Em “Coisas que eu tinha para dizer e não disse”, a escritora Le Savoldi convida o leitor a mergulhar nas emoções que, muitas vezes, ficam guardadas ao longo da vida. Com uma escrita íntima e reflexiva, a autora transforma em poesia sentimentos como saudade, luto, amor e silêncio, propondo um reencontro com a própria história e com tudo aquilo que nunca foi dito. A obra, contemplada pela Lei Paulo Gustavo, se apresenta como um espaço de acolhimento e autoconhecimento, em que a palavra surge como ferramenta de cura, ressignificação e recomeço.
Em “Coisas que eu tinha para dizer e não disse”, seus versos parecem funcionar como cartas que finalmente encontram voz. Em que momento você sentiu que precisava transformar esses sentimentos guardados em poesia?
Foi quando compreendi que a poesia liberta. Durante muito tempo carreguei dentro de mim palavras que não consegui dizer, sentimentos que ficaram presos no silêncio, como cartas nunca enviadas. Escrever tornou-se uma forma de abrir as janelas da alma, de deixar escapar aquilo que já não cabia mais dentro de mim. A poesia surgiu como um respiro. Quando percebi, aquilo que antes era silêncio já havia se transformado em verso. Foi assim que encontrei uma voz para sentimentos que viveram guardados por tanto tempo.
O livro aborda emoções que muitas vezes ficam escondidas, como saudade, silêncio, frustrações e amores não vividos. Por que você acredita que ainda temos tanta dificuldade em nomear aquilo que sentimos?
Porque existem dores que não têm nome. Há sentimentos tão profundos e complexos que as palavras parecem pequenas demais para contê-los. Muitas vezes sabemos exatamente o que sentimos, mas não sabemos como dizer. Então guardamos. Silenciamos. E dentro desse silêncio cresce um universo inteiro de emoções que permanecem escondidas. Talvez por isso a poesia exista: para tentar dizer aquilo que, muitas vezes, a linguagem comum não consegue alcançar.
A perda de sua mãe aparece como uma das experiências que atravessam a obra. Como a escrita se tornou um caminho para elaborar esse luto e transformá-lo em algo compartilhável com o leitor?
Demorei muitos anos para compreender essa perda, principalmente porque ela aconteceu na infância. Devia ser proibido qualquer criança perder sua mãe. Mãe é base, é abrigo, é colo, é segurança, é o lugar onde o mundo parece possível. Imagine uma criança perder tudo isso da noite para o dia. É insustentável — para não dizer insuportável. Escrever foi a forma que encontrei de respirar dentro da dor. Foi o lugar onde pude colocar para fora o engasgo da alma, as lágrimas que ficaram sufocadas dentro de mim. A escrita transformou a dor em palavra, e a palavra, aos poucos, em possibilidade de partilha.
Seus poemas partem de vivências muito pessoais, mas acabam dialogando com experiências universais. Como você encontra esse equilíbrio entre o íntimo e o coletivo na sua escrita?
Acredito que isso acontece porque todos nós, no fundo, somos feitos das mesmas emoções. Amor, saudade, medo, perda, esperança. O coração humano pulsa sentimentos que se repetem em muitas histórias diferentes. Eu não escrevo tentando universalizar a experiência. Eu escrevo porque existe um “eu vivido” que precisa ser dito. E, curiosamente, quando esse “eu” encontra palavras, ele acaba encontrando também o “eu” de outras pessoas. É nesse encontro silencioso entre histórias que a poesia acontece.

A obra também convida o leitor a olhar para dentro de si e a fazer as pazes com a própria história. Durante o processo de criação, você também viveu esse movimento de reconciliação consigo mesma?
Sim. Escrever é também um exercício de reconciliação. Aos poucos fui entendendo que precisamos aceitar e amar nossa própria história, porque o que somos hoje é resultado de tudo o que vivemos — nossas experiências, nossas dores, nossos aprendizados. Cada cicatriz também carrega uma lição. Aprendi que o presente sempre nos oferece uma possibilidade de mudança. O agora pode transformar o futuro. A poesia nos convida a esse olhar: reconhecer quem fomos; compreender quem somos e ainda assim continuar caminhando, esperançando quem seremos daqui para a frente.
Além de escritora, você é professora e pesquisadora na área da educação. De que forma sua experiência como educadora influencia sua forma de escrever e de pensar a palavra como ferramenta de transformação?
Ser educadora é carregar uma grande responsabilidade. A palavra tem força. Ela pode levantar alguém ou ferir profundamente. Pode abrir caminhos ou fechar portas. Por isso sempre procurei usar a palavra como ponte, nunca como muro. Na sala de aula e na escrita, acredito que a palavra precisa encorajar, provocar reflexão e despertar sonhos. Quando uma pessoa começa a pensar sobre si mesma e sobre a própria vida, algo dentro dela começa a mudar. E é nesse momento que a palavra se transforma em instrumento de transformação.
A poesia aparece no livro como um espaço de cura, reflexão e recomeço. Você acredita que a escrita pode ajudar as pessoas a lidar melhor com suas próprias emoções?
Acredito profundamente. Quando colocamos no papel aquilo que sentimos, não estamos apenas escrevendo — estamos nos reorganizando por dentro. A escrita ajuda a organizar pensamentos, compreender emoções e dar forma ao que antes parecia confuso. Muitas vezes ela transforma dor em compreensão e silêncio em maturidade. Escrever é, de certa forma, uma conversa sincera da alma consigo mesma.
Depois de colocar em palavras tantas coisas que antes ficaram guardadas, o que você espera que o leitor sinta ou descubra ao terminar a leitura do livro?
Espero que o leitor perceba que o amor precisa ser dito. Que os sentimentos precisam ser vividos e expressos, assim como os sonhos precisam ser buscados. Porque, no fim das contas, de que vale a experiência da vida se temos medo de ser quem somos? Medo de não alcançar os sonhos? Não podemos esconder aquilo que sentimos por medo da rejeição, do julgamento ou de que tudo seja uma utopia. Cada pessoa carrega dentro de si uma beleza única que merece ser revelada. Talvez a maior coragem da vida seja essa: ter coragem de sentir, ter coragem de dizer, ter coragem de viver a própria verdade e ir em busca dos próprios sonhos. O que vale é o caminho, pois é caminhando que se vive.
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