Menos guerra partidária, mais consciência: a proposta de “democracia mindful” de Jeremy David Engels

Luca Moreira
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Jeremy David Engels (Anna Sunderland Engels)
Jeremy David Engels (Anna Sunderland Engels)

Para Jeremy David Engels, a crise democrática que marca o mundo atual não é apenas política — é também emocional e espiritual. Professor titular de Artes da Comunicação e Ciências na Penn State University, cofundador do Yoga Lab e autor de seis livros, Engels defende que a democracia só pode sobreviver se aprendermos a cultivar atenção, escuta e presença no cotidiano. Em seu novo livro, On Mindful Democracy: A Declaration of Interdependence to Mend a Fractured World, ele propõe uma mudança radical de perspectiva: menos independência individual e mais interdependência humana como caminho para reconstruir confiança, comunidade e participação cívica.

Você já disse que a democracia está quebrada — e que ela não pode existir sem mindfulness. Em que momento isso deixou de ser apenas uma ideia e se tornou uma convicção central para você?

Estudiosos vêm alertando sobre a deterioração da democracia durante a maior parte da minha vida. O que me convenceu de que ela está quebrada foi observar como a grande mídia política cobre os acontecimentos nos Estados Unidos — é sempre algo como “o fechamento do governo vai beneficiar os democratas na próxima eleição” ou “os republicanos tentam capitalizar [insira sua tragédia] para ganhar votos”. A democracia se tornou uma guerra entre partidos por poder, influência e dinheiro — quantias absurdas que poderiam ser muito melhor utilizadas do que em campanhas eleitorais.

Na universidade onde trabalho, leciono regularmente disciplinas sobre retórica de guerra, propaganda e controvérsias contemporâneas na cultura pública. Meu objetivo é ensinar aos meus alunos as habilidades necessárias para serem cidadãos democráticos capazes e líderes cívicos. Descobri que eles têm mais sucesso ao navegar por esse mundo complexo quando também praticam mindfulness. Eles se tornam comunicadores melhores e ouvintes melhores. Eu vi o poder do mindfulness como professor, e também o conheço como praticante.

Estamos vivendo polarização extrema, fadiga de atenção e esgotamento emocional. Como você conecta esses sintomas ao que chama de uma “falha de mindfulness”, e não apenas uma falha política?

Mindfulness é a prática de voltar para o momento presente. Voltamos para casa quando trazemos nossa mente dispersa de volta para o aqui e agora, onde ela pertence. No livro O Milagre da Atenção Plena, o mestre zen Thich Nhat Hanh escreve:

“Mindfulness é o milagre pelo qual nos dominamos e nos restauramos… É o milagre que reúne nossa mente dispersa e a devolve à totalidade para que possamos viver cada minuto da vida.”

De muitas maneiras, somos como esse mágico. Dividimos nossa atenção entre passado e futuro, entre memória e antecipação, e deixamos nossos sentidos serem arrastados pelo feed infinito das redes sociais. Não é de se espantar que nos sintamos solitários, desequilibrados, exaustos, polarizados e desconectados. Como poderíamos nos sentir em casa no mundo se nossas mentes estão sempre em outro lugar?

Mindfulness nos treina a focar no que importa e a enxergar o todo. Ele nos ajuda a superar a visão estreita de “eus” isolados em guerra política, revelando tudo o que compartilhamos. Ensina também a lidar com emoções difíceis para que não nos dominem. É por isso que digo, no meu livro, que a democracia não funciona sem mindfulness.

Você descreve “praticar a democracia” como uma disciplina momento a momento. Como isso se manifesta na vida cotidiana de quem não está envolvido diretamente com política?

Democracia é uma prática. A forma como nos movemos, falamos e nos apresentamos para os outros não é um ensaio para a democracia — isso já é democracia. Sempre que aparecemos para cuidar de alguém, com o coração aberto e lembrando que compartilhamos o mesmo chão, estamos praticando democracia. Nem sempre é algo chamativo, mas acontece o tempo todo. O poder da democracia cresce quanto mais a praticamos juntos. Por isso a comunidade está no centro dela.

Na sua visão, qual o papel da comunicação — linguagem, escuta e presença — para reduzir reatividade e reconstruir a confiança em comunidades divididas?

As palavras “comunicação” e “comunidade” compartilham a mesma origem etimológica. Comunidades saudáveis praticam boa comunicação. Ambas vêm do latim e remetem à ideia de “estar juntos” e “oferecer um presente”. Quando nos comunicamos, oferecemos a nós mesmos: nossa presença, nosso tempo e nossa atenção. Se o outro recebe esse presente escutando e nos devolve o mesmo, ambos saímos enriquecidos. Criar espaços onde as pessoas se sintam seguras para compartilhar presença, tempo e atenção é fundamental para reconstruir a confiança.

Você enxerga raiva, medo e divisão como sinais de um sistema nervoso desregulado. Que práticas simples podem ajudar quando conversas ficam tensas?

As práticas “R.A.I.N.” (reconhecer, permitir, investigar, nutrir), de Tara Brach, e “S.T.O.P.” (parar, respirar fundo, observar, prosseguir), de Rhonda Magee, são técnicas simples e profundas. A chave é pausar, perceber como você está se sentindo e deixar as coisas assentarem antes de continuar.

Também ensino um exercício de respiração: três respirações dizendo “dentro/fora”; depois “respirando dentro/respirando fora”; e por fim “respirando dentro, sei que estou respirando dentro / respirando fora, sei que estou respirando fora”. Alongar a respiração ajuda a acalmar e retomar o foco.

Seu próximo livro propõe uma “Declaração de Interdependência”. O que isso significa na prática?

Acredito que nossos problemas hoje são menos da democracia e mais de perspectiva. Fomos condicionados a nos ver como indivíduos separados, valorizando independência em vez de interdependência.

Interdependência significa reconhecer como nossas vidas estão conectadas. Falamos línguas que não inventamos, comemos alimentos que não cultivamos, usamos tecnologias que não criamos. Somos resultado do esforço coletivo.

Também significa entender que precisamos uns dos outros para sermos felizes. Se você sofre menos, eu sofro menos. Se todos sofrem menos, o mundo inteiro sofre menos. Todos se beneficiam quando há menos sofrimento e mais alegria.

Para quem sente desânimo ou esgotamento com as notícias, qual seria um primeiro passo pequeno, mas real, para recuperar pertencimento e autonomia?

Faça algo que o reconecte com a alegria e com o simples milagre de estar vivo. Muitas vezes, quando estamos estressados, abandonamos justamente as coisas que amamos. Mas elas não são opcionais — são o que dá sentido à vida.

Largue o celular, conecte-se com alguém de quem você gosta e tenha uma conversa de verdade. Ofereça sua atenção, seu tempo e sua presença. Isso já é suficiente. Lembre-se de que você não está sozinho.

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