A literatura fantástica brasileira acolhe mais uma obra destinada a cativar os admiradores do gênero: “As Crônicas de Terraclara – O Abismo”, um livro escrito por L. F. Magellan. Em sua incursão na ficção, o autor narra a saga dos jovens artenianos Mia, Gufus e Teka, que unem forças para enfrentar o Povo Sombrio, um inimigo lendário que reside além do imenso abismo, um local repleto de mistérios para os habitantes de Terraclara.

Com capítulos breves e uma narrativa fluente, os leitores serão conduzidos a uma terra distante, com sistemas políticos, econômicos e normas sociais aparentemente consolidadas, mantidas pelo Venerável Zelador dos Interesses do Povo. Além disso, serão apresentados aos influentes clãs Patafofa, Ossosduros, Serrador, Mão-de-Clava, Muroforte e Aguazul. Nesse contexto, os três protagonistas lidam com um histórico de guerras, assembleias e disputas de poder.

A trama imerge o leitor em um universo repleto de aventuras, à semelhança dos clássicos de Júlio Verne, J.R.R. Tolkien e C. S. Lewis, mas com uma abordagem ancorada no cotidiano. Inspirado por esses grandes nomes da literatura, L. F. Magellan contribui para a popularização da alta fantasia entre os autores nacionais. Os heróis enfrentam diversos desafios, aprendem a arte da luta, fazem novos aliados e precisam lidar com as complexidades das diferenças.

Como o primeiro volume de uma trilogia, o livro foi concebido para os leitores ávidos por fantasia e realidades alternativas, oferecendo uma dose envolvente de entretenimento capaz de provocar reflexões importantes. Uma obra que instiga a repensar o mundo e, quem sabe, transformar a própria jornada, seguindo os passos dos heróis da trama.

O que inspirou você a criar “As Crônicas de Terraclara – O Abismo”? Existem influências específicas que moldaram a narrativa?

Terraclara é um mundo de fantasia, uma realidade alternativa, mas sem usar artifícios mágicos nem sobrenaturais. Eu quis construir uma realidade diferente, mas sem bruxos, elfos ou dragões. É uma realidade nova, onde pessoas enfrentam e dependem de outras pessoas, sem magia ou animais fantásticos. A inspiração veio de muitas influências literárias que consumi ao longo da vida, desde Julio Verne, passando por Tolkien até mais recentemente Orson Scott Card e John Scalzi. Esses e tantos outros criadores de universos alternativos ao nosso abrem possibilidades de vermos o mundo e nossos próprios “eus” através das lentes de novas realidades e possibilidades. Quando olhamos, por exemplo, para Duna de Frank Herbert, é uma história épica passada no espaço com gigantescos vermes de areia, mas que no fundo é uma trama política que demanda coragem e amadurecimento pessoal aos protagonistas. Terraclara é assim, um mundo diferente em tantos aspectos, mas onde pessoas com os quais o leitor consegue se identificar lutam para vencer desafios incríveis.

Como você vê o papel da literatura fantástica brasileira no cenário literário internacional? Existem características únicas que você acredita que distinguem a fantasia brasileira?

O mercado internacional há muito produz e consome literatura fantástica. A primeira edição de Frankenstein é de 1818, Alice no País das Maravilhas chegou às livrarias em 1865, O Senhor dos Anéis é de 1954 e por aí vai. Ou seja, esse gênero está presente nas estantes norte-americanas e europeias há muito tempo e influenciou gerações de leitores e depois de cineastas. É um gênero reconhecido e apreciado mundo afora, mas ainda engatinha em quantidade e relevância no mercado nacional. A literatura fantástica brasileira é muito rica em influências variadas, assim como toda a maravilhosa salada cultural do nosso país e está, aos poucos, ganhando espaço com essa característica. A autora Renata Ventura é um bom exemplo quando traz a temática dos bruxos para as favelas cariocas quando o protagonista é jurado de morte pelo chefe do tráfego e busca na magia uma forma de salvar a si e sua família. Esse é um dos muitos exemplos do que já temos disponível no Brasil e que espero que, em breve, estejam achando seu lugar no mercado internacional.

Pode nos falar mais sobre Mia, Gufus e Teka, os protagonistas de sua obra? Quais características ou desafios eles carregam consigo?

Mia, Gufus e Teka são jovens que têm sua vida pacata e equilibrada abalada por acontecimentos originados interna e externamente à sociedade de Terraclara. Eles vão ser obrigados a empreender uma clássica jornada de heróis, saindo de uma situação vigente tranquila, passando por uma ruptura que os leva à uma viagem de aprendizado até o retorno. Cada um deles carrega características complementares e seus defeitos acabam sendo compensados pelos demais. À medida que avançavam em sua jornada, cada um dos nossos improváveis heróis seguirá caminhos diferentes, descobrindo realidades antes impensáveis. Mia vai superar seus medos mais profundos e descobrir um poder interior que nunca imaginara possuir ao tornar-se mestre da estratégia e da sabedoria. Gufus encontrará força na compaixão e na empatia, unindo as pessoas e criando laços de amor e solidariedade onde quer que passasse. Teka, por sua vez, vai demonstrar sua coragem e jeito destemido para tomar decisões difíceis e ajudar a equilibrar os talentos de seus companheiros nos momentos mais arriscados e inusitados dessa jornada.

Você mencionou que tenta discutir temas relevantes, como diversidade e respeito, em meio à aventura épica. Como esses temas se entrelaçam na trama?

As Crônicas de Terraclara vão levar o leitor à um mundo de intrigas e aventuras, mas há um pano de fundo em toda essa história. Terraclara é um mundo de fantasia que reflete em sua quase utopia um pouco dos nossos “lugares confortáveis”, seja um nicho social, um bairro ou um condomínio onde vivemos de forma estável sem muito contato com as dificuldades e maravilhas que estão fora desse mundinho. Além do Abismo nossos protagonistas vão encontrar pessoas novas, vivendo vidas diferentes e encarando perigos e aventuras que nossos heróis só vão conhecer quando saírem de seu mundo quase perfeito. Além disso, há um forte protagonismo feminino na história além de personagens de várias faixas etárias que vão revezando esse protagonismo. É um livro onde pessoas contam com outras pessoas para vencer os desafios mais inesperados.

Como foi criar o mundo de Terraclara? Existem elementos específicos desse universo que você acha que ressoam mais com os leitores?

Esse livro apresenta todo um contexto social, político e econômico próprio, intercalando pequenos flashbacks (perdão pelo anglicismo) que vão apresentando a história de Terraclara como, por exemplo, a sangrenta Guerra dos Clãs. Terraclara naturalmente tem elementos da sociedade brasileira e de ícones da história clássica como o Império Romano, mas tudo abordado de forma leve e dinâmica. Leitores de todas as idades vão poder se ver em personagens jovens, de meia idade e idosos que têm a importância de sua participação alternada ao longo da história. A jornada de crescimento que acompanha o livro não é apenas dos protagonistas como Simba de O Rei Leão ou Luke Skywalker, é uma aventura com perigos e ação compartilhados por vários personagens que vão ressoar nos leitores enquanto evoluem e atuam para salvar Terraclara.

L. F. Magellan

Os poderosos clãs em Terraclara desempenham um papel significativo na trama. Como você desenvolveu essas estruturas sociais e políticas?

Os clãs são estruturas de poder muito parecidas com o que vimos ao longo da história da humanidade e ainda vemos aqui mesmo no Brasil. Essas lideranças dos Clãs desfrutam de poder e influência, ainda que o Zelador – líder e administrador de Terraclara – seja sempre eleito entre pessoas sem ligação com as poderosas famílias. Aspectos como preconceito social contra os “socialmente emergentes” aparecem de forma bastante explícita nos relacionamentos entre os jovens alunos e mostram uma mácula que, infelizmente, ainda vemos no nosso dia a dia. A história das Crônicas de Terraclara mostra bem o contraste entre o poderoso chefe de clã e o humilde barqueiro e como essas diferenças desaparecem em alianças para salvar aquela sociedade.

Autores como Júlio Verne, J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis são mencionados como inspirações. Como esses escritores influenciaram seu próprio estilo e abordagem?

Esses autores são algumas das maiores influências em tudo que escrevo. Quando criança fui apresentado a Monteiro Lobato e Júlio Verne, e foi quando tomei o gosto pela leitura. Os grandes nomes da ficção científica têm destaque em minha biblioteca como Arthur C. Clarke e Philip K. Dick. Mas foram os mundos de fantasia que delinearam o meu estilo. Tolkien e Lewis são marcantes e um ideal a ser alcançado, mas também sou grande fã de J. K. Rowling, e sua saga Harry Potter que conheci já adulto ao comprar os livros para os meus filhos (e sempre os lia antes deles).

Quais são os maiores desafios que Mia, Gufus e Teka enfrentam ao longo da história? Como eles evoluem como personagens?

Os protagonistas se veem obrigados a empreender uma jornada épica saindo de Terraclara e cruzando o grande abismo para chegar em terras totalmente desconhecidas, habitadas, de acordo com as lendas, por um povo sombrio e maléfico. Essa jornada vai levá-los a enfrentar perigos e aventuras em novos cenários, encontrando adversários e aliados em sociedades de culturas diferentes com pessoas que vão lutar ao seu lado enfrentando perigos dentro e fora da segurança de Terraclara. A jornada além do abismo terá muita correria, muitas lutas, o frio do aço das espadas, mas também o calor da amizade e da lealdade. O amadurecimento dos personagens será forjado nessas adversidades. Mia, por exemplo, a menina tímida e retraída quase morre afogada porque não sabe nadar, mas ao invés de ser um fardo para os demais revela-se uma grande estrategista, além de arqueira de fazer inveja aos elfos de Tolkien. Gufus o preguiçoso comilão acaba se mostrando um líder quando é preciso encontrar o caminho em terras desconhecidas e Teka vê seu amor e lealdade levá-la a um rumo totalmente inusitado.

Além da aventura, há uma mensagem específica que você espera transmitir aos leitores por meio de “As Crônicas de Terraclara – O Abismo”?

As grandes mensagens que As Crônicas de Terraclara – O Abismo nos transmitem são, ao mesmo tempo, clássicas e atemporais: Coragem, lealdade e amizade são armas mais poderosas que o aço. Mas, além disso, a mensagem predominante neste primeiro volume da trilogia é que fora dos muros dos nossos mundinhos perfeitos há outras realidades, outras pessoas e que o isolacionismo é um problema a ser enfrentado.

Agora que o primeiro livro é lançado, quais são seus planos para os próximos volumes da trilogia? Há outros projetos em mente?

O segundo volume das Crônicas de Terraclara terá o subtítulo “A Espada” e por aí já dá para ter uma noção do tom mais aventureiro e bélico dessa segunda parte. Nessa continuação vamos nos embrenhar mais nas terras além do Abismo e conhecer o grande império que domina aquela parte do mundo. Algumas surpresas vão novamente atropelar nossos protagonistas que vão ter literalmente que lutar muito nesse novo volume. Ao mesmo tempo vamos continuar a introduzir temas relevantes como parte da história. Um bom exemplo disso é uma nova personagem que é surda e poderemos abordar, como parte da história, suas dificuldades em uma sociedade que não é inclusiva. Os leitores podem esperar aventuras em cenários novos e com personagens ainda mais envolventes. Já a terceira e última parte vai mostrar o encontro de dois mundos, que não será nada pacífico, permitindo abordar como pano de fundo o drama dos refugiados. Tudo isso mantendo as divertidas relações pessoais que marcam o primeiro volume.

Acompanhe L. F. Magellan no Instagram

Share.