“Maria Caminhoneira Sertania”: Samuel Britto transforma coragem e resistência do sertão em literatura e cinema

Luca Moreira
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Samuel Britto
Samuel Britto

Inspirado pelas histórias, dores e tradições do sertão pernambucano, o jornalista e escritor Samuel Britto estreia na literatura com Maria Caminhoneira Sertania e seus contos heroicos, românticos, sertanejos, obra que une regionalismo, memória e identidade em uma narrativa construída no ritmo do cordel. Ambientado entre as décadas de 1970 e 1990, o livro acompanha a trajetória de Maria Sertania Ferreira da Conceição Ventura, uma mulher que transforma o sonho de dirigir caminhão em instrumento de sobrevivência e resistência diante do machismo, do racismo e das adversidades da vida no interior. Entre perdas, desafios e encontros, a personagem conduz não apenas um caminhão-pipa pelas estradas do sertão, mas também histórias que refletem a força de um povo e a luta silenciosa de tantas mulheres. A obra, que já alcança leitores em diversos países e deu origem a um roteiro de longa-metragem aprovado por incentivo cultural, marca o início da carreira literária de Britto e reafirma seu compromisso em valorizar a cultura nordestina e promover respeito à diversidade regional.

A história começa e termina em cordel, quase como se alguém estivesse contando “de boca em boca”. Em que momento você percebeu que essa narrativa precisava nascer com a sonoridade do sertão, e não em um formato mais tradicional de romance?

Desde a ideia inicial da história, a imaginei com formato, características e elementos bem sertanejos, desde os ambientes aos personagens e os diálogos. Sou um escritor sertanejo com mais de 25 anos atuando no jornalismo de televisão. Como todo escritor, tenho o meu jeito, minha particularidade na forma de escrever, me considero um cronista de aventuras, dramas e romances, porque minhas histórias misturam acontecimentos reais do dia a dia com ficção, tudo costurado com personagens bastante humanos e solidários.

Maria Sertania é uma personagem muito forte, mas também muito humana, cheia de dor, perdas e fragilidades. Ela nasceu de alguém real que você conheceu ou foi sendo construída a partir de várias mulheres do sertão que cruzaram o seu caminho?

A sertaneja Maria Caminhobeira Sertania tem um pouco da minha mãe e de outras mulheres sertanejas presentes em mais de 50 mil personagens que já entrevistei para mais de 23 mil produções e roteiros que desenvolvi para as televisões local, regional, nacional e internacional. Acho que é por isso que tanto o livro físico, quanto o e-book dessa caminhoneira sertaneja, agrada tanto, que já está à venda em cerca de 15 plataformas literárias de vários países, dentre eles Espanha, Portugal, Inglaterra, França, Estados Unidos, Canadá, México, Japão e Índia.

Você cresceu no sertão de Pernambuco. Que memórias da sua infância ou juventude você sente que estão escondidas dentro das entrelinhas do livro? Alguma cena que você escreveu e pensou: “isso aqui eu vivi”?

Sim, a trama principal do livro tem  muito a ver com algumas situações que vivi na pele, por exemplo, a figura da caminhoneira  preta Maria Sertania, uma sertaneja forte, determinada e lutadora, principalmente quando se trata de realizar seus sonhos e desejos, sem esquecer em nenhum momento de cuidar sozinha de 4  filhos, faça chuva ou faça sol, isso me remete bastante a minha mãe, que vivenciou situações bastante semelhantes em pleno sertão nordestino das décadas de 70 e 90, época de ditadura e forte repressão. Outra parte da história que aborda a situação de um dos filhos de Sertania que gosta de outro rapaz, com isso enfrenta muito machismo e preconceito externos, por outro lado o corajoso jovem, recebe muito carinho e compreensão principalmente da mãe e da família.

Maria enfrenta machismo, racismo, pobreza e luto, mas nunca perde a dignidade. O que você mais aprendeu emocionalmente convivendo com essa personagem durante o processo de escrita? Ela te transformou de alguma forma?

Sim, com toda certeza, a cada página, a cada diálogo, a cada palavra escrita dessa inspiradora e magnífica história — inclusive acho que todo mundo deveria ler para conseguir encarar melhor os problemas e adversidades da vida — aprendi ainda mais a conviver com as diferenças, com o difícil luto, me tornei ainda mais humano, inclusivo, compreensivo e solidário.

Samuel Britto
Samuel Britto

O caminhão-pipa “Trovoada” parece quase um personagem da história, como se fosse casa, abrigo e companheiro de estrada. Por que era importante que esse objeto tivesse tanta alma dentro da narrativa?

Dirigir caminhão sempre esteve nos sonhos de Maria Sertania desde a sua infância, e vira a sua mais importante realidade através das velhas engrenagens e do volante do Trovoada, um companheiro fiel, seu segundo porto seguro, só perdendo para sua casa e família. Numa passagem do livro eu falo sobre o carinho de Maria Sertania pelo parceiro Trovoada, a sua boleia tem uma decoração muito especial, toda feita pela própria sertaneja.

Achei importante dar esse destaque especial ao caminhão-pipa, a ideia foi estimular o imaginário do leitor, fazendo um  elemento inanimado da história ganhar vida como um personagem real, pela  importância afetiva que ele tem para a caminhoneira Sertania, e pelo importante papel social que ele desempenha na zona rural sertaneja entre as décadas de 70 e 90, levando água para quem realmente necessitava, além de ser junto a caminhoneira preta e mãe solo, símbolos potentes contra o machismo e vários tipos de  preconceito.

Mesmo em meio à dureza do sertão, há muito afeto, humor e solidariedade. Você quis mostrar que o sertão não é só sofrimento, mas também poesia? Como equilibrar essa dureza com beleza sem romantizar a dor?

Isso mesmo, quis mostrar exatamente que o sertão, assim como todas as regiões do Brasil e do mundo, tem seu lado de adversidades, dores, batalhas, mas também tem o lado das superações, conquistas e realizações. Isso pode ser contado de forma clara e detalhada, sem necessidade alguma de romantizar a dor, no sertão como em todo lugar tem pessoas pessimistas, mas por outro lado tem pessoas dos corações lindos, generosos e solidários como a caminhoneira Maria Sertania. O sertão nordestino é uma região de cultura forte e estruturada, além de ser um lugar lindo em todos os sentidos.

O livro já virou roteiro de cinema. Como foi enxergar essa história, tão íntima e literária, ganhando imagem e som? Você imaginava Maria nas telas enquanto escrevia ou isso veio depois?

Sim, desde o primeiro momento em que escrevi as primeiras palavras e os primeiros diálogos do livro, já imaginei a narrativa da caminhoneira sertaneja preta, mãe solo, resiliente e batalhadora, com imagens e sons na telona, por ser uma história que descreve uma jornada inspiradora e cheia de verdades, vivenciada num sertão duro e real entre as décadas de 70 e 90. Aliás, estou com o roteiro do filme longa-metragem pronto, atrás de uma produtora de cinema que queira produzi-lo, pois a história além de tocar fundo o imaginário do leitor, pela sua sensibilidade, trajetória e riqueza de detalhes, também é um roteiro todo desenvolvido em Pernambuco, por um roteirista pernambucano. O cinema pernambucano se encontra no auge pelo destaque no Globo de Ouro, nas indicações ao Oscar, e as premiações internacionais conquistadas pelo filme “O Agente Secreto”.

Se Maria Sertania pudesse sentar-se hoje na sua frente e ler o livro sobre a própria vida, o que você gostaria que ela sentisse ao fechar a última página?

Que lugar de mulher é onde ela quiser! Que todo o esforço e luta desencadeados por ela valeu muito a pena! Que as batalhas que ela travou contra o machismo, o racismo e a misoginia em relação a ela e a sua profissão, foram definitivas para que essas informações abaixo existam:

Ser caminhoneira hoje é uma realidade para muitas mulheres nordestinas e brasileiras. Segundo dados do Ministério dos Transportes, o Brasil conta atualmente com cerca de 32 mil mulheres que atuam como caminhoneiras de forma remunerada, um crescimento de 58% nos últimos dez anos, quando esse número era de aproximadamente 20 mil.

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