MC Rodolfinho reforça raízes e aposta em nova fase musical com projeto “Solidificando a Caminhada”

Luca Moreira
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MC Rodolfinho
MC Rodolfinho

Com 16 anos de trajetória no funk, MC Rodolfinho segue consolidando sua identidade artística sem perder a conexão com as ruas de Osasco, onde construiu suas referências e sua visão de mundo. Misturando a raiz do funk carioca com influências do rap, reggae e MPB, o artista se posiciona como uma ponte entre gerações e prepara um novo momento na carreira com o lançamento do projeto audiovisual “Solidificando a Caminhada”, que chega em março com uma proposta mais musical e orgânica. Na entrevista, ele fala sobre suas origens, o papel do funk como instrumento de transformação social, a força do palco, o amadurecimento do público e o futuro global do gênero, reforçando que, mesmo com a expansão e a evolução estética, manter a essência é o que sustenta a conexão verdadeira com quem o acompanha desde o começo.

Rodolfinho, você nasceu e cresceu em Osasco — um lugar que tem uma forte cena de rua e musical. O que dessa vivência mais influencia o seu som e sua forma de se conectar com o público?

Osasco me deu base. Me deu casca. Me deu visão. Eu cresci vendo a rua de perto, vendo sonho e dificuldade andando lado a lado. Isso moldou minha forma de ver a vida e de escrever. A maior parte do que eu canto vem de coisas que eu vivi ou vi de perto. A conexão com o público vem justamente daí. Quando eu falo de superação, de ambição, de família, de erro e acerto … não é discurso montado, é realidade. Quem vem de onde eu vim sente quando é verdade e se identifica.

O seu estilo mistura funk carioca com referências do rap e do hip-hop. Como você define o seu som dentro dessa nova geração do funk?

Eu vim do funk mais raiz, onde a maioria dos MCs rimava no tamborzão, sem muita harmonia. Mas eu sou inquieto e gosto de acompanhar a evolução estética do gênero. Então, acredito que sou uma ponte. Tenho a raiz do funk comigo, mas dialogo também com a galera mais nova, porque tenho humildade pra aprender sempre e acompanhar as atualizações estéticas do funk.

Muita gente ainda enxerga o funk apenas como entretenimento, mas ele é também resistência e voz das periferias. O que o funk representa pra você hoje, depois de tantos anos no movimento?

O funk salvou minha vida, assim como a de milhares de jovens e famílias. Eu vejo o funk como uma das maiores fontes de oportunidade para o povo periférico brasileiro, assim como o samba, o rap e até o futebol. É um movimento de denúncia das injustiças que vivemos, mas também de conscientização e transformação. E claro, também é entretenimento e diversão. O funk é completo.

Com o crescimento das plataformas digitais, os artistas têm novas formas de chegar ao público. O que muda pra você entre o sucesso online e o calor do show presencial?

As plataformas digitais e seus algoritmos são ferramentas excelentes para alavancar a carreira dos artistas. Elas democratizam o acesso e dão oportunidade para todo mundo divulgar seu trabalho. Mas também aceleram muito o consumo. O mercado fica mais rápido, os lançamentos constantes, e às vezes algumas músicas acabam ficando mais passageiras. Mas faz parte do crescimento do próprio mercado.

Já o show presencial é sentimento. É energia trocada na hora. Quando você vê a galera cantando sua música do começo ao fim, olhando no seu olho, não existe número que substitua isso. É o termômetro mais verdadeiro que existe — ali é orgânico mesmo.

Você já lançou músicas marcantes e fez parte de diferentes projetos no funk. Tem algum artista ou parceria que ainda é um sonho pra você realizar?

Eu sonho muito em gravar com artistas de outros gêneros que são próximos do funk em essência, como rap, samba e reggae. Curto muito o trabalho do Rael, por exemplo. Seria uma realização poder gravar com ele um dia.

Você está sempre se reinventando. O que podemos esperar dos próximos lançamentos? Tem algo diferente vindo aí em termos de sonoridade ou tema?

Dia 05 de março lanço meu novo projeto, “Solidificando a Caminhada”. É um projeto audiovisual com 4 faixas, todas com banda, instrumentos orgânicos e uma proposta mais musical. É o trabalho em que mais explorei musicalidade na minha carreira. Tem influência de reggae, MPB, funk e música urbana. É mais elaborado esteticamente, mas sem perder a essência e o papo das letras do nosso funk.

Com 16 anos de carreira, comecei a curtir outros estilos também, assim como meu público está mais maduro. Senti que era o momento de lançar algo assim pra dialogar com essa fase — e também com a galera mais nova, que hoje tem o ouvido muito mais aberto.

Mesmo com sucesso e visibilidade, você mantém um discurso muito próximo das suas origens. Como é pra você continuar sendo a voz de quem te acompanhou desde o começo?

Sempre admirei isso nos artistas que me inspiraram, principalmente os mais antigos do funk, como Neguinho do Kaxeta. Eles cresceram, tiveram sucesso, mas nunca deixaram de representar de onde vieram. O funk nasce na favela, nasce da vivência. Se a gente perde o contato com a nossa origem, fica difícil dialogar com o próprio público, porque a conexão vem da identificação.

Eu quero alcançar mais gente, claro. Quero expandir, evoluir, atingir outros públicos. Mas a raiz não pode se perder. E hoje até os playboys estão curtindo música que fala da favela, que carrega verdade. Quando é real, atravessa qualquer classe social.

O funk vem ganhando espaço no mundo inteiro, de Paris a Miami. Como você enxerga o futuro do gênero e o papel dos artistas brasileiros nessa expansão global?

Eu vejo o funk como um movimento que já ultrapassou fronteira faz tempo. Paris, Miami, Europa… o mundo já dança no nosso BPM. O que está acontecendo agora é o reconhecimento disso. O futuro do gênero depende muito da nossa organização e visão. A gente tem identidade própria, tem estética, tem ritmo que não existe em nenhum outro lugar. Se o artista brasileiro entender o valor cultural que carrega, ele não vai se posicionar como menor lá fora.

O papel dos artistas brasileiros nessa expansão é manter a essência, mas elevar o nível de produção, estratégia e profissionalismo. Não é copiar o que já existe no exterior — é exportar o que é nosso, com qualidade mundial. O funk tem força global. E quando a gente une verdade com visão estratégica, o movimento cresce sem perder a essência.

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