Lara Ferry transforma escrita íntima em manifesto no livro “A privacidade é um luxo que o escritor não pode ter”

Luca Moreira
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Lara Ferry
Lara Ferry

Em “A privacidade é um luxo que o escritor não pode ter”, Lara Ferry convida o leitor a entrar em um território onde a escrita funciona como espelho e refúgio: um mosaico híbrido entre poesia, ensaio e diário que rompe a linearidade para registrar inquietações, silêncios e contradições do íntimo. Com uma voz crua, franca e experimental, a autora atravessa temas como solidão, autocobrança, amor em ruínas e o impulso de continuar criando mesmo quando o caos domina — construindo uma obra que não busca respostas fáceis, mas abre diálogo direto com quem já se sentiu deslocado de si.

O título do livro é forte e provocador. Em que momento você percebeu que, para escrever com verdade, seria inevitável abrir mão da privacidade — e o que isso custou emocionalmente?

Quando me sentei à mesa e comecei a escrever. Escrever é como fazer terapia sem que ninguém te pergunte “e como isso faz você se sentir?”. É profundamente desconfortável. Mesmo quando falamos de personagens, existe uma troca muito íntima com cada um deles — sempre há algo de mim ali. No momento em que você expõe isso ao mundo, passa a estar sujeito à interpretação do outro, à perda da sua própria narrativa. O meu custo emocional foi justamente esse: abrir mão do controle sobre a forma como aquilo que é meu será lido. Perder, em certa medida, a posse da minha própria história.

A obra se constrói como um mosaico de fragmentos, rompendo com a narrativa linear. Essa escolha veio como conceito desde o início ou foi surgindo à medida que o livro tomava forma?

Foi surgindo à medida que o livro tomou forma. Eram textos que se juntavam, se intercalavam, e eu percebi que não precisava seguir um caminho linear. Quis que fossem pensamentos soltos pelas páginas, porque foi assim que eu escrevi. Queria que o leitor tivesse a mesma experiência: entrar em um fluxo de consciência. E um fluxo de consciência, como sabemos, não é linear.

Em vários momentos, o livro parece habitar uma fronteira delicada entre confissão e performance. Como você lida com essa linha tênue entre o que é vivido e o que é transformado em linguagem literária?

Se você olhar bem, existe muito de mim em cada personagem — e vice-versa. Mas aos poucos venho entendendo que eu não sou meus personagens, mesmo que eles carreguem partes enormes de mim. Hoje leio o livro e vejo claramente essa separação. Isso não significa que eu não me reconheça ali, mas que, para criar aquelas pessoas, existia um contexto de vida que hoje já não existe mais em mim. É como ser pai de filhos diferentes: você nunca é o mesmo pai, porque muda através das experiências. A vida é arte, e a arte é vida.

Solidão, autocobrança, amor em ruínas e inquietação atravessam os textos. Você sente que escrever foi uma forma de organizar o caos ou de aceitá-lo como parte da existência?

As duas coisas. Foi aceitar que o caos faz parte da existência e do sentir — algo necessário, mesmo quando doloroso. Mas também foi uma tentativa de organizar esse caos interno.

Há uma sensação constante de diálogo com o leitor, quase como se ele estivesse folheando um diário aberto. O quanto esse outro — quem lê — esteve presente enquanto você escrevia?

Eu espero que isso aconteça. Não escrevi pensando diretamente no leitor, mas adoraria que essa fosse a experiência. Um dos meus livros favoritos é O Diário de Anne Frank, justamente porque, mesmo sem viver o contexto social e político dela, eu senti que mergulhei naquela vida. Através do diário, pude enxergar o mundo por outro olhar. Queria que o leitor sentisse algo parecido.

Você afirma que não busca respostas, mas as desarma, oferecendo perguntas. Que tipo de questionamento você espera que o leitor leve consigo após fechar o livro?

Perguntas que façam o leitor sair da própria caixinha. Um livro que incomoda, que faz pensar. Ser vulnerável é o mesmo que ser fraco? Se eu escrevo, isso me torna escritora? Precisamos de um outro para termos uma vida completa?

O livro conversa muito com a juventude contemporânea, mas também com qualquer pessoa que já se sentiu deslocada de si. Você enxerga essa obra como um retrato geracional ou como algo atemporal?

Sinto que vivemos em uma era de excesso: informação jogada sobre nós por todos os lados. Ficamos perdidos em meio a tanta coisa e não temos tempo de processar nossos próprios sentimentos. Esse retrato geracional da juventude em que vivo acaba sendo um espelho. Por isso quis fazer mais perguntas. Hoje temos verdades que acreditamos absolutas, e a falta de diálogo nos empobrece. Antes de conversar, quis incomodar com questões existenciais.

Depois de transformar vivências tão íntimas em literatura, o que mudou na sua relação com a escrita — e com você mesma?

Me deu mais coragem para continuar e entender meu propósito na escrita. Eu não escrevo porque é confortável — pelo contrário. Escrevo porque é extremamente desconfortável. Se alguém se sentiu triste ou inquieto em algum momento da leitura, provavelmente eu também me senti assim enquanto escrevia. Isso me tornou mais flexível diante dos meus medos e mais fiel à minha verdade interna. Sempre em busca dela, e não da validação do mundo exterior.

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