sente que algumas ideias “esperam” a vida acontecer para ganhar sentido? Como foi reconhecer que aquela semente de 2020 tinha virado urgência?
Sim, acredito que as coisas tenham um tempo para acontecer, e não rola tentar forçar uma situação. Quando as coisas estão no momento certo elas apenas fluem, parece que a ideia vem pronta na cabeça. Mas é claro que não basta ficar esperando a inspiração chegar, tem que trabalhar. Eu já tinha aquela introdução pronta e não sabia onde usar, até que um dia comecei a pensar em montar um trabalho autoral e fui desenhando algumas ideias e resgatando algumas das minhas composições, esta introdução estava ali mas eu na fazia ideia do que viria depois, até que o céu deixou de ser azul e a revolta bateu, aí eu fui lá e finalizei a composição, e aí o Rodrigo conseguiu fazer uma linha de bateria que era realmente o que a música pedia, porque ela tem que ter algo meio tribal para que expresse a sua ideia, e ele acertou em cheio, já faz muitos anos que ele é meu parceiro na música. Na verdade quando eu olho pra trás eu penso que a música apenas surgiu, é algo muito maior do que eu e que aconteceria de outra forma, eu apenas senti e gravei, é como se as músicas tivessem vida própria. Ela apenas nasceu.
No clipe, aparecem dois “você”: o Nathan rock’n’roll e um Nathan num pós-apocalipse. Se esses dois personagens pudessem conversar por 30 segundos, o que um diria ao outro — e qual deles você acha que está mais próximo da realidade hoje?
Eu acredito que pelo menos metade destes 30 segundos seria apenas olhando no olho sem falar nada. Aquele “Nathan” Rock N’ Roll provavelmente seria uma versão minha bem mas jovem, antes de passar pelos rituais e de começar a compor esta música. Eu acredito que hoje eu seja um ser que está no meio do caminho entre os dois, como se eu estivesse consciente em relação a caminhar para o abatedouro. Por isso a música diz “a caminho do funeral” em um determinado momento, e rola um sarcasmo ali, tipo, o que eu posso fazer? E eu acredito que muita gente irá se identificar com este sentimento. O “Nathan” Rock N’ Roll do clipe ainda estava começando a entender enquanto assistia as notícias. Hoje eu me vejo mais próximo ao pós apocalíptico do que ao personagem Rock N’ Roll, e tenho certeza de que ele diria para eu aproveitar cada segundo que me resta, abraçar as pessoas ao meu redor o máximo que eu posso, e continuar lutando. Os dois personagens são exatamente os mesmos, numa mesma linha, porém em momentos diferentes, e isso não é sobre mim mas sobre cada pessoa que estiver assistindo ao clipe, cada uma delas tem esta sua versão e eu fico curioso em saber com qual cada uma delas se identifica mais, espero que esta mensagem ajude a galera se preparar, quem sabe a gente até consiga evitar este apocalipse?
Você conta que a primeira gravação do clipe foi perdida e isso quase te fez desistir — e que a equipe te ajudou a recomeçar do zero. O que essa perda te ensinou sobre persistência, e o que você quer que o público sinta ao perceber que esse trabalho nasceu “na marra”, apesar do cansaço e da exaustão?
Cara, eu simplesmente não tinha mais forças, mas a obra é algo muito maior do que eu, saca? Quando eu cheguei no meu limite a minha equipe me puxou e deu um jeito de fazer as coisas acontecerem, sou imensamente grato às pessoas que estiveram comigo em cada um destes momentos, foi uma força tarefa. Quando finalizamos a primeira gravação do clipe o cara simplesmente perdeu todos os arquivos, e foram gravações muito exaustivas onde demos nosso sangue ali. Aí eu simplesmente fiquei sem o clipe, e então o meu amigo Léo disse que ele gostaria de fazer o clipe e que a gente iria dar um jeito, e então começaram a chegar mais algumas pessoas abraçando a ideia, veio o Yuri e a esposa dele que já fizeram clipes bem legais com algumas bandas, a Lari e a minha esposa Cris no figurino e maquiagem, meus pais também sempre apoiando mesmo nos piores momentos e também algumas outras pessoas que me ajudaram de várias formas ao longo deste processo, ninguém faz nada sozinho. Então parece que existia uma força maior e que de repente desistir não era uma opção. Eu espero que este trabalho inspire as pessoas de alguma forma, tanto na questão de assumir uma postura quanto na questão de persistir em busca de continuar trabalhando em cima daquilo que te alimenta a alma, senão a gente vai abandonando as coisas que a gente gosta e de repente se depara com aquele cemitério de sonhos. É claro que as coisas não são fáceis, mas espero poder inspirar outros artistas a conseguirem expressar o que está dentro deles, um passo por vez.

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