O trio MABI apresentou, no dia 26 de março, o álbum MABI, trabalho que nasce como um manifesto sonoro e político sobre o apagamento da herança preta na música brasileira. Formado por Trovão Rocha, Gabriel Barbalho e Lucas Fê, o projeto foi construído a partir de um processo criativo imersivo, marcado por improvisação, convivência e experimentação, que resultou em nove faixas desenvolvidas de forma orgânica. Em entrevista, os músicos refletem sobre a força da criação coletiva e o papel da música como ferramenta de identidade, memória e resistência.
O próprio nome MABI já carrega um manifesto muito forte. Em que momento vocês perceberam que esse projeto precisava nascer não só como música, mas também como posicionamento?
A música pra gente é sempre um posicionamento, nunca algo separado disso. E o próprio trabalho recebe esse nome porque é, de fato, um manifesto. Existe um esforço contínuo para que quem criou essa linguagem possa se reapropriar dela, porque ainda hoje é difícil ocupar certos espaços fazendo esse tipo de música, mesmo ela tendo sido criada e desenvolvida por pessoas pretas. Até a nomenclatura pesa. Nomes elitizados, com histórico de exclusão, afastam pessoas pretas do ambiente musical. Então, quando a gente se junta pra criar de forma aberta, isso por si só já é uma afirmação. A gente vai ocupar esses espaços junto. E o caráter espontâneo da criação também é parte do gesto político. É traduzir vivências do dia em som e reafirmar essa arte como nossa.
O álbum surgiu de uma convivência intensa, quase como uma imersão criativa. O que uma semana juntos, dividindo espaço, escuta e experiências, revelou artisticamente para vocês que talvez não aparecesse em um processo mais tradicional?
Esse projeto foi a primeira vez que a gente conseguiu se reunir fisicamente pra criar, e isso mudou tudo. A convivência trouxe uma aproximação grande. A gente compartilhou histórias, criou identificação, parceria, irmandade. Como a sonoridade é muito aberta, essa conexão fora da música é fundamental. Mais do que a bagagem individual, o que determinou o resultado foi a sintonia e a confiança. Teve momentos em que uma nota de alguém já bastava pros outros entenderem o caminho. E, diferente de processos em que a ideia chega pronta e só é dirigida, até as partes mais estruturadas mantiveram espaços abertos pra construção coletiva.

Vocês partiram da ideia de criar algumas composições e terminaram com um disco inteiro nascido quase no fluxo do encontro. O que esse inesperado diz sobre a identidade musical de vocês como trio?
A ideia inicial era compor cinco faixas, mas o fluxo foi tão constante que a gente terminou com nove músicas, e precisou, em algum momento, colocar um limite pra encerrar o processo. Tem registro de pré-produção de outras coisas começando a nascer e sendo interrompidas só pra não virar um álbum longo demais. Isso diz muito sobre a nossa identidade e vem direto da dinâmica dos shows também, onde a gente sempre improvisa do zero, buscando construir formas completas, com começo, meio e fim. O que aconteceu na imersão reflete como a gente gosta de tocar. Manter o frescor da criação mesmo em músicas que já estão no repertório. No show de lançamento, teve surpresa real com a qualidade do que surgia espontaneamente. E a colaboração é um traço central. Juntos a gente chega em lugares artísticos que seriam inalcançáveis individualmente. Esse é o pilar da nossa sonoridade e da nossa união.
Em um trabalho que nasce da improvisação, como vocês equilibram liberdade e intenção, especialmente quando o disco também carrega uma reflexão política sobre o apagamento da herança preta na música brasileira?
A gente nem pensa nisso como um equilíbrio entre liberdade e intenção, porque, quando o assunto é o apagamento da herança preta na música brasileira, essa questão já é central na própria música improvisada. A linguagem que a gente usa nasce desse contexto histórico e cultural. A música é livre por necessidade, e a intencionalidade vem da consciência disso, não de um plano racionalizado. Não tem um processo separado pra abordar o tema. O simples fato de a gente se reunir pra tocar esse gênero específico já é uma afirmação. Essa identidade aparece antes mesmo de alguém ouvir o som. Está no nome do grupo e nos diálogos que a gente mantém durante as apresentações. No fim, a música fala por si. Por sermos quem somos, essa herança vem inerente no som, atravessa tudo e torna a dimensão política indissociável da arte.

Há algo de muito simbólico no fato de o álbum ter sido construído dentro de uma casa, em um ambiente íntimo e coletivo. De que forma esse espaço influenciou o som e a alma do disco?
A casa influenciou muito, não no sentido da casa como objeto, mas como um espaço de acolhimento. Era um lugar onde, a qualquer hora do dia, a gente podia tocar e estar junto, sem precisar sair pra trabalhar. Isso é raríssimo de conseguir. Viver, de fato, um momento inteiro dedicado à criação. A gente também buscou um alto nível de conforto pra essa vivência acontecer bem. Comida que a gente gosta, cama boa, casa confortável, um lugar bonito. O ambiente vira um elemento desse estado mental. Ter calma e espaço na cabeça pra criar. E tinha a vista, que era mesmo maravilhosa. Acordar e dar de cara com a imensidão, com o mar ao fundo. Isso não vira uma tradução literal no som, mas atravessa a nossa relação, fortalece a intimidade e, inevitavelmente, chega na música.
Vocês falam sobre oralidade, histórias compartilhadas e convivência como parte do processo criativo. Quais trocas humanas mais marcaram vocês durante essa construção?
As trocas mais fortes foram entre nós mesmos, ali no convívio. Trovão Rocha, Lucas Fê na bateria e Gabriel Barbalho no trompete, com o Francis Pedemonte na produção musical. A Luanda Wilk, nossa produtora, também foi fundamental pra garantir que tudo acontecesse com tranquilidade e que a gente estivesse amparado pra criar. No começo da vivência, o François Muleka esteve com a gente fazendo registros em vídeo, e isso foi importante. Poder ver em tempo real o que estava acontecendo ajudou a dar contorno pro momento. E a participação da Marissol Mwaba também chegou nesse clima de troca. A gente enviou as faixas que já tinha feito e ela devolveu a participação muito rápido, ainda naquele início. Tudo isso foi criando uma base sólida da gente se enxergar como grupo e enxergar esse trabalho como um disco. Com mais certeza do que a gente estava construindo.

As participações de François Muleka e Marissol Mwaba ampliam ainda mais essa conexão com sonoridades e trajetórias negras diaspóricas. Como essas presenças atravessaram o álbum e o transformaram?
As participações foram completamente transformadoras pra sonoridade do álbum. Quando a gente faz esses convites, tem muito a ver com o conceito que atravessa o projeto. Nomear um estilo, a música afro-brasileira improvisada, e entender que cada parte desse nome importa. O improvisado, por exemplo, é um pé no chão. Ajuda a não cair na ideia de instrumental como rótulo que exclui, porque tem muita gente criando a partir da improvisação com palavra, com letra, com voz. Tanto o François Muleka quanto a Marissol Mwaba inspiram muito nossa trajetória como instrumentistas e são artistas incríveis. A Marissol foi convidada ainda quando o disco estava sendo pensado. A gente queria uma presença com texto, com palavra, de alguém que a gente admira. E o convite pro François veio de um outro lugar. Ele esteve na vivência, sentou, conversou com a gente, a gente falou de vida, de experiência, do que era estar junto. Foi natural que a participação nascesse dessa conversa, do texto que ele trouxe, ligado àquele momento.
Ao concluir MABI, com tudo o que ele representa em termos de som, afeto e afirmação, que sensação ficou em vocês sobre quem eram antes desse disco e quem vocês são agora?
Sem dúvida é um disco que transforma, e a vivência também transforma. Viver junto, coletivamente, como trio, muda a gente. Chegar no resultado que a gente chegou e ver esse resultado circulando no mundo, com o disco lançado, é uma experiência que vai e volta. A gente colocou ali o que estava sentindo e agora vê isso ganhando vida própria. Ver os retornos, as pessoas entrando em contato, tocando nesse lugar mais íntimo dos nossos desejos com esse trabalho, é muito forte. E tem uma dimensão importante aí. É uma música pra abraçar, pra comunicar, pra estar viva. Não é som pra excluir, não é música só pra quem sabe. Ela fala de coletividade e de afeto. E pra gente, falar e colocar afetos no mundo sendo pessoas pretas, do jeito que a gente colocou nesse disco, muda quem a gente é.

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